Hoje a tristeza não é passageira…

Por: Josaine Airoldi

Não sou infalível.

Sinto muito, mas não sou infalível.

Queria ser, mas não sou.

Eu falho como filha.

Eu falho como irmã.

Eu falho como professora.

Eu falho, quase todos os dias, como mãe.

Eu falho como amiga.

Eu falhei como namorada, esposa, amante…

Por mais que eu tente não consigo aceitá-las. Elas me destroem de uma maneira avassaladora.

Amanhã será igual a todos os outros dias.

A realidade me assusta.

A tempestade não cessa.

Não há nada que me diga que possa amenizar essa sensação.

Como disse Renato Russo: “Hoje a tristeza não é passageira”.

22/11/2.025

Bônus: Via láctea – Legião Urbana

Última conversa

Por: Josaine Airoldi

Eu tenho necessidade de encerrar ciclos escrevendo, eu sei que sabe disso, pois foi isso que de certa forma, nos aproximou…  – Foi assim que comecei a última mensagem que te enviei.  

Quero dizer, outra vez, que foi muito bom conversar contigo, porque suas mensagens que foram surgindo, de maneira despretensiosa, acrescentaram mais leveza a minha rotina.

Acredito mesmo que seja alguém inteligente, interessante, educado, que lê e gosta o que eu escrevo, que não me considera louca por não querer nada pela metade, que não usa o que eu digo contra mim…

Talvez o que ainda não tenha dito é que enquanto aguardava notícias suas, percebi que, estava novamente tentando me encaixar no mundo de alguém sem nenhuma ressalva e como sempre achei que, tudo estava sob meu controle e como sempre estava enganada.

O que há de novo é que dessa vez,  fui em busca de respostas para o meu comportamento autodestrutivo e pelo meu constante caos emocional. Tinha determinado que estava mais que na hora de parar de “andar em círculos” e … como diz a música de uma banda daqui deste lado do planeta – que acho conhece: “Eu não vim até aqui para desistir agora…”

Assim, aos poucos, fui sendo apresentada para o que significa: dependência emocional, reconhecimento de algo familiar, tentativa de receber afeto… e muitas outras expressões que nunca tinha ouvido falar, mas sei como ninguém, o que significam.

O fato é que preciso dessa última conversa  – para lhe dizer que, embora tenha gratidão por tudo que vivemos do jeito inusitado que criamos, também fiquei com uma sensação de decepção – por simplesmente ter “desaparecido” – porque sempre combinamos de ser verdadeiros um com o outro.

Eu continuo cumprindo a minha parte no nosso “acordo”, tanto que sou capaz de dizer que consigo, neste momento, entender seu comportamento, talvez por termos as mesmas dores emocionais…

Enfim,  sendo bem clichê:  o que me resta agora é recalcular a rota…

16/07/2.025

Só por hoje

Por: Josaine Airoldi

Observo o espelho nele está refletido um rosto que identifico como meu.

Hoje me sinto bonita.

Gosto do que vejo, apesar das linhas de expressões, apesar da ausência total de qualquer subterfúgio. 

Não uso maquiagem. Não por convicção, mas por comodismo.

O espelho continua me dizendo que o tempo não perdoa e que os homens são cruéis apesar de tudo, portanto só por hoje quero me sentir feliz.

30/07/2.010

Aconteceu no Obelix 

Por: Josaine Airoldi

Numa certa madrugada fria de primavera…

Show acontecendo agendado com muita antecedência.

Tudo transcorrendo dentro da normalidade…

De repente…

– Fechem imediatamente esse bar – um deles diz em alto e bom som – está faltando o alvará.

A música para. Trazem um documento, afinal eles são a lei.

-.Como assim? – Uns perguntam – observando incrédulos o que está acontecendo.

Outros estão em outra vibe, continuam bebendo, fumando, conversando…

Há aqueles que se manifestam a favor dos meninos que estão apenas trazendo um pouco de vida cultural a Imbé.

O caos está instaurado.

Um cliente sobe no palco.

Profere duras palavras contra os que acham que estão munidos de razão.

Vendo a cena, um dos homens da lei também quer fazer uso da palavra.

Tenta – à força – tomar o microfone. Não consegue. Afinal, ali, é um espaço democrático, mas nem tanto.

Alguém comenta que há 4 viaturas na rua.

Outro observa que – no meio da escuridão – há uma mulher dentro de um dos carros, que não pertence a nenhum dos dois segmentos, atenta a tudo.

Mostram-se todos os documentos expedidos por todos os órgãos competentes, conforme exigido.

Não querem olhar.

Estão lá para cumprirem uma ordem.

É o que irão fazer.

Não interessa a eles nenhum argumento e nem nada que indique que tal arbitrariedade não será aceita.

Apesar disso, um deles confidencia que há exageros, mas…

Uma cliente passa mal.

O marido pede ajuda.

Uma desconhecida a socorre.

Tentam sair.

São barrados: precisam provar que pagaram. O homem explica, então, que alguém está fazendo isso. Tinham ido conhecer o bar com um casal de amigos. Estavam esperando o lanche e curtindo a boa música quando tudo começou…

O clima fica cada vez mais tenso.

Um cliente é preso: desacato.

O representante da lei e da ordem não tolera desaforos, ainda mais de quem o impediu de dar seu depoimento sobre o ocorrido no palco.

Aos poucos os clientes vão embora, reclamando do absurdo que está acontecendo.

Frank Jorge, promete voltar em outra ocasião, uma vez que não pode concluir sua apresentação.

O dia está amanhecendo, há muito a ser feito…

As portas se fecham, enfim.

Sobre eles

Josaine Airoldi

Ele era um adolescente e ela uma mulher de 20 e poucos anos.

Achava-o muito atrevido para a pouca idade que tinha.

Lembra dele com olhar determinado em conseguir o que queria, levemente escondido sob a aba do boné.

Depois de quase 30 anos, o destino resolve brincar com eles.

Ele, agora homem feito, se vê sozinho e com imensa vontade de mudar a rota da sua vida, já que o caminho que percorreu até aquele momento não serve mais, a procura. 

Vai tateando bem devagar o percurso, não tem nenhuma ideia de como vai reagir a sua busca por ela. Sabe pouquíssimas coisas a seu respeito, mas como sempre, não desiste.

Ela fica intrigada com o contato, mas como é impulsiva e meio distraída aceita conversar com ele virtualmente. Fica sabendo o que aconteceu na sua vida em poucos minutos. 

A imagem que tem dele – menino –  se confunde com o relato sobre como está atualmente. 

Fica impressionada em como amadureceu e no que se tornou. Confessa para si que não dava nada por ele.

Surpreendentemente, faz bem a ela conversar com ele, mesmo que através de mensagens.

Ela comenta com algumas pessoas sobre esse reencontro. Ninguém o conheceu naquela época, talvez por isso ninguém diz nada relevante. Quando muito tem alguma recordação do irmão dele, com quem ela namorava naquela época.

Final de ano, a vida segue em ritmo alucinante,  mil coisas para fazer. 

De repente, férias….

Num sábado de carnaval. Está sozinha em casa. O sol sob a varanda a convida para ir para a rua. Ler o livro deixa de ser prioridade, porque o pensamento está em saber mais sobre ele.

Ficam sabendo um pouco mais a respeito um do outro, vão percebendo que têm  várias  coisas em comum. 

Combinam de se encontrar para verificarem se realmente há algo real ou é só  carência afetiva. 

Uma sucessão de impossibilidades surge. Ora é ela que não pode, ora é ele que não consegue ir. 

Numa tarde ensolarada de um domingo qualquer ficam, finalmente, um de frente para o outro.

O que aconteceu depois?

Pois é! Não sei. 

Pode ser que perceberam que era melhor continuar apenas como amigos virtuais.

Talvez houve um encantamento de almas, coisa que acontece raramente e ficaram juntos para todo o sempre.

Ou quando se encontraram, conversaram e notaram que não tinham nada em comum e decidiram que o melhor era seguir a vida como se nada tivesse acontecido.

De repente, há outra possibilidade. Afinal, o destino, às vezes, gosta de brincar e nem sempre o acaso protege quem está distraído.

20/03/2.024

Para que querer saber?

Por: Josaine Airoldi

Domingo com sol.

Eu só penso em não sentir frio…

Além de, querer não sentir esta angústia…

Percebo o que eu quis, eu tive.

Será que o que eu desejei estava errado?

Às vezes, sinto que sei o caminho, mas não quero segui-lo.

Para que remexer no passado?

Para que querer saber o que não é necessário?

Lembro-me que é preciso comprar: margarina, papel higiênico, sabão em pó…

Não há mais tempo para desvaneios…

Não há tempo para escrever…

Não há tempo para mim…

Enfim, é a vida tentando seguir seu curso normal…

12/06/2.022

Com que roupa eu vou?

Por: Josaine Airoldi

Com que roupa eu vou? 

Além de ser o título de um samba, é também uma das vilãs da minha existência. Nunca sei como me vestir.

Às vezes, faço uma limpeza no guarda-roupa: retiro tudo que eu acho que não faz parte da minha nova versão. Momentaneamente, tenho uma sensação de autocuidado…

Quero escrever sobre a capacidade que tenho para escolher roupas erradas, mas o Nicolas Cage está na televisão. 

O filme eu já vi é muito bom, apesar de ser impactante: Oito milímetros

Com que roupa eu vou? 

Não sei. O Nick tomou por completo a minha atenção. Além disso, o  frio congelante impede minha vontade de fazer qualquer outra coisa.

Continuo escrevendo enquanto o filme se desenrola na tela da televisão, pois preciso aprisionar os meus fantasmas reprimidos.

Eu tenho essa dificuldade.

Qual?

Entendo então que são duas: escolher a roupa adequada e permanecer por longo tempo realizando a mesma atividade.

Ah! Com que roupa eu vou? Não sei. O importante é que Nicolas Cage aqueceu minha tarde fria e solitária de sábado.

21/07/2.010

Meu primeiro amor

Por: Josaine Airoldi

Tudo começou quando a Nane me impôs que eu tinha que escolher algum menino para gostar. Eu não gostava de nenhum menino, talvez por ter apenas dez anos, mas como nunca gostei de ser a “diferente,” comecei a observar os colegas de turma, afinal para ser meu primeiro amor, não poderia ter nada que de alguma forma me desagradassse.

Lembro que…

Leandro: andava de maneira desengonçada, era muito chato e metido a sabichão.

Gilmar – o Batatinha –  acho que o apelido era em referência ao personagem do desenho animado: Manda Chuva – era muito baixinho.

Jair: muito alto, feio e muito mais velho que eu. 

Luciano: bastante mal educado.

Genésio: sem graça e repetente.

Jerônimo: muito extrovertido. 

Hélio: vivia ficando de castigo por ser mal-comportado.  

Quando estava quase desistindo comecei a reparar nele. Era: franzino – mas tinha minha altura – era loiro, os olhos eram castanhos, bom aluno e educado com os colegas… Tinha que ser … Adriano..

Anunciei em alto e bom som para a Nane e para a Eliane que tinha escolhido um menino para gostar, mas não diria o nome, morreria de vergonha, se ele soubesse. Na verdade eu tinha medo que alguma delas contasse para a minha mãe, por isso embora, todos os dias insistiam em saber, eu nada dizia.

Qual não foi meu encantamento ao ler o seu nome de amigo secreto. Minha avó providenciou o que eu daria. Estava radiante até constatar que teria que entregar um talco Pompom para o menino dos meus sonhos, mas na falta de outra alternativa, entreguei o presente sem olhar a sua reação.

Meu mundo caiu mesmo tempos depois quando chegou na festa junina de braços dados com a Hélia – irmã gêmea do Hélio – de um lado e a Geni do outro. Vendo os três alegres e sorridentes, subitamente comecei a me sentir cada vez mais estranha dentro daquele vestido enorme para meu tamanho e a ausência de saia de armação ficou mais evidente.

Não aguentei a humilhação e fui embora.

Adriano não tinha como saber que tinha saber … – eu pensava – enquanto enxugava as lágrimas que teimavam em cair.

04/02/2.020

P.S. Ao longo dos anos Adriano foi minha referência de par ideal – esbarrei com alguns parecidos com ele – mas casei com um “sapo” e em 17 anos de convivência se mostrou que nunca deixaria de apenas um “sapo”. Atualmente, estou muito bem na minha própria companhia.

30/10/2.025

Não era sobre isso que queria falar…

Por: Josaine Airoldi

Às vezes, basta tentar um caminho ainda não percorrido.

Estou há dias tentando concluir um curso on-line e não consigo. Já fiz quase tudo e não consigo receber a resposta: 100% concluído.

Por falta de atenção, talvez, ou por má-vontade eu abri páginas em excesso e não consigo fechá-las. Não quero pedir ajuda.

Tenho vergonha de explicar para algum desconhecido que eu abri oito páginas indevidamente, ou seja, eu consegui repetir o mesmo erro por oito vezes.

Eis, então, que sigo a ordem dos fatores e qual não foi minha surpresa: eureca!

Consegui.

Tão simples.

Oh! Não, faltou luz!

Continuo tateando as teclas, mesmo no escuro, preciso aproveitar que estou inspirada para escrever.

Afinal, para alguma coisa tem que servir ter morado tantos anos em um lugar sem luz elétrica.

Minha mãe dizia que eu era teimosa igual a porco de cangalha.

Cangalha eram três pedaços de paus amarrados com arame em forma de triângulo que eram colocados nos porcos para que estes não fugissem do cercados onde ficavam. Mesmo assim sempre tinham os que não se intimidavam com tal artifício e tentavam sair, ficando presos… Afinal, era para isso que as cangalhas serviam…

Tem momento que me sinto assim: teimo em algo que, apesar de perceber que não está certo, eu continuo…

Não consigo parar ou consigo e opto por prosseguir… É como se a insistência fizesse tudo se resolver.

Claro, posso culpar o déficit de atenção, que faz um estrago em qualquer vida por aí, se não tratá-lo corretamente…

Ai se alguém segura o leme / Dessa nave incandescente… – dizem Kleiton e Kledir na minha mente, que já se desviou do que estava fazendo…

27/04/2.020