A consulta

Por: Josaine Airoldi

É só comprar outro – ele me diz.

Se eu tomasse a medicação indicada pararia de dar importância para coisas pequenas do dia a dia.

Ele fala sobre os componentes químicos do remédio como um aliado.

As pessoas vão continuar fazendo coisas que te desagradam, porém tu não darás essa dimensão, ou seja, não  tente mudar o outro, tenha outra visão sobre o acontecido.

-Se  o vinho que vocês compraram para tomarem juntos foi tomado sem a tua participação é só comprar outro. Simples assim.

– A casa está bagunçada? Contrate uma faxineira.

– Está cansada? Descanse!

– Aprenda a dar outra resposta a tudo que te incomoda.

Parece fácil ouvindo. 

Estou quase convencida que tem razão.

Mas, quando usa o exemplo, que se alguém escolhe trabalhar num ambiente sem janela, mas com ar–condicionado…

Olho em volta e percebo que está se referindo a própria situação, que é uma maneira de se convencer que fez a escolha certa.

Ele volta a falar do remédio como se fosse um velho amigo.

Minha mente viaja. 

Estou analisando o psiquiatra.

Conhecer o ser humano é uma dádiva e um tormento. 

Às vezes, se torna complicado a convivência com certas pessoas, pois se entende além do que é dito. 

Todos nós temos nosso calcanhar de Aquiles.

Será que para isso existe remédio?

22/01/2.020

As gurias bárbaras

Por: Josaine Airoldi

Elas fediam a xixi. Mesmo após o banho fediam a xixi. A casa inteira fedia a xixi. O cheiro de tudo que era referente a elas era insuportável.

Como tudo sempre pode ficar pior, a presença delas se intensificou quando minha avó pediu ajuda da mãe delas para cuidar dos animais que criava.

Sinceramente eu não tenho nada contra a Marlene, principalmente porque ela não fedia a xixi e me considerava inteligente. 

A minha rixa era com suas filhas que por mais que apanhassem não ficavam meninas educadas e sem cheiro de xixi.

Certo dia, uma delas ocupou um espaço que era meu. Qualquer outra criança eu não me importava; porém ela e a irmã eu não suportava que o usassem. Tive que agir logo e agi:

– A tua mãe está chegando! – inventei.

Ela correu para o portão, libertando-o de imediato.

Eu ganhei desta vez! – pensei – porém o sentimento de vitória logo perdeu o sentido porque, ficou estagnada no portão.  Era muito burra para compreender que não tinha ninguém vindo.

Eu sempre tive um senso absurdo de responsabilidade sobre tudo e sobre todos. Receava que pudesse acontecer alguma ruim com ela caso não saísse daquele portão.

– É mentira a tua mãe não veio ainda! – Gritei.

– Sai dai! – Supliquei.

– Vem brincar no meu balanço! – Apelei.

A raiva ia aumentando enquanto eu me aproximava mais e mais do portão na tentativa vã de tirar ela dali. Quando a mãe desembarca do ônibus, sai disparadamente em direção à parada. Respiro de certa forma aliviada, a responsabilidade de cuidar delas não era mais minha.

Numa tarde sinto algo metálico nas minhas pernas. Por ciúme, a guria bárbara mais nova me atacou com o resto do que um dia foi um guarda-chuva. Segurei o menino chorando com toda a força que eu tinha para não deixá-lo cair até que minha avó viesse em nosso socorro.  Eu descobri, mais tarde, o quanto poderia ser ainda mais cruel. 

A bárbara menor -sempre ela – simplesmente estrangulou e enterrou todos os meus pintinhos carijós por pura maldade e inveja.  Eles eram meus, ninguém tinha direito de tirá-los de mim.  Não havia cascudos que recebesse naqueles cabelos sebosos e cheios de piolhos que aliviasse a minha dor.      

Certa vez me vinguei delas. Estávamos em pleno inverno.  As ruas não eram asfaltadas como até hoje não são e por isso alagam facilmente, então a Prefeitura jogava várias camadas de areia e enquanto a “patrola” não vinha para espalhá-la nós nos divertíamos naqueles imensos morros de areia.

O meu primo Almenir, que gostava de me defender – gosto de pensar assim – aprontou com a nossa ajuda – minha e da minha irmã, uma vingancinha saborosa.

– Todos tem que se enterrar na areia. Essa é a brincadeira. Anunciamos, imponentes de cima da areia. 

Imediatamente ficou definido – por nós – que as pessoas a terem o privilégio de iniciar a brincadeira eram elas. Nós teríamos o trabalho de auxiliá-las nessa empreitada. O que fizemos com muito prazer. Vê-las soterradas na areia sem poder se mover e sendo atacadas por formigas – que não estavam previstas – foi muito divertido. Quase aliviou toda a mágoa e raiva que eu sentia por elas. É claro que nós não nos enterramos.

Certa vez ao me dirigir para o caixa do supermercado percebi que talvez fosse a Clarice – a bárbara mais velha – a operadora.  Pensei em mudar de atendente, mas se fosse realmente ela perceberia a minha atitude. Tinha que ter certeza, por isso imediatamente olhei para o crachá e enfrentei a situação. 

– Não se lembra de mim? – ela me perguntou como se tivesse lendo meus pensamentos.

– Claro! – Apesar de estar bem diferente.

– Depois de três filhos a gente muda bastante.

Sorri sem graça tentando disfarçar a inveja que senti daquela criatura. Ser mãe era o que eu mais desejava e não estava obtendo muito sucesso. 

Não tive coragem para perguntar a respeito de Marlene, apesar de ser o único interesse que eu tinha em conversar com ela, uma vez que era inevitável. 

23/11/2.010

A culpa é do orégano

Por: Josaine Airoldi

Domingo à tarde tinha planejado sair.

Não fui. 

Ficou tarde. 

Tudo começou quando comecei a procurar o orégano para colocar na carne, que estava cozinhando para o almoço.

Tinha certeza que estava num pote dentro de um armário. 

Não estava em lugar nenhum.

Nessa empreitada começou-se a verificação de data de validade dos produtos sendo jogados fora os que já estavam vencidos, a limpeza de algumas áreas esquecidas no dia a dia…   

Não saí! Mas a cozinha ficou limpa e organizada.

Ao sentar exausta no sofá da sala me deparei com ele impassível e empoeirado pregado na parede, está sempre lá esperando que seja limpo, que seja colocado um dos ponteiros que caiu e que também sejam trocadas as pilhas que o fazem produzir seu indiferente tique-toque.

Qualquer dia mando arrumar – assim com todo o resto que precisa de algum conserto.

Fui ensinada a fazer o que é certo. 

Fui ensinada a pensar sempre no bem estar dos outros. 

Fui ensinada a não dar opinião quando os adultos estavam conversando.

Sendo adulta não consigo decidir o que é realmente relevante para determinado momento. 

Às vezes, me proponho a não tomar decisão nenhuma.

Fico à deriva, sem rumo…

Não quero ser responsável por qualquer coisa que possa acontecer em decorrência da minha interferência ou pela minha alienação.  

Fico ao sabor das consequências da minha não-ação.  

É uma maneira tosca de me rebelar contra aquilo que me aflige.

Às vezes, é mais cômodo culpar algo aleatório sobre o que dá errado ou não acontece como desejado, do que encarar que sou responsável pelas minhas decisões ou pelas minhas não-decisões.

Não sai num domingo à tarde como tinha planejado e queria, mas a culpa não foi minha, a culpa é do orégano.

A pergunta que fica é: por que eu faço isso?

05/01/2.020 

O retrato

Por: Josaine Airoldi

Olho o retrato. 

Nele há duas meninas muito parecidas e diferentes ao mesmo tempo.

Olho o retrato.

Nele está registrado uma lembrança da infância.

Olho o retrato.

Nele estão duas irmãs que fizeram o melhor que puderam do que delas resultaram. 

Olho o retrato.

30/06/2.010