Por: Josaine Airoldi
Enfim, cinquenta anos.
Admito que eu cometi muitos erros, mas acho que o mais grave foi não ter cuidado de mim: me ver refletida no espelho é cruel. Não é fácil ficar frente a frente com essa minha versão atualizada. As rugas me mostram o quanto deveria ter cuidado da minha pele enquanto era jovem. Os inúmeros fios de cabelos embranquecidos, me dizem que tenho que encontrar tempo para me cuidar. As unhas com esmalte descascando me mostram o quanto deixei de me importar comigo.
Além de muitíssimas mágoas – eu juro que estou tentando apagá-las – e várias dívidas feitas em meu nome sem o meu conhecimento, uma filha linda, que precisa de uma mãe com equilíbrio emocional para criá-la foi o que ficou do meu casamento.
Tudo que planejei não será mais possível. É necessário rever a rota. Segurar com força o leme dessa nave incandescente que é a minha vida. Sim. Eu tenho que rever meu percurso.
Logo eu, que sinto a necessidade do previsível, que nunca quis ser diferente, que nunca quis chamar a atenção.
Logo eu que sempre escondi minhas dores, que sempre me senti responsável por tudo sempre…
Logo eu que preciso do aconchego, que preciso me sentir protegida.
Logo eu que preciso da sensação de calmaria.
Logo eu que sempre me alimentei da possibilidade de um dia ter um pouco de atenção.
Logo eu que sou tão o que querem que eu seja, sempre me moldando para caber num lugar que não é meu e como recompensa me contento com míseras migalhas de afeto. De repente, me vejo sozinha, numa solidão absurda, numa casa que não tem nada de minha.
Eu sinto que não construí nada, apesar de ter muitas coisas. Na estante da sala tem a mãe e a professora. Onde estarão as outras “eu”? Elas existem? Por que não estão representadas em lugar nenhum?
Como disse Rita Lee: mulher é um bicho estranho, todo mês sangra. Acho que de uma forma ou de outra todas nós somos estranhas e, às vezes, sagramos.
15/04/ 2.024
