Dindo… Du

Por: Josaine Airoldi

Meu avô tinha duas personalidades: a “normal” e a diferente.

Eu gostava mais quando estava na segunda personalidade, porque ele não ficava doente, falava com fluência, era destemido para desespero dos demais membros da família.

Eu era criança e não tinha ideia do que os adultos passavam quando surtava – ou com dizia: estava diferente.

O código era a maleta preta – que minha avó escondia, mas sempre a encontrava – sabíamos que iria começar tudo outra vez.

Era comum comprar coisas de que não necessitava de modelos e cores diferentes. Por muitos anos não foi necessário comprar garrafas térmicas.

Quem não o conhecia considerava-o um próspero criador de gado da região.

Quem o conhecia tentava ajudar, avisando minha avó dos empreendimentos que andava fazendo que cedo ou tarde, teria que desfazer.

Era comum acusar todos que tentavam em vão trazer–lhe a realidade, de querer o mal dele.

Esbraveja em alto e bom som:

– Vocês querem ver o meu mal! Vocês não querem me ver bem! Vocês gostam de me ver doente!

Saía sem rumo.

Ninguém conseguia detê-lo.

Para voltar para ao “normal” era necessário a interversão e ajuda de uma vizinha que era enfermeira: Dona Noemia.

Depois de longo período internado em num hospital psiquiátrico – em Porto Alegre – voltava sob efeito de medicação, que provocava muito sono.

Quando chovia ficava deitado nos perguntando se estava chovendo.

Quando dizíamos que sim, acrescentava:

– Mas é água!

Enquanto isso minha avó lutava contra as intempéries da natureza.

Tudo ficava mais difícil para ela, principalmente a ordenha das vacas.

Ambas personalidades ficavam extremamente irritadas quando algum desavisado ocupava o lugar dele à mesa.

Não dizia nada, apenas ficava em volta esperando a minha avó informar que aquele lugar era dele.

O mais incrível era como descrevia a festa que eu teria quando completasse quinze anos.

Dizia sempre:

– Vou te dar uma pulseira cravejada de ouro.

Numa das sessões de terapia descrevendo meu avô contei essa história.

Meu terapeuta me perguntou, com voz embargada, se eu tinha ficado decepcionada porque o desejo do meu avô não foi concretizado?

Disse que não. Nunca me importei com a festa ou com o presente. Achava divertido o modo que falava. Gostava da atenção que me dava e do fato de dizer que eu era especial para ele por ser sua primeira neta e além disso, sua afilhada.

Eu o chamava de Du, por não ser capaz de pronunciar: Dindo.

Ele se foi em outubro quando eu tinha 14 anos – seis meses depois que minha avó.

Sinto falta dos dois até hoje.

18/05/2.020

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