Eu não era ela

Por: Josaine Airoldi

Depressão após fim de namoro. Tristeza sem fim. Transferência de escola. Redução de salário. Muitas contas a pagar. Últimos semestres na faculdade. Estágios. Relatórios. Trabalhos de conclusão. Teatro da Gleydes. Artigo para a Terezinha. Formatura à vista. Tudo ao mesmo tempo. Só quem viveu sabe! 

Foi então que ela teve a ideia.  Não só isso, colocou-a em prática. Soube depois. Não tinha como ficar pior a minha vida – então aceitei.

Ela tinha selecionado cinco pretendentes numa sessão dos classificados da Zero Hora – Desafio Sentimental. Escreveu uma carta como se fosse eu, fez cópias e enviou para os perfis que achava que se encaixava com meu.

Por telefone ficou horas me instruindo como deveria falar. Mandou uma cópia da carta pelo correio. Tinha que confirmar que eu era aquilo que estava escrito. Em breve, com certeza algum deles iria entrar em contato,  tinha que estar preparada.

Já tinha esquecido dessa história quando recebi uma ligação. A voz era agradável e a conversa também. Chamava-se João Luis.

Conversávamos quase todos às noites após eu chegar da Faculdade. Era a melhor parte do meu dia ou da noite.

Relatava sobre as idas ao supermercado acompanhado pela sobrinha. Sobre o dia a dia como corretor de seguros. Sobre o que gostava de fazer nos fins de semana…

Eu gostava de conversar sobre assuntos triviais e os problemas pelos quais estava passando…

Aparentemente gostavamos de várias coisas em comum…

Como as férias de julho estavam próximas,  combinamos de nos encontrarmos quando fosse a Porto Alegre.

Minha amiga e mentora tinha que estar junto. Instruída por ela marcamos num restaurante que ficava num shopping perto da casa dela.

Ah! Eu tinha que parecer elegante, então, se me perguntasse o que eu gostaria de beber teria que dizer que era suco de laranja.  Cerveja era vulgar. Vinho era caro. Refrigerante era infantil.

Eu estava entre curiosa e em pânico. O que me dava segurança era que sempre tão articulada e esperta não deixaria eu entrar em nenhuma cilada. 

A melhor parte, sem dúvida, foi a espera pelo rapaz, porque quando nos abordou veio a primeira decepção: era feio e estava vestido com o uniforme da empresa.

Condizia com a descrição que eu havia escutado, mas não com a que eu tinha imaginado.

Após as devidas apresentações. Então, ela  avisou que daria uma volta para que pudéssemos nos conhecer melhor.

A conversa não fluiu como fluía pelo telefone.

Relatou as desaventuras que teve certa vez numa viagem que fez para o litoral. Nada interessante para um primeiro encontro. Comentou que morava em tal bairro porém trocou a localização, talvez para analisar minha reação. Nem  precisei escolher o que beber pois, não houve essa possibilidade.

Entre um relato desagradável e outro ele perguntava em que momento a minha amiga voltaria. Quando  voltou ficou encantado novamente por ela, que não tinha nenhum interesse nele. Estava casada. Estava bem assim e também não gostou dele.

Nos despedimos ali mesmo. Nunca mais me ligou. Segui a vida… Aos poucos tudo foi serenando…

Sempre rimos bastante do nosso encontro às escura a três, enfim, eu não era ela.

24/04/2.020

P.S. Em 2.025 nossa amizade completou Bodas de Pérolas. Durante os 30 anos que convivemos:  eu casei e descasei. Ela ficou viúva e casou novamente. Ela continua me indicando pretendentes e me orientando como me comportar. Analiso as opções, não gosto e continuo fazendo escolhas erradas, por minha conta e risco. 

27/10/2.025

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