Por: Josaine Airoldi
“Criança não trabalha, criança dá trabalho” – Arnaldo Antunes
Desde criança cuidava de outras crianças para ajudar em casa.
Éramos pobres, mas ela era mais que eu; por isso acho que sempre teve condições de se sobressair melhor na selva que é a escola, pois lutava a cada dia para sobreviver às adversidades de uma infância desprovida de infância.
– Só loucos para andar de bicicleta nessa chuva. – Comentei certa ver ao ver um senhor passar de bicicleta. – Não são só loucos que fazem isso, quem precisa também. – Comentou secamente.
Então percebi que aquele que tinha passado por nós era o pai dela.
Fiz o comentário mais para ter o que falar do que qualquer outra coisa. Ela tinha esse poder sobre mim. Sempre conseguia fazer com que me sentisse uma perfeita idiota.Estudamos vários anos juntas nas mesmas turmas. A escola era muito pequena e não havia opção de escolha e não tínhamos noção que teríamos algum direito se tivéssemos opções.
Na quinta série formávamos um quarteto: Eu, ela, Margarete e Maria Aparecida. Era a primeira vez que eu me sentia como parte de um grupo.
Certa vez estávamos jogando vôlei no pátio da escola. De repente o menino mais bonito da escola incluiu “mor” a letra a – a última letra do seu nome dela, criando a palavra: Claudiamor e não contente ficou repetindo, para que ela não tivesse dúvidas do que queria dizer. Fiquei com muita inveja, pois não bastava jogar bem, tinha que atrair a atenção daquele que tinha os olhos mais lindos do mundo e o nome de Ângelo.
Conversávamos muito sobre quase tudo e principalmente a respeito do nosso futuro escolar. Antes que o ano terminasse Maria Aparecida foi embora para outra cidade. Não foi naquele ano que implantaram a sexta série. Margarete se “casou” e não nos seguiu. Nunca mais soube nada a respeito delas.
Nós seguimos. Estudamos muito Matemática na parada de ônibus quando ficamos em recuperação na sexta série.
Desistimos da sétima série após longa greve dos professores, embora não combinado eu não voltei e ela também não.
Foi bom; pois ao retornarmos no ano seguinte encontramos a Angelita com a qual conversamos e rimos muito quando íamos a pé para casa, para economizarmos o dinheiro da passagem e para ficarmos mais tempo juntas.
A oitava série estava passando e eu sempre com a ideia fixa que ela seria uma excelente jogadora de vôlei como a Ana Moser – quem foi criança nos anos 80 e gostava de esportes saberá imediatamente de quem se trata. Por mais que tentasse não conseguia jogar como ela. Ela era a melhor desde sempre.
Quando começou a namorar seguiu os preceitos do lugar que as gurias de Tramandaí aos 15 anos namoravam cobradores de ônibus, aos 18 namoravam garotos que estavam servindo no exército e dali por diante valia o que viesse.
Primeiro foi Edson e depois foi o Claudio, ambos, cobradores da empresa de transporte Dindinho.
Por coincidência nos encontramos no mesmo emprego. Estava de férias da escola, estava no Segundo Grau – cursava Magistério e precisa trabalhar no verão. Passava em frente de uma padaria quando li o cartaz: “Precisa-se de balconista,” como eu tinha certa experiência de empregos anteriores; achei que poderia dar conta deste.
A proprietária era uma ex-professora de Português nossa da época em que estudávamos juntas.
O emprego era horrível; mas a companhia e a destreza dela nas realizações das atividades pertinentes a nossas funções tornaram-no menos deplorável.
O verão acabou. Voltei a estudar. Perdi o contato com ela.
Ao passar pela padaria em que eu tinha trabalho a encontrei. O mesmo olhar de fibra. Rapidamente conversamos. Fiquei sabendo que havia casado e descasado. Tinha uma filha se a minha memória não me trai.
O que eu não esqueço é de suas enormes unhas. Unhas de bruxas – eu dizia – quando brigávamos.
Unhas de uma menina que teve que crescer antes da hora, é assim que me lembro dela: com carinho e com afeto.
14/10/2.010

Adorei !
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