Por: Josaine Airoldi
Eles foram morar conosco: minha mãe, meu pai, minhas irmãs, minhas tias, avós, por certo tempo, quando a mãe dele ficou doente e os outros filhos estavam criados e moravam em Porto Alegre.
Ele era terrível. Estava sempre fazendo o que não devia, na opinião dos adultos. Para mâe, ele era sempre o coitadinho. Ela o protegia, por mais que aprontasse, e ele me protegia. Eu o adorava por isso.
Lembro da vez que minha irmã do meio não se adaptou de jeito nenhum à escola e voltava para casa dizendo que não havia aula. Então, era comum eu ter que levá-la novamente. Ele sempre se prontificava para fazer isso no meu lugar, mas tinha que ser na bicicleta da minha tia. O que irritava profundamente a minha avó, que apesar disso emprestava, após muitas recomendações.
Eu adorava ficar na sua companhia, não interessava fazendo o quê.
Certa quarta–feira chuvosa; recolhemos tudo que era possível interessar ao dono do Ferro Velho, colocamos numa carroça e ele vendeu. Meu pai quase enlouqueceu quando descobriu a limpeza que nós realizamos no pátio de casa, mas só ele foi responsabilizado. Esse é um dos dias que guardo com mais carinho. Ainda posso sentir os pingos de chuva sob a minha pele e alegria de ter podido retribuir tudo o que fazia por mim.
Era comum, também, me ajudar a cuidar da minha irmã caçula. Ele a enrolava com todo o cuidado, colocava-a no carrinho e a embalava até que dormisse e podíamos completar juntos a revistinha: Coquetel.
Apesar de termos quase a mesma idade, estranhamente me sentia protegida, sempre quando estava por perto.
Quando adolescente encantava as meninas da escola, e a mim também, embora nunca soube disso…
16/10/2.010
