Não tinha lugar para mim

Por: Josaine Airoldi

Estávamos voltando da escola quando o caminhão passou por nós, sai em disparada, gritando para os que – supostamente ficariam para trás – que iria embora de carona. Como meu pai não parou, fiquei paralisada no meio da rua sob o sol escaldante de setembro,  suportando meus colegas rindo de mim.

Meu pai me disse quando cheguei em casa,  que eu poderia machucar minha irmãzinha, por isso  não tinha lugar para mim.

Mesmo tendo só 9 anos minha infância tinha sido decretada como acabada pela minha mãe e meu pai a partir daquele dia, afinal eu era a mais velha, então teria que cuidar da irmã mais nova –  aquela que tanto tinha pedido, desesperadamente, para os aviões que avistava percorrendo o céu; trouxesse e teria que continuar tendo um comportamento exemplar para a irmã do meio,  que também não gostou da sua nova função na família.

Onde minha condição de criança ficava nessa equação?

16/04/2.020

P.S. Somente agora é que soube que os “TDAH” tem baixíssima tolerância a qualquer tipo de rejeição. Minha irmã está com 42 anos e eu sempre que leio ou lembro desse texto eu me vejo naquela manhã de setembro.

17/09/2.025

É como andar de bicicleta

“Que possamos lembrar somente dos bons momentos.”

Por: Josaine Airoldi

                                                                            

É como andar de bicicleta – alguns dizem quando querem se referir ao que nunca esquecemos, uma vez aprendido, mas esquecem-se como é difícil aprender.

Os adultos em volta diziam que era fácil: é só se  equilibrar e pedalar.

Eu não conseguia: ou me equilibrava ou pedalava. As duas coisas juntas não eram possíveis: o chão era o limite.

Ela, a bicicleta na qual eu tentava – sem muito sucesso andar – não tinha rodinhas. Eu também não tinha mais idade para uma daquelas. Era uma Caloi 10. Enorme para mim. Além disso, não era minha. Era da minha tia que sabia andar e costumava nos levar na garupa de vez em quando.

Eu aprendi a andar de bicicleta depois de… 

Ter levado muitos tombos…

Ter ralado os joelhos…

Ter machucado os cotovelos…

Entre outras coisas que acontecem com quem quer aprender a andar de bicicleta…

Quando tivemos a nossa bicicleta. Era para eu andar primeiro – disseram.

Minha irmã não me deixou ter esse prazer, mesmo com os pneus murchos ela deu a primeira pedalada. Caiu logo em seguida, mas foi quem andou primeiro.

Era vermelha. Não tinha muitos detalhes, mas era indicada para meninas por ser mais leve e fácil de andar.  

Chamávamos de Moto Laser era o nome de um seriado que passava na televisão aos domingos.

Muito nos divertimos com ela: eu e minha irmã.

Ela, a Moto Laser e todas aventuras que nos proporcionou são algumas coisas que gosto de lembrar para não esquecer…

15/03/2.020