EU… EU… EU… sou um GÊNIO

Por: Josaine Airoldi

Egocêntrico. Egoísta. Enfadonho. Esquisito. Estranho. Extremista…

Apesar dessas características espantosas reunidas na mesma personalidade ele foi a pessoa com quem mais fácil convivi. Não esperava nada dele e de mim não nada exigia. Simplesmente, quando um estava a fim de ficar com o outro nos encontrávamos. Nunca fizemos planos de ficarmos juntos. Acho que a própria presença lhe bastava. Ele foi a única pessoa com quem me relacionei que não “romantizei”, não me perdi num emaranhado de fantasias e expectativas – de certa forma isso me fez bem.

Nunca houve um término com todas aquelas frases clássicas de fim de namoro… Depois de muito tempo, lembro de tê-lo avistado conversando com uma moça perto da Faculdade, onde eu estava fazendo uma curso de Pós graduação. Um acenou para o outro. Ele continuou o que estava fazendo, eu entrei no carro do meu namorado e fui embora. Foi a última vez que nos vimos.

Eu sempre ria quando dizia que não tomava nenhuma bebida gelada por causa da garganta – não se permitia ficar doente.

Às vezes, era enfadonho querendo ser culto: enquanto as pessoas comuns vão à praia, ele contempla a orla marítima. É comum pôr mostarda em lanches, ele só aceita pôr condimento a base de mostarda.

Era extremamente desagradável quando falava o que pensava:

– Comprei uma caixa de bombons Lacta. Adoro chocolate e só compro dessa marca que é a melhor que qualquer outra. – Falou sem se importar com fato de eu ter recebido, de outro convidado, outra caixa de bombons de outra marca.

– Sorvete bom é flocos e só da Nestle. – comentou certa vez na fila do caixa do supermercado. Enquanto expunha o seu ponto de vista olhei sem graça para o rapaz que estava atrás de nós na fila do supermercado com um pote de sorvete de banana de uma marca um pouco duvidosa. Qualquer outro sabor não gosta, embora nunca tenha provado.

Às vezes, era tão ridículo que chegava a ser patético: quase morri de vergonha quando resolveu entrar numa vídeo locadora com o capacete na cabeça – nada do que eu disse fez mudar de ideia – parecia um verdadeiro lunático.

Seu mundo só cabia uma pessoa: a mãe. A escolhida incondicionalmente, é uma boa senhora, que faz o que é preciso para ver o único filho, cujo pai nunca o reconheceu, feliz. Sempre me tratou muito bem e sempre fui bem-vinda a sua casa.

Se recusava a amadurecer apesar dos quase trinta anos, provavelmente, que enquanto o padrasto o ignorar e a mãe – a sua grande paixão e a única razão de sua existência estiver ali para protegê-lo – não precisa crescer.

Hoje é o dia do seu aniversário. Deve ser por isso que me lembrei dele e de sua eterna mania de não se tornar adulto.

14/11/2.005

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