Embruxada

Por: Josaine Airoldi

Minha irmã caçula herdou do meu pai os olhos azuis que tanto a minha mãe desejou durante a gravidez e também as crises de asma do meu avô.

Foi benzida por todas as curandeiras da cidade, inclusive minha avó que tinha o costume de “coser” os males de quem precisasse e pedisse.

Foram ensinadas inúmeras simpatias para curá-la. Todas feitas a risca. Nenhuma, até hoje, surtiu efeito.

Certa vez, alguém sugeriu que a menina estava embruxada, por isso continuava tendo crises e não se curava.

– Como assim, embruxada? Havia uma bruxa entre nós? – Eu me questionava.

A conversa dos adultos continuava indiferente a minha expressão de medo e espanto, ouvindo tudo aquilo.

– Isso mesmo. A bruxa é a primeira pessoa que vier aqui amanhã. – Explicou aquela que parecia entender bastante do assunto. Era preciso que essa pessoa deixasse de ter contato com a criança para as crises acabassem.

Quase não dormi naquela noite. Precisava conferir quem era a bruxa. Será que seria igual as que apareciam em livros e filmes que passavam na televisão?

Eu tinha certeza que a bruxa – aquela que estava causando todo o mal – era uma senhora muito feia e se assemelhava a uma criatura das trevas – que era muito amiga da família e frequentemente estava lá em casa.

Qual não foi a surpresa de todos quando a tia Wilma chegou. Não conseguia olhar para ela. Ela era muito engraçada, sempre nos fazia rir muito de qualquer coisa, além disso, nunca havíamos falar em bruxa loira.

Não me recordo com foi recebida por nós, mas todos que a conheceram guardam com carinho boas lembranças suas.

Não sei se a tia Wilma ficou sabendo que era uma bruxa, mas se soube, certamente, deu muitas gargalhadas.

16/05/2.020

Uma história puxa outra!

O ultimo adeus https://wp.me/pbBYGl-hP

O sorriso da Gracinha

Por: Josaine Airoldi

Ela sempre foi muito bonita e tem um sorriso encantador.

Em todas as aulas esperávamos a mesma cena: ela ir apontar o lápis e próximo à lixeira ficar rindo baixinho.

Do que ria? Não me lembro. Acho que não tinha motivo. Talvez, o que gostava era a “quebra” na rotina da aula.

Estávamos em processo de redemocratização no Brasil.

Naquele tempo, quem não usava o uniforme era impedido de assistir à aula e tinha que voltar para casa imediatamente.

Havia também a aplicação de castigos como: cheirar parede ou permanecer com os joelhos em uma tábua com tampinhas viradas para cima, além dos puxões de orelha…

Em setembro, enfileirados e uniformizados com chuva ou sol marchamos e exaltamos a pátria mãe gentil.

Em casa, à noite ouvíamos o pronunciamento do Excelentíssimo Presidente da República General João Figueiredo, que interrompia a programação normal dos canais de televisão, sempre que bem entendia.

Lembro-me também do Hino Nacional Brasileiro sendo cantado pela Fafá de Belém em meio a uma multidão pedindo: Diretas já!

Acompanhamos pelo Jornal do Almoço as conturbadas brigas do ex-casal: Teixeirinha e Mary Terezinha.

Ao se apaixonar por outro, ela deixou o Rio Grande do Sul dividido.

Mais tarde, ele deixou a todos nós de luto.

Havia, aqui, as peripécias do então prefeito: Sessim – aquele que é até hoje – é idolatrado ou odiado pelos que o conhecem.

Foram tempos confusos para quem não entendia muito bem o que estava acontecendo.

Na minha concepção eu só precisava ser comportada, que nada de ruim aconteceria.

Assim era na escola e assim era em casa.

Acho que por isso o sorriso da Rosângela, a Gracinha, me remetia a ideia que eu poderia também  subverter a ordem, pelo menos por alguns instantes.

29/04/2.020

Uma história puxa outra!

https://lembrarparanaoesquecerinfo.data.blog/2021/01/23/se-eu-tivesse-uma-mochila

Gadeias

Por: Josaine Airoldi

Ela me  causou vários problemas. Era um dos motivos preferidos da mãe para brigar comigo.  -Assim começou o seu relato.

Quando estava tudo bem lá em casa ela resolvia cuidar do meu cabelo. A pergunta e a explicação eu já conhecia de cor:

– Cadê a tua escova? Quero pentear essas tuas “gadeias”. Geralmente eu não sabia, até porque eu a odiava.

As “gadeias” em questão eram o meu cabelo loiro, comprido e embaraçado. Em virtude disso eu tinha até uma característica particular: eu era “gadelhuda.”

Ela não tinha paciência nem comigo nem com ele: escova-o com raiva puxando-o com força e quando estava de mau-humor amarrava-o com mais força ainda.

Tudo ficava pior quando encontrava piolhos no meu cabelo, o que não era nada difícil, pois eu era um criadouro deles. Ainda sinto o cabo de madeira sendo  batido com toda a força na minha cabeça.

Numa das eternas busca pela escova perdida encontrei-a entre os resíduos de lixo que haviam sido queimados no pátio.  Estava parcialmente queimada, principalmente nas cerdas.

Ficamos em silêncio, por um longo tempo, ouvindo o barulho da chuva que caia incessantemente e indiferente a nós e a nossas memórias.

Certa vez… – ela retoma como se voltasse para o momento que estava prestes a narrar.   – Quando foram chamados os alunos cujos pais queriam a famosa e tradicional: Lembrança Escolar, embora tivesse ensaiado várias possibilidades de solicitar que a professora fizesse algo diferente do rigoroso rabo de cavalo com o meu cabelo que minha mãe tinha feito – usando a minha maravilhosa escova, não tive coragem: tinha um medo terrível dela também.

Enquanto penso em dizer algo para amenizar a dor que essa lembrança lhe traz, ela continua…

A minha irmã que nunca teve uma escova exclusiva como eu e nunca teve cabelos embaraçados, os cabelos dela eram lisos ao extremo, os quais gostava de cortá-los escondida atrás do fogão a gás se tornou cabeleireira e tem escovas de todos os formatos e utilidades. Sabe como ninguém manuseá-las entre um corte e um penteado.

Eu continuo desgrenhada… – Diz rindo e encerrando assim nossa conversa sobre esse assunto e se servindo de mais vinho.

23/11/2.010

Os tiradores de sangue

“Naquele tempo nossos medos eram outros.”

Por: Josaine Airoldi

Esqueça o homem do saco, o bicho papão, a mula sem cabeça e todas as formas de amedrontar às crianças, nenhum deles me provocava medo.

Eu receava ser atacada pelos tiradores de sangue.

Não se trata de vampiros, embora eles também não existam.

Não sei de quem eu tinha mais medo se da minha mãe ou se deles.

Na volta da escola era sempre a mesma coisa.

Se eu a seguisse, desobedeceria minha mãe.

Se eu não a seguisse ela os acionava.

Bravamente e solitariamente eu seguia pelo caminho indicado pela minha mãe enquanto ela chamava: Os tiradores de sangue.

Embora eles nunca tivessem aparecido, eu os temia.

Ela era assim sempre tinha uma brincadeira, uma história ou uma solução para tudo.

Uma das nossas brincadeiras consistia em brincávamos de “casinha” numa casa de verdade.

 A filha dela era sempre a minha irmã.

Era em quem dava banho, colocava bastante talco e após vesti-la com a sua melhor roupa, saíamos para passear.

Ela sempre com algum sapato ou sandália de salto alto da minha tia.

 Às vezes, eu era a professora; ela a mãe preocupada.

Certa vez quando veio buscar o boletim da filha eu seriamente usei uma expressão corriqueira o cotidiano escolar:

  – Sua filha passou raspando.

Começaram a rir sem parar.

Primeiro ela depois a filha que nunca tinha frequentado a escola e não fazia a menor ideia o que significava o que eu havia falado. Isso foi o que me dava mais raiva: o poder que tinha para influenciar as pessoas.

 Fiquei profundamente chateada, ora não era para brincar com a brincadeira.

Quando era na sua casa as brincadeiras eram outras.

Fazíamos orelhas de macaco – era para serem bolinhos fritos.

Atrapalhávamos o namoro da minha tia com um dos irmãos dela.

Como não tínhamos luz elétrica eles gostavam de namorarem no escuro ou tentarem pelo menos.

 Queimar papel higiênico sujo, certa vez quase incendiei a “patente” não havia banheiro.

 Quando brincávamos trocávamos de nome.

Tínhamos nossa amiga e vizinha imaginária: a Lita.

 Também, brigávamos muito, principalmente quando ela queria fazer aquilo que eu não podia fazer.

Eu sabia que na hora de ser responsabilizada era eu quem tinha que arcar com as consequências porque ela estaria longe.

Como éramos três, é claro que eu sobrava.

Às vezes o meu primo me defendia e batia nela com uma toalha de um modo que somente ele conseguia.

Nunca brigamos fisicamente, mas eu gostava quando ele se vingava dela por mim embora eu achasse exagerada atitude dele em relação ao que havia acontecido; porém era bom me sentir protegida.

Talvez seja por isso que ela usou seu olhar malicioso para insinuar que eu tinha feito algo com ele que não fiz.

Se eu soubesse que isso somente aconteceria dez anos depois e com outra pessoa não teria ficado tão magoada e não teria ficado quase um ano sem conseguir olhar para ela.

 Só voltei a conversar com ela depois depois.

 Com certeza, ela foi minha melhor e pior amiga de infância que eu tive.

                                                                                              27/ 11/ 2.010

Bodas de plástico

Por: Josaine Airoldi

Busco na memória lembranças nossas.

Hoje sei que deveria ter sido melhor contigo te deixando ir embora logo em seguida.

Fui egoísta te deixei entrar, um pouquinho, mas deixei. Você realmente me amou.

Eu nunca consegui te amar por que não correspondia as minhas expectativas

Nunca te respeitei, desculpas embora tarde sei que podes me compreender.

Nunca te quis realmente, não posso negar este fato.

Sei que estás bem. Estás longe de mim e de minhas amarras egoístas.

Fiquei com algumas boas lembranças, é verdade: os CD da Legião Urbana com os quais sempre me presenteava em datas especiais.

Nossas tardes de domingo com sorvete e Martini.

E o amanhecer na praia…  

Nossos planos mais profundos foram aqueles que fizemos um ao outro numa noite qualquer enquanto estávamos num bar.

Nessa noite entre uma pina colada e outra construímos um anel para comemorarmos nossas Bodas de Plástico.

Guardei o nosso símbolo até aquele domingo de sol forte em que finalmente te disse adeus para sempre.

Lamento, somente, que naquela tarde era teu aniversário.

07/08/2.010