As gurias bárbaras

Por: Josaine Airoldi

Elas fediam a xixi. Mesmo após o banho fediam a xixi. A casa inteira fedia a xixi. O cheiro de tudo que era referente a elas era insuportável.

Como tudo sempre pode ficar pior, a presença delas se intensificou quando minha avó pediu ajuda da mãe delas para cuidar dos animais que criava.

Sinceramente eu não tenho nada contra a Marlene, principalmente porque ela não fedia a xixi e me considerava inteligente. 

A minha rixa era com suas filhas que por mais que apanhassem não ficavam meninas educadas e sem cheiro de xixi.

Certo dia, uma delas ocupou um espaço que era meu. Qualquer outra criança eu não me importava; porém ela e a irmã eu não suportava que o usassem. Tive que agir logo e agi:

– A tua mãe está chegando! – inventei.

Ela correu para o portão, libertando-o de imediato.

Eu ganhei desta vez! – pensei – porém o sentimento de vitória logo perdeu o sentido porque, ficou estagnada no portão.  Era muito burra para compreender que não tinha ninguém vindo.

Eu sempre tive um senso absurdo de responsabilidade sobre tudo e sobre todos. Receava que pudesse acontecer alguma ruim com ela caso não saísse daquele portão.

– É mentira a tua mãe não veio ainda! – Gritei.

– Sai dai! – Supliquei.

– Vem brincar no meu balanço! – Apelei.

A raiva ia aumentando enquanto eu me aproximava mais e mais do portão na tentativa vã de tirar ela dali. Quando a mãe desembarca do ônibus, sai disparadamente em direção à parada. Respiro de certa forma aliviada, a responsabilidade de cuidar delas não era mais minha.

Numa tarde sinto algo metálico nas minhas pernas. Por ciúme, a guria bárbara mais nova me atacou com o resto do que um dia foi um guarda-chuva. Segurei o menino chorando com toda a força que eu tinha para não deixá-lo cair até que minha avó viesse em nosso socorro.  Eu descobri, mais tarde, o quanto poderia ser ainda mais cruel. 

A bárbara menor -sempre ela – simplesmente estrangulou e enterrou todos os meus pintinhos carijós por pura maldade e inveja.  Eles eram meus, ninguém tinha direito de tirá-los de mim.  Não havia cascudos que recebesse naqueles cabelos sebosos e cheios de piolhos que aliviasse a minha dor.      

Certa vez me vinguei delas. Estávamos em pleno inverno.  As ruas não eram asfaltadas como até hoje não são e por isso alagam facilmente, então a Prefeitura jogava várias camadas de areia e enquanto a “patrola” não vinha para espalhá-la nós nos divertíamos naqueles imensos morros de areia.

O meu primo Almenir, que gostava de me defender – gosto de pensar assim – aprontou com a nossa ajuda – minha e da minha irmã, uma vingancinha saborosa.

– Todos tem que se enterrar na areia. Essa é a brincadeira. Anunciamos, imponentes de cima da areia. 

Imediatamente ficou definido – por nós – que as pessoas a terem o privilégio de iniciar a brincadeira eram elas. Nós teríamos o trabalho de auxiliá-las nessa empreitada. O que fizemos com muito prazer. Vê-las soterradas na areia sem poder se mover e sendo atacadas por formigas – que não estavam previstas – foi muito divertido. Quase aliviou toda a mágoa e raiva que eu sentia por elas. É claro que nós não nos enterramos.

Certa vez ao me dirigir para o caixa do supermercado percebi que talvez fosse a Clarice – a bárbara mais velha – a operadora.  Pensei em mudar de atendente, mas se fosse realmente ela perceberia a minha atitude. Tinha que ter certeza, por isso imediatamente olhei para o crachá e enfrentei a situação. 

– Não se lembra de mim? – ela me perguntou como se tivesse lendo meus pensamentos.

– Claro! – Apesar de estar bem diferente.

– Depois de três filhos a gente muda bastante.

Sorri sem graça tentando disfarçar a inveja que senti daquela criatura. Ser mãe era o que eu mais desejava e não estava obtendo muito sucesso. 

Não tive coragem para perguntar a respeito de Marlene, apesar de ser o único interesse que eu tinha em conversar com ela, uma vez que era inevitável. 

23/11/2.010

As mulheres de todos os tempos apesar de todos os ventos*

Por: Josaine Airoldi

Lugar de mulher é na cozinha, diz um ditado popular. Coincidência ou não é na cozinha que escrevo munida das anotações derivadas das conversas com a Terezinha, às quartas-feiras e das leituras sugeridas nesses encontros.

Dessas leituras descobri que o lugar da mulher é onde ela quiser: pode ser na cozinha, na empresa, no escritório, na rua… Pois em qualquer lugar e época as mulheres estão construindo uma identidade e quebrando tabus. 

Escrevendo esse texto entendi que nem tudo tem que seguir regras e inovar é gostoso, por isso apreciem sem moderação.

Receita para a mulher ideal:

Ingredientes:

Não confie em tudo que a História escreveu sobre as mulheres. Às vezes, os homens cometem equívocos que necessitam ser revisados. 

Descarta o manual de bom comportamento que foi decorado quando menina. Você cresceu, não necessita mais de manuais…

Explora todas as mulheres que desejares em si própria: a filha, a irmã, a namorada, a noiva, a esposa, a mãe, a amante, a profissional, a religiosa, a prostituta, a militante, a culta, a inculta…

Retribua toda a proteção que o homem te deu, enquanto era considerada por ele como o sexo frágil, mostrando que és capaz de tomar as próprias decisões.

Alimenta a tua auto-estima, elegendo para si: a felicidade, a amabilidade, a generosidade, a gentileza, o prazer, a dedicação… 

Inclui pequenos e grandes prazeres na sua vida, sem culpa. 

Modo de preparo:

Acrescenta aos ingredientes todas as mulheres, que têm sua trajetória de alguma maneira, registrada na História da humanidade.

Começa com a Eva, a primeira-mulher, a fêmea, que levou Adão ao pecado e tirou da humanidade futura a possibilidade de gozar da inocência paradisíaca.

Inclui Maria Magdalena: a mulher-pecadora; que vivia no pecado até o momento de um homem a perdoar. 

Contrapõe com Maria de Nazaré: a mulher-assexuada; diferente de Eva, ela é o símbolo de pureza e dedicação.

Não esqueças daquelas que transgrediram os preceitos de uma época:

Joana d’Arc: mulher-bruxa; foi queimada viva porque ousou competir, vencer e desestabilizar as regras de conduta masculina.

Cleópatra: a mulher-sedutora; apesar de ter sido uma guerreira defendendo seu país é lembrada, pela beleza que usou para seduzir os donos do mundo e obter o poder absoluto.

Helena de Tróia: a mulher-adúltera; por transgredir os padrões de sua época e ser capaz de viver plenamente o seu corpo e a sua sexualidade; foi considerada a culpada pela invasão de Tróia e pela morte de milhares de homens, contudo a guerra aconteceu porque os gregos queriam invadir a Ásia Menor. 

Messalina: a mulher-devassa; considerada uma das mulheres mais promíscua da história, porque toda a noite ia entregar-se aos trabalhadores manuais no bairro portuário de Suburra. Foi morta pelo marido não pela sua prostituição e, sim, porque ousou amar outro homem. 

Safo: a mulher-homossexual, poetisa e símbolo do homossexualismo feminino, talvez por morar em Lesbo onde a sociedade aceitava tanto homens como mulheres e os educava conjuntamente e era permitido guardar na maturidade os mesmos laços adquiridos desde a infância; ela pode viver plenamente a sua sexualidade.

Mesmo como personagem subjugada da História, a mulher ultrapassou todos os tempos e enfrentou todos os ventos que sopraram contra. 

Na Literatura sul-rio-grandense elas fizeram História através do escritor Érico Veríssimo que deu às mulheres espaço e voz numa sociedade dominada pelo poder masculino. Dedicou a sua literatura às mulheres e concedeu a elas o reconhecimento que a História do período não lhe conferiu.

As mulheres de Érico diferem das mulheres que se esgueiravam na sombra, invisíveis, reprimidas e ainda assim sob suspeita.

Ana Terra: a mulher-símbolo; congrega toda a história da terra gaúcha. A épica e a trágica. É o símbolo de força, de coragem e de determinação.

Bibiana: a mulher-esposa; ela é o arquétipo da família gaúcha.  É o esteio do lar, das virtudes da casa e da família.   

Maria Valéria: a mulher-andrógina; porque transita entre os dois mundos – masculino e feminino assume um caráter funcional, o de quebrar nexos, deslocar obviedades e desfazer certezas sobre o corpo feminino; por isso é uma personagem transgressora.

Misture bem e terás uma bela e saborosa história de mulheres. Diferente da História feminina que foi descrita pelos viajantes, idealizada pelo pensamento Positivista. Exigida pela Igreja. 

O viajante August Saint-Hilare traz nas suas descrições do comportamento feminino uma visão eurocentrista. Basta observar o que ele escreveu sobre a mulher sul-rio-grandense do século XIX.

Assim as descreveu: “todas as mulheres do Rio Grande do Sul, são bonitas, tem olhos e cabelos negros, cútis branca e tem sobre as francesas a vantagem de serem mais coradas”. (PEDRO apud SAINT-HILARE, 1997, p.279).

Descreve, ainda, a existência de inúmeras mulheres comandando estâncias, trabalhando, provendo sozinha, a sobrevivência, em vista da constante ausência dos maridos.

O viajante conta que, enquanto nas regiões do interior não encontrou mulheres nas ruas, na cidade de Porto Alegre elas eram bastante frequentes. Isso se deve, provavelmente, por causa dos inúmeros conflitos e batalhas realizadas que, ao mesmo tempo, que deu destaque aos homens nas atividades políticas e nas guerras, os ausentou do lar. Ausência que exigiu que as mulheres assumissem a direção dos empreendimentos e mantivessem a sobrevivência familiar, transpondo assim os limites das tarefas definidas usualmente para o seu sexo.

A imagem das mulheres do sul como mais sociáveis que as mulheres de outros lugares do país são recorrentes nos relatos dos viajantes. Imagem possivelmente vinculada à composição racial do sul do Brasil, aos preconceitos raciais dos ditos viajantes, à cultura específica da população que ai se instalou, bem como a uma formação social que proporcionava um modo de vida diferente dos existentes na economia escravista de exportação.

Muitas vezes, ao falarem das mulheres brasileiras, os viajantes referiam se exclusivamente às mulheres brancas de família abastada. Alguns ignoravam a existência de filhas de imigrantes pobres, de mulatas e negras livres, enquanto outros sequer as classificavam como mulheres, pois nem sempre eram capazes de levar em conta as contradições da vida paralela das diferentes camadas sociais.

Embora repletas de viés, é possível verificar que as imagens femininas retratadas pelos viajantes se diferiam, em muito, daquelas descritas por Gilberto Freire. 

Para o autor, o tipo mais comum de mulher brasileira, durante o Império era o da mulher-esposa: muito boa, muito generosa, muito devota. Só se sentindo bem entre os parentes, os íntimos. Não participava das conversas com os homens, na sala, mesmo quando convidada. Ignorava que existisse: Pátria, Império, Literatura… Conseguia compreender e aceitar as relações extraconjugais de seu marido. O bem-estar da família, as festas, os modelos de vestidos; eram suas preocupações diárias. (FREIRE, 2OO4, p 224-229).

O jornal do Comércio reforça essa ideia, numa publicação de julho de 1891 diz que na mulher amante, filha, irmã, esposa, mãe, avó existe o que o coração humano encerra de mais doce, de mais puro, de mais estático, de mais sagrado, de mais inefável. (PEDRO apud JORNAL DO COMÉRCIO 1997, p.281).

Esses modelos ideais de mulher como boas mães, virtuosas esposas e dedicadas filhas não foram criações dos jornais sulistas do final do século XIX e início do século XX. Eles já faziam parte do imaginário ocidental, podiam ser encontrados na literatura, no sermão das missas, nos textos escolares, nas tradições locais e se intensificaram durante a formação das elites nos centros urbanos. 

Para o pensamento positivista, que em Porto Alegre foi divulgado pelo Centro Positivista, a mulher ideal era uma filha obediente, esposa dedicada, mãe exemplar e, quando pobre, trabalhadora virtuosa. Assim, os papéis familiares de filha, irmã e esposa eram uma espécie de preparação para a função de mãe. Ser mãe era o papel mais sublime que uma mulher poderia desejar. As mulheres deveriam ser instruídas para aperfeiçoar o esposo e educar os filhos para a Humanidade. 

A autoridade masculina e a submissão feminina eram compreendidas no binômio “obediência e amor”. As mulheres obedeciam, porque eram delicadas e meigas.

Diferente de outras disciplinas, o Positivismo não afirmava a inferioridade intelectual das mulheres, mas sim que sua inteligência era complementar a do homem. Também se aceitava que ela ganhasse menos, pois tinham menos necessidades. 

Esse pensamento persiste até os dias atuais. Desde a infância, a mulher é levada a crer em sua própria incapacidade. E é este peso que leva a todas as situações da vida, do pneu furado na estrada, ao cargo importante que foi convidada a ocupar numa grande empresa. Diante de todos os desafios, muitas mulheres são perseguidas pela terrível certeza do fracasso. 

Na visão da Igreja, o homem era superior, portanto cabia a ele exercer a autoridade. Nunca se perdia a oportunidade de lembrar às mulheres o terrível mito do Éden, reafirmado e sempre presente na história humana. Ora, a mulher partilhava da essência de Eva. Era um animal imperfeito, por isso considerada, por sua simples existência, como perigosa, traidora e desestabilizadora da unidade e da solidariedade entre os homens, portanto tinha que ser permanentemente controlada.

Uma maneira comum dessa tentativa de controle total sobre a mulher era colocá-la no convento, pois, ter uma filha no convento significava ostentar certa posição social. No convento a filha não herdaria o que se destinava ao filho e como religiosa a filha seria a proclamação pública da religiosidade da família.

Usava-se também a ideia de que só os homens, as prostitutas e as mulheres de classe baixa podiam ter desejo sexual.

Sexualmente submetidas à sexualidade masculina a mulher que tinha orgasmos, até meados do século XX era prostituta ou tinha parte como o demônio. A frigidez era norma.

O comportamento, o modo de falar, o modo de se vestir das prostitutas eram exemplos a não serem seguidos pelas mulheres que quisessem ser consideradas “distintas”.

Para ser considerada digna de uma relação estável a mulher tinha que ser branca e de classe social elevada, ter uma atitude anti-sexual e cultuar somente o lar e o marido. 

As mulheres que não tinham esse perfil: a mulher branca pobre, a mulher negra, a mulher mulata e a mulher indígena eram as parceiras sexuais ideais, porém eram desprezadas como pessoas e consideradas como mercadorias de pouco valor.

A mulher que era “honesta” podia ser mãe, irmã, filha, religiosa, mas de modo nenhum, amante.

Apesar de todos os códigos morais numa sociedade colonial, os desvios de comportamento não eram tão incomuns. Uma das maneiras de violar, agredir e se defender era se refugiar no amor de outra mulher. A sodomia era condenada com muita severidade na legislação civil: quem o “pecado de sodomia por qualquer motivo cometer, seja queimado e feito fogo em pó, para que nunca de seu corpo e sepultura possa haver memória, e todos os seus bens sejam confiscados para a Coroa.” (ARAUJO, 1997, p.65).

Outra preocupação era com a feitiçaria. A associação entre sexualidade e feitiçaria era explícita, existia na crença de que os feitiços fabricados pelas bruxas eram úteis, sobretudo no campo afetivo. “Toda bruxaria tem origem na cobiça carnal, insaciável nas mulheres.” Acreditava-se que os feitiços fabricados pelas bruxas eram úteis, principalmente no campo afetivo. Tanto a Igreja como os legisladores civis acreditavam nisso. As Ordenações do Reino proibiam a essas mulheres a preparação de beberagem para induzir qualquer indivíduo à “querer bem ou mal a outrem, ou outrem a ele”. A Igreja em 1707 proibiu todo e qualquer tipo de feitiçaria destinado a influir no sentimento alheio, incluindo as cartas de tocar, palavras e bebidas e veículos semelhantes de interferência nas vontades e desejos.

Das pessoas executadas por bruxaria, cerca de 85% eram mulheres pobres. Muitas delas eram velhas, viúvas ou solteironas. Enfim, mulheres que não tinham a “proteção masculina”. 

Foram perseguidas, também as mulheres, que ousaram, nessa época, serem melhores que os homens nos cuidados de saúde; pois; apesar de serem os homens os que eram treinados para a prática da medicina, as mulheres sabiam manipular ervas, conheciam as famílias que tratavam, dominavam a milenar química das plantas, o aborto, o parto e os conhecimentos passavam de mãe para filha. Isso provocou a ira masculina de tal maneira que Paracelso, o pai da medicina moderna, queimou publicamente o seu texto por que; aprendera das feiticeiras, tudo o que conhecia.

Milhares de curandeiras e cirurgiãs morreram durante quatro séculos, porque desafiaram uma corporação médica masculina e também porque a Igreja, centralizadora de poder, considerava os elementos que não estavam totalmente sob o seu controle como não-ortodoxos e, portanto, dignos de extermínios. As mulheres, profissionalmente, foram sufocadas por se destacarem numa área estritamente masculina.

As mulheres que não se submeteram aos padrões misóginos impostos sofreram severa punição: foram ameaçadas, repreendidas, reprimidas, sujeitas às penitências espirituais. Contudo o ideal de adestramento completo, definitivo, perfeito, jamais foi alcançado por inteiro como pretendia a Igreja. 

Essas mulheres hoje são pó, são nada, ao contrário de sua dor, seu momento de prazer, seu sentir, que nos chegam aos pedaços, mas com a mesma força da paixão que comoveu, agitou e incitou os corações a reinventarem a cada situação a velha arte de sobreviver. (ARAÚJO, 1997, p.73). 

Se as mulheres continuam sendo marginalizadas na sociedade atual é por que boa parte da moral estabelecida, desde os primeiros tempos, permanecem de certa maneira impregnadas na nossa cultura; todavia há mulheres que estão abandonando esses estereótipos escrevendo uma nova história.

Apesar de todas as tentativas de anular a importância da participação da mulher em todos os momentos da humanidade. Elas estão inseridas na História e na Literatura mesmo com distorções e equívocos.

* Capítulo integrante da Monografia intitulada: Três mulheres de Érico Veríssimo na visão da psicanálise apresentada à Faculdade Cenecista de Osório, como requisito para a obtenção do título de especialista em Diálogos entre a História e Literatura do Rio Grande do Sul. –  Pós-graduação concluída em 2.006.

Hoje a tristeza não é passageira…

Por: Josaine Airoldi

Não sou infalível.

Sinto muito, mas não sou infalível.

Queria ser, mas não sou.

Eu falho como filha.

Eu falho como irmã.

Eu falho como professora.

Eu falho, quase todos os dias, como mãe.

Eu falho como amiga.

Eu falhei como namorada, esposa, amante…

Por mais que eu tente não consigo aceitá-las. Elas me destroem de uma maneira avassaladora.

Amanhã será igual a todos os outros dias.

A realidade me assusta.

A tempestade não cessa.

Não há nada que me diga que possa amenizar essa sensação.

Como disse Renato Russo: “Hoje a tristeza não é passageira”.

22/11/2.025

Bônus: Via láctea – Legião Urbana

Conto de fatos 

Por: Josaine Airoldi

Certa vez numa cidadezinha igual a muitas outras por aí tinha uma casa, nessa casa tinha ela sozinha, sentada na varanda, sob o sol de agosto olhando para o nada, perdida em seus pensamentos, revisitando o passado.

Conversou com sua versão criança e conseguiu perdoá-la, pois tinha feito o melhor que podia com as possibilidades que dispunha.  

Logo reconheceu sua versão adolescente e a acolheu como gostaria que tivessem feito.  

Foi assim que a sua versão adulta conseguiu entender que ninguém vai vir no alto da torre para lhe salvar. Tem que, simplesmente, descer degrau por degrau, segurando firme no corrimão para não cair e se preciso for, enfrentar o dragão e mostrar a ele, quem manda.

É necessário também encarar o espelho sem desviar o olhar, pois cada linha de expressão conta um pouco do que viveu de bom e ruim.

Viu, talvez pela primeira  vez, além das aparências, compreendeu  que belo é quem tem responsabilidade afetiva. Se não for assim, não serve e não importa o quanto pareça ser encantador o seu mundo. 

 Além disso, não precisa despertar a partir da chegada de alguém que invada seu espaço e depois vá embora sem nenhuma explicação, deixando-a num vazio imenso e se perguntando o que fez de errado dessa vez.

Foi assim, depois muitos momentos de extrema solidão e autocrítica compreendeu que o passado é um lugar para se visitar, de vez em quando, não para se morar e que é óbvio que não se obtém resultados diferentes se  mantiver o  modus operante. Desse modo, não tinha tanta importância os traumas, os vários: o que poderia ter acontecido se… ,  o que viveu de ruim…  Estava pouco a pouco se sentindo preparada para seguir sem mágoas, ressentimentos,  sem amarras… 

Com certeza, foi muito difícil chegar até constatação desses fatos, então tem que faz valer a pena cada momento bom que está por vir porque, finalmente, compreendeu que é a protagonista da sua história. É quem tem que dirigir, atuar, produzir e colocar em cena o enredo que escreve, pois a vida acontece no agora.

Então, escolhe um novo caminho para obter outras respostas, porque a vida acontece no agora.

Lulu Santos sempre teve razão quando disse que…”Nada do que foi será / De novo como foi um dia  / A vida vem em ondas como o mar / Tudo que se vê não é igual ao que foi a um segundo… “

Bora lá, que dias melhores virão

09/08/2.025 

Última conversa

Por: Josaine Airoldi

Eu tenho necessidade de encerrar ciclos escrevendo, eu sei que sabe disso, pois foi isso que de certa forma, nos aproximou…  – Foi assim que comecei a última mensagem que te enviei.  

Quero dizer, outra vez, que foi muito bom conversar contigo, porque suas mensagens que foram surgindo, de maneira despretensiosa, acrescentaram mais leveza a minha rotina.

Acredito mesmo que seja alguém inteligente, interessante, educado, que lê e gosta o que eu escrevo, que não me considera louca por não querer nada pela metade, que não usa o que eu digo contra mim…

Talvez o que ainda não tenha dito é que enquanto aguardava notícias suas, percebi que, estava novamente tentando me encaixar no mundo de alguém sem nenhuma ressalva e como sempre achei que, tudo estava sob meu controle e como sempre estava enganada.

O que há de novo é que dessa vez,  fui em busca de respostas para o meu comportamento autodestrutivo e pelo meu constante caos emocional. Tinha determinado que estava mais que na hora de parar de “andar em círculos” e … como diz a música de uma banda daqui deste lado do planeta – que acho conhece: “Eu não vim até aqui para desistir agora…”

Assim, aos poucos, fui sendo apresentada para o que significa: dependência emocional, reconhecimento de algo familiar, tentativa de receber afeto… e muitas outras expressões que nunca tinha ouvido falar, mas sei como ninguém, o que significam.

O fato é que preciso dessa última conversa  – para lhe dizer que, embora tenha gratidão por tudo que vivemos do jeito inusitado que criamos, também fiquei com uma sensação de decepção – por simplesmente ter “desaparecido” – porque sempre combinamos de ser verdadeiros um com o outro.

Eu continuo cumprindo a minha parte no nosso “acordo”, tanto que sou capaz de dizer que consigo, neste momento, entender seu comportamento, talvez por termos as mesmas dores emocionais…

Enfim,  sendo bem clichê:  o que me resta agora é recalcular a rota…

16/07/2.025

Só por hoje

Por: Josaine Airoldi

Observo o espelho nele está refletido um rosto que identifico como meu.

Hoje me sinto bonita.

Gosto do que vejo, apesar das linhas de expressões, apesar da ausência total de qualquer subterfúgio. 

Não uso maquiagem. Não por convicção, mas por comodismo.

O espelho continua me dizendo que o tempo não perdoa e que os homens são cruéis apesar de tudo, portanto só por hoje quero me sentir feliz.

30/07/2.010

Enquanto eu dormia

Por: Josaine Airoldi 

Peço que não me julguem, não precisa,  eu mesma faço isso desde aquele verão.

Em 1.990 eu e duas gurias trabalhávamos em condições completamente inadequadas. Estávamos longe da nossa família. Nos alimentávamos muito mal e tínhamos que dormir em meio às mercadorias, balaios, muita sujeira e num lugar totalmente de fácil acesso aos marginais.  

É claro que ficamos muito gratas quando soubemos que iríamos dormir no chão da sala do casal que alugava o lugar para a patroa –  para nós era uma espécie de bônus, por tanta dedicação ao trabalho quase escravo. 

Tudo estava dentro da normalidade, até o momento que comecei a receber a visita do benfeitor.

Não lembro o que dizia para justificar o fato que se encontrava ajoelhado, no escuro, bem próximo a mim,  quando eu “acordava” ao perceber que estava acontecendo outro nível de carícias.

Talvez tenha fingido tão bem que estava dormindo que não tenha desconfiado.

A verdade é que o jogo chegou ao fim quando recebemos a notícia que não poderiamos mais utilizar a sala daquele benevolente casal, pelo olhar da minha estimada patroa achei que estava ciente do verdadeiro motivo pelo qual teria que voltar a ocupar as maravilhosas acomodações que dispunha para suas meninas – como nos chamava. Hoje não tenho tanta certeza. Não sei se ela (esqueci seu nome) teve coragem de dizer o que realmente acontecia durante todas as noites na sua casa ou tenha contado uma versão onde eximia o marido de qualquer responsabilidade ou simplesmente disse que não nos queria mais porque nós deixávamos sua sala com aspecto ruim. A versão que ouvimos era que iriam receber visitas, que até onde lembro nunca chegaram.

Estralhamente enquanto escrevia,  lembrei da sensação que tinha quando a sua mão firme tocava em mim e por mais que o tempo tenha passado, eu não consigo saber o que sinto por aquele homem que, por alguns minutos fazia eu sentir um misto de desejo e repulsa, enquanto eu dormia.

27/11/2.024

Os ossos do meu avô 

Por: Josaine Airoldi

Meu pai sempre fala com muito apreço do meu avô. Eram cúmplices. Sente muito por não ter conseguido acatar o seu último pedido: retirá-lo do hospital, pois queria morrer em casa, mas os médicos não permitiram. 

A única lembrança que tenho dele são seus ossos e restos de roupas que aos poucos foram retirados pelo meu pai e pelo tio Chico e colocados numa caixa de papelão para que o desejo da vovó Carola fosse cumprido: ser colocada junto ao marido, depois de realizados todos os ritos católicos.

Naquela época, com 10 anos e o prazer de reencontrar as primas e primos, assistir a essa cena não pareceu algo assombroso.

Além do que para mim o motivo principal de – praticamente toda a família – que diga se de passagem é enorme – estar reunida na casa da vovó naquele dia – era o convite feito pela tia Madalena, para que os sobrinhos e sobrinhas com até 7 anos participassem da mesa de inocentes organizada por ela.   

A promessa foi cumprida. Os doces e rosquetes estavam maravilhosos como sempre.

Em certo momento, estávamos correndo quando, de repente, ficamos extasiadas no meio da rua – eu, minha irmã e algumas primas – olhando o táxi vermelho que passa levantando poeira vermelha, que para diante da casa da vovó, então saí uma mulher alta com uma cabeleira esvoaçante vermelha. 

Era tia Maria – aquela que morava em Brasília desde sempre e só veio para o enterro e voltou logo em seguida.  Não sei dizer como era o rosto dela.

Também não me lembro do que mais aconteceu naquele velório tão diferenciado, mas guardei para sempre a cena dos ossos do meu avô.

01/02/2.020

Carta para mim 

        Por: Josaine Airoldi

Enfim, cinquenta anos.

Admito que eu cometi muitos erros, mas acho que o mais grave foi não ter cuidado de mim: me ver refletida no espelho é cruel.  Não é fácil ficar frente a frente com essa minha versão atualizada. As rugas me mostram o quanto deveria ter cuidado da minha pele enquanto era jovem. Os inúmeros fios de cabelos embranquecidos, me dizem que tenho que encontrar tempo para me cuidar. As unhas com esmalte descascando me mostram o quanto deixei de me importar comigo.

Além de muitíssimas mágoas – eu juro que estou tentando apagá-las – e várias  dívidas feitas em meu nome sem o meu conhecimento, uma filha linda, que precisa de uma mãe com equilíbrio emocional para criá-la foi o que ficou do meu casamento.

Tudo que planejei não será mais possível. É necessário rever a rota. Segurar com força o leme dessa nave incandescente que é a minha vida. Sim. Eu tenho que rever meu percurso.

Logo eu, que sinto a necessidade do previsível, que nunca quis ser diferente, que nunca quis chamar a atenção.

Logo eu que sempre escondi minhas dores, que sempre me senti  responsável por tudo sempre…  

Logo eu que preciso do aconchego, que preciso me sentir protegida.

Logo eu que preciso da sensação de calmaria. 

Logo eu que sempre me alimentei da possibilidade de um dia ter um pouco de atenção.

Logo eu que  sou tão o que querem que eu seja, sempre me moldando para caber num lugar que não é meu e como recompensa me contento com míseras migalhas de afeto. De repente, me vejo sozinha, numa solidão absurda, numa casa que não tem nada de minha.

Eu sinto que não construí nada, apesar de ter muitas coisas. Na estante da sala tem a mãe e a professora. Onde estarão as outras “eu”? Elas existem? Por que não estão representadas em lugar nenhum?

Como disse Rita Lee: mulher é um bicho estranho, todo mês sangra. Acho que de uma forma ou de outra todas nós somos estranhas e, às vezes, sagramos.

15/04/ 2.024