As mulheres de todos os tempos apesar de todos os ventos*

Por: Josaine Airoldi

Lugar de mulher é na cozinha, diz um ditado popular. Coincidência ou não é na cozinha que escrevo munida das anotações derivadas das conversas com a Terezinha, às quartas-feiras e das leituras sugeridas nesses encontros.

Dessas leituras descobri que o lugar da mulher é onde ela quiser: pode ser na cozinha, na empresa, no escritório, na rua… Pois em qualquer lugar e época as mulheres estão construindo uma identidade e quebrando tabus. 

Escrevendo esse texto entendi que nem tudo tem que seguir regras e inovar é gostoso, por isso apreciem sem moderação.

Receita para a mulher ideal:

Ingredientes:

Não confie em tudo que a História escreveu sobre as mulheres. Às vezes, os homens cometem equívocos que necessitam ser revisados. 

Descarta o manual de bom comportamento que foi decorado quando menina. Você cresceu, não necessita mais de manuais…

Explora todas as mulheres que desejares em si própria: a filha, a irmã, a namorada, a noiva, a esposa, a mãe, a amante, a profissional, a religiosa, a prostituta, a militante, a culta, a inculta…

Retribua toda a proteção que o homem te deu, enquanto era considerada por ele como o sexo frágil, mostrando que és capaz de tomar as próprias decisões.

Alimenta a tua auto-estima, elegendo para si: a felicidade, a amabilidade, a generosidade, a gentileza, o prazer, a dedicação… 

Inclui pequenos e grandes prazeres na sua vida, sem culpa. 

Modo de preparo:

Acrescenta aos ingredientes todas as mulheres, que têm sua trajetória de alguma maneira, registrada na História da humanidade.

Começa com a Eva, a primeira-mulher, a fêmea, que levou Adão ao pecado e tirou da humanidade futura a possibilidade de gozar da inocência paradisíaca.

Inclui Maria Magdalena: a mulher-pecadora; que vivia no pecado até o momento de um homem a perdoar. 

Contrapõe com Maria de Nazaré: a mulher-assexuada; diferente de Eva, ela é o símbolo de pureza e dedicação.

Não esqueças daquelas que transgrediram os preceitos de uma época:

Joana d’Arc: mulher-bruxa; foi queimada viva porque ousou competir, vencer e desestabilizar as regras de conduta masculina.

Cleópatra: a mulher-sedutora; apesar de ter sido uma guerreira defendendo seu país é lembrada, pela beleza que usou para seduzir os donos do mundo e obter o poder absoluto.

Helena de Tróia: a mulher-adúltera; por transgredir os padrões de sua época e ser capaz de viver plenamente o seu corpo e a sua sexualidade; foi considerada a culpada pela invasão de Tróia e pela morte de milhares de homens, contudo a guerra aconteceu porque os gregos queriam invadir a Ásia Menor. 

Messalina: a mulher-devassa; considerada uma das mulheres mais promíscua da história, porque toda a noite ia entregar-se aos trabalhadores manuais no bairro portuário de Suburra. Foi morta pelo marido não pela sua prostituição e, sim, porque ousou amar outro homem. 

Safo: a mulher-homossexual, poetisa e símbolo do homossexualismo feminino, talvez por morar em Lesbo onde a sociedade aceitava tanto homens como mulheres e os educava conjuntamente e era permitido guardar na maturidade os mesmos laços adquiridos desde a infância; ela pode viver plenamente a sua sexualidade.

Mesmo como personagem subjugada da História, a mulher ultrapassou todos os tempos e enfrentou todos os ventos que sopraram contra. 

Na Literatura sul-rio-grandense elas fizeram História através do escritor Érico Veríssimo que deu às mulheres espaço e voz numa sociedade dominada pelo poder masculino. Dedicou a sua literatura às mulheres e concedeu a elas o reconhecimento que a História do período não lhe conferiu.

As mulheres de Érico diferem das mulheres que se esgueiravam na sombra, invisíveis, reprimidas e ainda assim sob suspeita.

Ana Terra: a mulher-símbolo; congrega toda a história da terra gaúcha. A épica e a trágica. É o símbolo de força, de coragem e de determinação.

Bibiana: a mulher-esposa; ela é o arquétipo da família gaúcha.  É o esteio do lar, das virtudes da casa e da família.   

Maria Valéria: a mulher-andrógina; porque transita entre os dois mundos – masculino e feminino assume um caráter funcional, o de quebrar nexos, deslocar obviedades e desfazer certezas sobre o corpo feminino; por isso é uma personagem transgressora.

Misture bem e terás uma bela e saborosa história de mulheres. Diferente da História feminina que foi descrita pelos viajantes, idealizada pelo pensamento Positivista. Exigida pela Igreja. 

O viajante August Saint-Hilare traz nas suas descrições do comportamento feminino uma visão eurocentrista. Basta observar o que ele escreveu sobre a mulher sul-rio-grandense do século XIX.

Assim as descreveu: “todas as mulheres do Rio Grande do Sul, são bonitas, tem olhos e cabelos negros, cútis branca e tem sobre as francesas a vantagem de serem mais coradas”. (PEDRO apud SAINT-HILARE, 1997, p.279).

Descreve, ainda, a existência de inúmeras mulheres comandando estâncias, trabalhando, provendo sozinha, a sobrevivência, em vista da constante ausência dos maridos.

O viajante conta que, enquanto nas regiões do interior não encontrou mulheres nas ruas, na cidade de Porto Alegre elas eram bastante frequentes. Isso se deve, provavelmente, por causa dos inúmeros conflitos e batalhas realizadas que, ao mesmo tempo, que deu destaque aos homens nas atividades políticas e nas guerras, os ausentou do lar. Ausência que exigiu que as mulheres assumissem a direção dos empreendimentos e mantivessem a sobrevivência familiar, transpondo assim os limites das tarefas definidas usualmente para o seu sexo.

A imagem das mulheres do sul como mais sociáveis que as mulheres de outros lugares do país são recorrentes nos relatos dos viajantes. Imagem possivelmente vinculada à composição racial do sul do Brasil, aos preconceitos raciais dos ditos viajantes, à cultura específica da população que ai se instalou, bem como a uma formação social que proporcionava um modo de vida diferente dos existentes na economia escravista de exportação.

Muitas vezes, ao falarem das mulheres brasileiras, os viajantes referiam se exclusivamente às mulheres brancas de família abastada. Alguns ignoravam a existência de filhas de imigrantes pobres, de mulatas e negras livres, enquanto outros sequer as classificavam como mulheres, pois nem sempre eram capazes de levar em conta as contradições da vida paralela das diferentes camadas sociais.

Embora repletas de viés, é possível verificar que as imagens femininas retratadas pelos viajantes se diferiam, em muito, daquelas descritas por Gilberto Freire. 

Para o autor, o tipo mais comum de mulher brasileira, durante o Império era o da mulher-esposa: muito boa, muito generosa, muito devota. Só se sentindo bem entre os parentes, os íntimos. Não participava das conversas com os homens, na sala, mesmo quando convidada. Ignorava que existisse: Pátria, Império, Literatura… Conseguia compreender e aceitar as relações extraconjugais de seu marido. O bem-estar da família, as festas, os modelos de vestidos; eram suas preocupações diárias. (FREIRE, 2OO4, p 224-229).

O jornal do Comércio reforça essa ideia, numa publicação de julho de 1891 diz que na mulher amante, filha, irmã, esposa, mãe, avó existe o que o coração humano encerra de mais doce, de mais puro, de mais estático, de mais sagrado, de mais inefável. (PEDRO apud JORNAL DO COMÉRCIO 1997, p.281).

Esses modelos ideais de mulher como boas mães, virtuosas esposas e dedicadas filhas não foram criações dos jornais sulistas do final do século XIX e início do século XX. Eles já faziam parte do imaginário ocidental, podiam ser encontrados na literatura, no sermão das missas, nos textos escolares, nas tradições locais e se intensificaram durante a formação das elites nos centros urbanos. 

Para o pensamento positivista, que em Porto Alegre foi divulgado pelo Centro Positivista, a mulher ideal era uma filha obediente, esposa dedicada, mãe exemplar e, quando pobre, trabalhadora virtuosa. Assim, os papéis familiares de filha, irmã e esposa eram uma espécie de preparação para a função de mãe. Ser mãe era o papel mais sublime que uma mulher poderia desejar. As mulheres deveriam ser instruídas para aperfeiçoar o esposo e educar os filhos para a Humanidade. 

A autoridade masculina e a submissão feminina eram compreendidas no binômio “obediência e amor”. As mulheres obedeciam, porque eram delicadas e meigas.

Diferente de outras disciplinas, o Positivismo não afirmava a inferioridade intelectual das mulheres, mas sim que sua inteligência era complementar a do homem. Também se aceitava que ela ganhasse menos, pois tinham menos necessidades. 

Esse pensamento persiste até os dias atuais. Desde a infância, a mulher é levada a crer em sua própria incapacidade. E é este peso que leva a todas as situações da vida, do pneu furado na estrada, ao cargo importante que foi convidada a ocupar numa grande empresa. Diante de todos os desafios, muitas mulheres são perseguidas pela terrível certeza do fracasso. 

Na visão da Igreja, o homem era superior, portanto cabia a ele exercer a autoridade. Nunca se perdia a oportunidade de lembrar às mulheres o terrível mito do Éden, reafirmado e sempre presente na história humana. Ora, a mulher partilhava da essência de Eva. Era um animal imperfeito, por isso considerada, por sua simples existência, como perigosa, traidora e desestabilizadora da unidade e da solidariedade entre os homens, portanto tinha que ser permanentemente controlada.

Uma maneira comum dessa tentativa de controle total sobre a mulher era colocá-la no convento, pois, ter uma filha no convento significava ostentar certa posição social. No convento a filha não herdaria o que se destinava ao filho e como religiosa a filha seria a proclamação pública da religiosidade da família.

Usava-se também a ideia de que só os homens, as prostitutas e as mulheres de classe baixa podiam ter desejo sexual.

Sexualmente submetidas à sexualidade masculina a mulher que tinha orgasmos, até meados do século XX era prostituta ou tinha parte como o demônio. A frigidez era norma.

O comportamento, o modo de falar, o modo de se vestir das prostitutas eram exemplos a não serem seguidos pelas mulheres que quisessem ser consideradas “distintas”.

Para ser considerada digna de uma relação estável a mulher tinha que ser branca e de classe social elevada, ter uma atitude anti-sexual e cultuar somente o lar e o marido. 

As mulheres que não tinham esse perfil: a mulher branca pobre, a mulher negra, a mulher mulata e a mulher indígena eram as parceiras sexuais ideais, porém eram desprezadas como pessoas e consideradas como mercadorias de pouco valor.

A mulher que era “honesta” podia ser mãe, irmã, filha, religiosa, mas de modo nenhum, amante.

Apesar de todos os códigos morais numa sociedade colonial, os desvios de comportamento não eram tão incomuns. Uma das maneiras de violar, agredir e se defender era se refugiar no amor de outra mulher. A sodomia era condenada com muita severidade na legislação civil: quem o “pecado de sodomia por qualquer motivo cometer, seja queimado e feito fogo em pó, para que nunca de seu corpo e sepultura possa haver memória, e todos os seus bens sejam confiscados para a Coroa.” (ARAUJO, 1997, p.65).

Outra preocupação era com a feitiçaria. A associação entre sexualidade e feitiçaria era explícita, existia na crença de que os feitiços fabricados pelas bruxas eram úteis, sobretudo no campo afetivo. “Toda bruxaria tem origem na cobiça carnal, insaciável nas mulheres.” Acreditava-se que os feitiços fabricados pelas bruxas eram úteis, principalmente no campo afetivo. Tanto a Igreja como os legisladores civis acreditavam nisso. As Ordenações do Reino proibiam a essas mulheres a preparação de beberagem para induzir qualquer indivíduo à “querer bem ou mal a outrem, ou outrem a ele”. A Igreja em 1707 proibiu todo e qualquer tipo de feitiçaria destinado a influir no sentimento alheio, incluindo as cartas de tocar, palavras e bebidas e veículos semelhantes de interferência nas vontades e desejos.

Das pessoas executadas por bruxaria, cerca de 85% eram mulheres pobres. Muitas delas eram velhas, viúvas ou solteironas. Enfim, mulheres que não tinham a “proteção masculina”. 

Foram perseguidas, também as mulheres, que ousaram, nessa época, serem melhores que os homens nos cuidados de saúde; pois; apesar de serem os homens os que eram treinados para a prática da medicina, as mulheres sabiam manipular ervas, conheciam as famílias que tratavam, dominavam a milenar química das plantas, o aborto, o parto e os conhecimentos passavam de mãe para filha. Isso provocou a ira masculina de tal maneira que Paracelso, o pai da medicina moderna, queimou publicamente o seu texto por que; aprendera das feiticeiras, tudo o que conhecia.

Milhares de curandeiras e cirurgiãs morreram durante quatro séculos, porque desafiaram uma corporação médica masculina e também porque a Igreja, centralizadora de poder, considerava os elementos que não estavam totalmente sob o seu controle como não-ortodoxos e, portanto, dignos de extermínios. As mulheres, profissionalmente, foram sufocadas por se destacarem numa área estritamente masculina.

As mulheres que não se submeteram aos padrões misóginos impostos sofreram severa punição: foram ameaçadas, repreendidas, reprimidas, sujeitas às penitências espirituais. Contudo o ideal de adestramento completo, definitivo, perfeito, jamais foi alcançado por inteiro como pretendia a Igreja. 

Essas mulheres hoje são pó, são nada, ao contrário de sua dor, seu momento de prazer, seu sentir, que nos chegam aos pedaços, mas com a mesma força da paixão que comoveu, agitou e incitou os corações a reinventarem a cada situação a velha arte de sobreviver. (ARAÚJO, 1997, p.73). 

Se as mulheres continuam sendo marginalizadas na sociedade atual é por que boa parte da moral estabelecida, desde os primeiros tempos, permanecem de certa maneira impregnadas na nossa cultura; todavia há mulheres que estão abandonando esses estereótipos escrevendo uma nova história.

Apesar de todas as tentativas de anular a importância da participação da mulher em todos os momentos da humanidade. Elas estão inseridas na História e na Literatura mesmo com distorções e equívocos.

* Capítulo integrante da Monografia intitulada: Três mulheres de Érico Veríssimo na visão da psicanálise apresentada à Faculdade Cenecista de Osório, como requisito para a obtenção do título de especialista em Diálogos entre a História e Literatura do Rio Grande do Sul. –  Pós-graduação concluída em 2.006.

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