Gadeias

Por: Josaine Airoldi

Ela me  causou vários problemas. Era um dos motivos preferidos da mãe para brigar comigo.  -Assim começou o seu relato.

Quando estava tudo bem lá em casa ela resolvia cuidar do meu cabelo. A pergunta e a explicação eu já conhecia de cor:

– Cadê a tua escova? Quero pentear essas tuas “gadeias”. Geralmente eu não sabia, até porque eu a odiava.

As “gadeias” em questão eram o meu cabelo loiro, comprido e embaraçado. Em virtude disso eu tinha até uma característica particular: eu era “gadelhuda.”

Ela não tinha paciência nem comigo nem com ele: escova-o com raiva puxando-o com força e quando estava de mau-humor amarrava-o com mais força ainda.

Tudo ficava pior quando encontrava piolhos no meu cabelo, o que não era nada difícil, pois eu era um criadouro deles. Ainda sinto o cabo de madeira sendo  batido com toda a força na minha cabeça.

Numa das eternas busca pela escova perdida encontrei-a entre os resíduos de lixo que haviam sido queimados no pátio.  Estava parcialmente queimada, principalmente nas cerdas.

Ficamos em silêncio, por um longo tempo, ouvindo o barulho da chuva que caia incessantemente e indiferente a nós e a nossas memórias.

Certa vez… – ela retoma como se voltasse para o momento que estava prestes a narrar.   – Quando foram chamados os alunos cujos pais queriam a famosa e tradicional: Lembrança Escolar, embora tivesse ensaiado várias possibilidades de solicitar que a professora fizesse algo diferente do rigoroso rabo de cavalo com o meu cabelo que minha mãe tinha feito – usando a minha maravilhosa escova, não tive coragem: tinha um medo terrível dela também.

Enquanto penso em dizer algo para amenizar a dor que essa lembrança lhe traz, ela continua…

A minha irmã que nunca teve uma escova exclusiva como eu e nunca teve cabelos embaraçados, os cabelos dela eram lisos ao extremo, os quais gostava de cortá-los escondida atrás do fogão a gás se tornou cabeleireira e tem escovas de todos os formatos e utilidades. Sabe como ninguém manuseá-las entre um corte e um penteado.

Eu continuo desgrenhada… – Diz rindo e encerrando assim nossa conversa sobre esse assunto e se servindo de mais vinho.

23/11/2.010

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