Por: Josaine Airoldi
Criança gosta mesmo é de ganhar brinquedo.
Não venha com roupa maior para durar mais, que quando nos serve já está desbotada; ou com dinheiro para se colocar na poupança, o que geralmente não acontecia porque a mãe comprava mais roupas sempre dois ou três números maior do que realmente servia.
Criança quer ganhar brinquedo no dia do seu aniversário, no Natal, no dia das crianças ou em qualquer ocasião dedicada a ela.
Presente bom – entende-se brinquedo, foram o que eu ganhei de seu Medina – ou o Barão do Rio Branco – como costumávamos chamá-lo. Ele sempre nos dava brinquedo no Natal.
Certa vez ganhei a Maria Costureira, acho que era esse o nome, porque tinha duas roupinhas. A minha irmã ganhou a Emília, era de pano e não tinha roupinha reserva como a minha. Outro presente que ganhei foi um conjunto de xícaras com pires que ficavam numa bandeja linda vermelha. O seu Medina sabia o que criança gosta de ganhar de presente: brinquedo.
Certa vez ganhei uma sandália de aniversário. A sandália ficou pequena. Tinha sido dada por uma amiga da família, a Célia. Foi comprada numa espécie de mercado que vendia de tudo. Era simples trocá-la por numeração maior. Fomos ao local. Encontrei a sandália, mas não me foi permitido ficar com ela. Por quê?
Porque não tinha nenhuma que servisse na minha irmã, que por chorar copiosamente, fez com que meu pai decretasse: se não tem para uma não tem para nenhuma.
Nunca entendi a atitude do meu pai.
Nunca aceitei a indiferença da minha mãe diante de tal injustiça.
Nunca perdoei o egoísmo exacerbado da minha irmã. – Desde quando ela necessitava ter, além de tudo o que era meu, uma sandália igual a minha, que foi minha por muito pouco tempo.
Além disso, essa via era sempre de mão única. O contrário nunca aconteceria mesmo se fosse possível. Mesmo criança eu tinha noção que isso era um absurdo.
– É só uma criança, não sabe o que está fazendo, pensará alguém.
– Cada um se defende como pode, dirá outro.
Ela sempre era protegida, até pelos estranhos.
Se fosse um brinquedo como o que eu ganhei do rapaz do armazém – uma boneca de plástico – não seria necessário a troca e assim eu teria ficado com o meu presente de aniversário.
A menina que está na frente da vitrine em 1.981 está dizendo para adulta de 2.021 que talvez não tenha acontecido dessa maneira, a memória, às vezes, nos trai…
Então a imagem ganha som e escuto novamente, que se não se não tem para uma não tem para nenhuma.
Ninguém tem o direito de tirar de mim o meu presente de aniversário.
Enfim, digo.
20/01/2.021