Começo do fim

Por: Josaine Airoldi

Meu mundo caiu / E me fez ficar assim / Você conseguiu / E agora diz que tem pena de mim… – cantou Maisa certa vez.

Só te peço que não traia a minha confiança – disse Frida Kalo – no filme.

Ela? Só queria uma vida pequena burguesa: mais ou menos igual ao que Raul Seixas descreveu neste trecho: “…aos domingos dar bananas aos macacos no zoológico…”

Quando se conheceram ela tinha uma profissão, um carro  e quase uma casa própria. Trinta e um anos e muitas desilusões amorosas. 

Ele estava em início de carreira, não tinha carro e morava com os pais. Tinha 25 anos e a convicção que casar com ela era o que queria. 

Ela acreditou que não tinha como dar errado: tinham a mesma profissão – os mesmos desafios e perspectivas – tinham sonhos e planos em comum, gostavam de muitas coisas em comum…

Ele deu a ela a ideia de pertencimento: no caso a inseriu ao grupo de amigos dele. Tinham finais de semana bem divertidos e tudo que faziam juntos parecia bom..

Então, achou que era válido fazer algumas concessões, afinal eram importantes para a manutenção da relação deles.

Aos poucos foi descobrindo que mentia, quase sempre eram coisas banais, que eram descobertas sempre da pior maneira possível: por acaso. 

Sempre afirmava que perderia a confiança nele e que no dia que isso acontecesse, seria um caminho sem volta, que por mais que a verdade fosse difícil, era o que queria.

Ele não compreendia e continuava a fazer as coisas escondido. Deixava sempre muitas pistas para ser descoberto. Era como se necessitasse do desgaste emocional dela para sobreviver. 

Nesses momentos, tinha aprendido, que era só deixar ela falar, chorar, xingar e fazer planos que iria tomar as rédeas de sua vida… 

Breve tudo voltaria à rotina de antes. Era  sempre questão de tempo, pois assim estavam por 18 anos. Viviam uma vida segunda via – como ela dizia.

Como tudo sempre tem a gota d’água que faz a água do copo transbordar… No caso foi a casca do ovo na lixeira errada. Nesse dia, como nos outros era necessária a pergunta cuja resposta já sabia.

Como sempre há uma sequência de mentiras seguidas de várias outras mentiras para encobrir a primeira, criando um emaranhado de fatos desconexos.

Sem necessidade – ela pensa em desespero.  

 – Fala, logo a verdade! – Ela gritava.

– Eu sei que não foi assim que aconteceu.  – Novamente ela implorava na tentativa vã de descobrir que estava enganada. Talvez estivesse realmente enlouquecendo, mas não. Não estava enganada: havia algo muito errado. 

Em alguns momentos a realidade a chamava: é preciso aproveitar o sol para que as roupas sequem… 

Sabia que não podia se dar ao luxo de ser totalmente impulsiva, conhecia os danos que a sua impulsividade causava.

Quando se acalmava era pior, a verdade,  aquela que sempre desejou, se descortinava  na sua mente. 

Às vezes, se surpreendia com a capacidade de dedução que possuía ser avassaladora  – tanto quanto a incapacidade de estabelecer limites. 

Aos prantos e com o coração se dilacerando foi percebendo seu mundo  desmoronando, como tinha acontecido em várias outras vezes. Só que desta vez seguiu a sugestão que sempre dava e concordou que era melhor ele ir para a casa da mãe.

Foi percebendo o quanto a relação deles era parecida com a de seus pais, sem a ressalva de não ter tido condições de poder mudar o curso e ter vivido de outra forma. 

O que ela mais desejava era construir uma outra história: a deles – sempre dizia a ele. 

Como construir uma vida juntos se…

Ele precisa do caos.

Ela da calmaria.

Por mais que se encontravam em alguns momentos, para ela não bastava. 

Era o começo do fim.

Ele só entenderia o que ela dizia no momento que percebesse por si só, embora pudesse ser tarde demais. 

Sem ter mais nenhuma certeza, fechou os olhos e deixou o tempo passar…

17/10/2.022