Por: Josaine Airoldi
Peço que não me julguem, não precisa, eu mesma faço isso desde aquele verão.
Em 1.990 eu e duas gurias trabalhávamos em condições completamente inadequadas. Estávamos longe da nossa família. Nos alimentávamos muito mal e tínhamos que dormir em meio às mercadorias, balaios, muita sujeira e num lugar totalmente de fácil acesso aos marginais.
É claro que ficamos muito gratas quando soubemos que iríamos dormir no chão da sala do casal que alugava o lugar para a patroa – para nós era uma espécie de bônus, por tanta dedicação ao trabalho quase escravo.
Tudo estava dentro da normalidade, até o momento que comecei a receber a visita do benfeitor.
Não lembro o que dizia para justificar o fato que se encontrava ajoelhado, no escuro, bem próximo a mim, quando eu “acordava” ao perceber que estava acontecendo outro nível de carícias.
Talvez tenha fingido tão bem que estava dormindo que não tenha desconfiado.
A verdade é que o jogo chegou ao fim quando recebemos a notícia que não poderiamos mais utilizar a sala daquele benevolente casal, pelo olhar da minha estimada patroa achei que estava ciente do verdadeiro motivo pelo qual teria que voltar a ocupar as maravilhosas acomodações que dispunha para suas meninas – como nos chamava. Hoje não tenho tanta certeza. Não sei se ela (esqueci seu nome) teve coragem de dizer o que realmente acontecia durante todas as noites na sua casa ou tenha contado uma versão onde eximia o marido de qualquer responsabilidade ou simplesmente disse que não nos queria mais porque nós deixávamos sua sala com aspecto ruim. A versão que ouvimos era que iriam receber visitas, que até onde lembro nunca chegaram.
Estralhamente enquanto escrevia, lembrei da sensação que tinha quando a sua mão firme tocava em mim e por mais que o tempo tenha passado, eu não consigo saber o que sinto por aquele homem que, por alguns minutos fazia eu sentir um misto de desejo e repulsa, enquanto eu dormia.
27/11/2.024
