O último adeus

Por: Josaine Airoldi

Ao obter como resposta o barulho do fósforo sendo riscado na caixa na terceira vez que fez a mesma pergunta: “Quem está aí?”, minha mãe não teve dúvidas, pulou a janela do quarto.

Não tínhamos luz elétrica, por isso ficavam sempre: uma caixa de fósforos e uma vela na “guardinha” próximo a porta que era fechada por dentro por uma tramela.

Estava em pânico e nos deixou em pânico por muitos anos.

Diziam que era um tio que morreu dias depois que tinha vindo se despedir.

Eu me perguntava, então porque não respondeu. 

Será que não tinha uma maneira menos traumatizante para fazer isso e porque logo a minha mãe a pessoa escolhida que, além de estar sozinha estava grávida.

Não gostávamos de dormir na nossa casa, depois que ficou assombrada muito menos.

Sempre que possível conseguiamos nos livrarmos de tal incumbência.

Gostávamos de dormir na casa da minha avó que ficava no mesmo pátio.

Minha avó tinha vindo com as minhas tias morar perto justamente para minha mãe não ficar sozinha durante as longas ausências do meu pai que, por ser caminhoneiro ficava longos períodos longe da família. 

Era comum minha mãe decretar que queria dormir na cama dela

– Onde se viu: nós tínhamos casa – sempre dizia.

Então, uma de nós tinha que lhe fazer companhia.

Às vezes, relembrando dessa história me questiono o que teria acontecido se uma de nós estivesse junto.

A resposta é sempre a mesma: o desfecho seria igual.

12/04/2.020

Se eu tivesse uma mochila

Por: Josaine Airoldi

Com sete anos eu e a Nane ingressamos na 1ª série.

A escola  Thomaz era de madeira, tinha pouquíssimas salas e era pintada de azul, eu acho. 

Tudo era novo e assustador. 

Não melhorou com o passar do tempo. 

O que me confortava, de certa maneira, era saber que alguém viria nos buscar ao final da aula.

Certa vez, apesar da chuva torrencial, chegamos  a conclusão que seria uma boa ideia não esperarmos o adulto responsável naquele dia, pois estava demorando muito. 

Estávamos completamente encharcadas quando nos resgatou daquela situação.

– Por que não esperaram? – Jorge, o irmão da Nane, disse furioso e ao mesmo tempo percebendo que éramos capazes de irmos e virmos da escola sozinhas.

O material escolar que trazíamos conosco era igual e cabia numa pasta de papelão: um caderno, lápis, borracha e apontador. 

Tinha sido dada a ela pela minha mãe como pagamento de uma promessa que havia feito. 

Lamentei muito a mãe dela não ter feito nenhuma promessa, quando me mostrou a mochila de couro linda que havia ganhado, além de caderno novinho, pois o antigo havia se desmanchado. 

Isso se tornou pior quando recebi minha nova pasta – era de plástico, amarela e cheia de buracos feitos com caneta pela minha tia que tinha feito certamente quando a aula estava chata. “Vou fazer esses buraquinhos” – Ela deve ter pensado na época.

Não sei como foi parar embaixo do assoalho da casa da minha avó que a retirou de lá, lavou e colocou um elástico branco e me entregou. 

Minha avó sempre resolvia tudo com facilidade.

Como era plástico não estragava tão facilmente. – Alguém disse.

A partir daquele dia passei a odiar a escola e tudo o que ela significava.

Eu tinha muita vergonha daquela pasta Frankenstein.

Colocava a culpa no elástico, pois se fosse igual ao original, não chamaria tanta atenção.

Colocava a culpa na minha tia que não tinha se livrado direito da pasta, uma vez que não a queria mais.

Colocava a culpa na minha mãe, pois custava ter comprado uma mochila que nem a família da minha amiga fez.

Nada disso foi verbalizado, mas muito sentido, tanto que as imagens permanecem nítidas enquanto escrevo.

No ano seguinte ganhei uma mochila preta de couro, poderia colocar nas costas, se quisesse. Tinha uns desenhos de umas crianças estudando e uma frase embaixo: “Vamos estudar o Brasil precisa de nós.”

Quase todos da escola tinham uma igual, apesar disso não dei muita importância para aquela mochila, logo eu que sempre tive necessidade de ser igual aos outros, para não me sentir deslocada.

Tenho a impressão que tudo que desejo eu recebo, mas nunca recebo quando realmente desejo.

27/11/2.010

Uma história puxa outra!

https://lembrarparanaoesquecerinfo.data.blog/2020/07/28/o-caminho-3

Esqueceram de mim

Por: Josaine Airoldi

Da praça eu vi todos entrando na igreja: os convidados – entre eles meu pai, minha mãe e minha irmã do meio, o noivo e enfim a noiva acompanhada pelo pai e pelas daminhas de honra.

Eu não queria assistir a cerimônia. O que eu queria mesmo era sair correndo sozinha para qualquer lugar longe dali, uma vez que ninguém se lembrou que eu estava sozinha com uma bebê de alguns meses. Ou como uma bebê de alguns meses fica sob os cuidados numa praça com uma criança de 10 anos – mas nenhuma das possibilidades seria possível. – Eu concluí:

Se levasse o pelego e a bolsa com as fraldas não conseguiria levar a minha irmã. 

Se levasse a minha irmã teria que deixar o resto para trás. 

Eu estava nesse devaneio quando chega a tia Sirlei. 

Ela me olha com olhos de curiosos, mas não perdeu muito tempo com perguntas. Rapidamente troca a fralda de pano da minha maninha – que estava bastante suja e me tira daquele suplício. 

Depois disso, tudo transcorreu bem. 

A festa estava boa. 

02/06/2.010

Meus fantasmas

Por: Josaine Airoldi

Chegou o momento:  precisamos ir. – Eles sussurram.

Já tivemos momentos como este: precisamos ir. – Eles insistem.

Meus fantasmas parecem mais lúcidos do que eu. 

Sou egoísta e não quero abandoná-los. Não estou preparada para seguir sem eles. Receio encarar a realidade. Ainda não sei quem sou.

Estou sempre fugindo para o passado ou indo para o futuro. Permanecer no presente é desafiador para mim.

Precisamos ir. – Eles são intransigentes. Eu repito que não quero ficar sem eles. – Não me importo de ser egoísta. Afinal, estamos juntos a longo tempo. Não podem simplesmente desaparecer de um momento para o outro.

Necessito deles para me dizerem qual é o caminho.

Eles são a minha referência.

Não sei seguir vivendo sem eles…

Enfim, eles compreendem e dizem que vão permanecer mais um tempo comigo.

Respiro aliviada e agradecida…  

25/08/2.007

Halls

Por: Josaine Airoldi

Sempre nos oferecia Halls preto, que ardia muito na boca, então, colocávamos fora. 

Não sei por que nos oferecia. 

Também não sei porque aceitava se sabia que colocaria fora. Acho que era a forma de retribuir a atenção que me dava.

Ele gostava de participar das nossas brincadeiras – ia nos visitar embaixo das árvores –  que era onde ficava nossas casas –  entrava e sempre pergunva como estávamos e também sempre cumprimentava a nossa amiga e vizinha imaginária. 

Nesses momentos não éramos crianças, éramos donas de casa atarefadas com as lides domésticas. Tínhamos até outro nome.  

Ele era amigo do meu avô e se tornou namorado da minha tia e, de vez em quando, vinha visitá-la e por morar longe ficava o fim de semana, por isso dormia no sofá da sala da casa da minha avó.

Como o interesse da amada era pouco.

Só restava o bar que ficava próximo de onde morávamos.

Minha irmã adorava acompanhá-lo nessa empreitada, pois o rapaz lhe dava o que pedia.

Ela servia como anjo da guarda lhe guiando no caminho de volta. 

Lembrando dos dois juntos parecem a Marsha e o Urso.

O namoro não durou. 

Ficaram com lembrança um disco do Júlio Iglesias presente dele para a namorada, que eu adorava ouvir, apesar de não entender o porquê de tantos lamentos e uma foto dos dois juntos no álbum de quinze anos da minha tia.

17/04/2.020

A consulta

Por: Josaine Airoldi

É só comprar outro – ele me diz.

Se eu tomasse a medicação indicada pararia de dar importância para coisas pequenas do dia a dia.

Ele fala sobre os componentes químicos do remédio como um aliado.

As pessoas vão continuar fazendo coisas que te desagradam, porém tu não darás essa dimensão, ou seja, não  tente mudar o outro, tenha outra visão sobre o acontecido.

-Se  o vinho que vocês compraram para tomarem juntos foi tomado sem a tua participação é só comprar outro. Simples assim.

– A casa está bagunçada? Contrate uma faxineira.

– Está cansada? Descanse!

– Aprenda a dar outra resposta a tudo que te incomoda.

Parece fácil ouvindo. 

Estou quase convencida que tem razão.

Mas, quando usa o exemplo, que se alguém escolhe trabalhar num ambiente sem janela, mas com ar–condicionado…

Olho em volta e percebo que está se referindo a própria situação, que é uma maneira de se convencer que fez a escolha certa.

Ele volta a falar do remédio como se fosse um velho amigo.

Minha mente viaja. 

Estou analisando o psiquiatra.

Conhecer o ser humano é uma dádiva e um tormento. 

Às vezes, se torna complicado a convivência com certas pessoas, pois se entende além do que é dito. 

Todos nós temos nosso calcanhar de Aquiles.

Será que para isso existe remédio?

22/01/2.020

A culpa é do orégano

Por: Josaine Airoldi

Domingo à tarde tinha planejado sair.

Não fui. 

Ficou tarde. 

Tudo começou quando comecei a procurar o orégano para colocar na carne, que estava cozinhando para o almoço.

Tinha certeza que estava num pote dentro de um armário. 

Não estava em lugar nenhum.

Nessa empreitada começou-se a verificação de data de validade dos produtos sendo jogados fora os que já estavam vencidos, a limpeza de algumas áreas esquecidas no dia a dia…   

Não saí! Mas a cozinha ficou limpa e organizada.

Ao sentar exausta no sofá da sala me deparei com ele impassível e empoeirado pregado na parede, está sempre lá esperando que seja limpo, que seja colocado um dos ponteiros que caiu e que também sejam trocadas as pilhas que o fazem produzir seu indiferente tique-toque.

Qualquer dia mando arrumar – assim com todo o resto que precisa de algum conserto.

Fui ensinada a fazer o que é certo. 

Fui ensinada a pensar sempre no bem estar dos outros. 

Fui ensinada a não dar opinião quando os adultos estavam conversando.

Sendo adulta não consigo decidir o que é realmente relevante para determinado momento. 

Às vezes, me proponho a não tomar decisão nenhuma.

Fico à deriva, sem rumo…

Não quero ser responsável por qualquer coisa que possa acontecer em decorrência da minha interferência ou pela minha alienação.  

Fico ao sabor das consequências da minha não-ação.  

É uma maneira tosca de me rebelar contra aquilo que me aflige.

Às vezes, é mais cômodo culpar algo aleatório sobre o que dá errado ou não acontece como desejado, do que encarar que sou responsável pelas minhas decisões ou pelas minhas não-decisões.

Não sai num domingo à tarde como tinha planejado e queria, mas a culpa não foi minha, a culpa é do orégano.

A pergunta que fica é: por que eu faço isso?

05/01/2.020 

O quatro olhos

Por: Josaine Airoldi

Hoje me lembrei da época em que estudava no Assis Brasil e especialmente de um comentário feito pelo Rogério: “Sabe o Quatro Olhos? Ele não percebeu que havia uma janela e foi com tudo nela”.

Rogério era um garoto muito magro, muito alto para a idade, desenhava muito bem e gostava muito de fazer piadas de mau gosto.

O Quatro Olhos em questão era nosso colega na oitava série em 1.989. Era um rapaz extremamente tímido, desajeitado e ter que usar óculos de grau não o ajudava em nada.

Eu me sentia deslocada naquela escola e mais ainda naquela turma. De certa, maneira nos identificávamos – éramos os “estranhos no ninho”.

Certo dia começamos uma brincadeira só nossa: sentar na primeira classe da terceira fileira. Eu morava longe e dependia de transporte público, enquanto ele morava perto e por isso quase sempre ganhava a disputa.

Quando eu conseguia algum êxito ele me perturbava a aula toda.

– “Da Frente”, dá licença não consigo enxergar daqui de trás! – Vale lembrar que, embora eu soubesse que tinha razão – pois eu era bem mais alto do que ele – respondia de maneira bem desaforada – para o “De Trás”- para que fosse possível continuarmos com nossa guerrinha particular.

Quando soube que gostava de uma música do Roupa Nova: Um trem azul, não tive dúvidas, copie a letra numa folha de papel, escrevi uma mensagem simpática tipo: “Seja feliz” ou qualquer coisa assim e lhe entreguei. Ele leu, me agradeceu e aproveitou para me contar que estava interessado numa menina da outra turma. Para mim, ela era muito feia e sem graça, mas mesmo assim, o incentivei para que se aproximasse dela.

Então, munido da pouca coragem que tinha e da música – que tive o maior trabalho para transcrevê-la – durante um recreio qualquer, disse que queria namorá-la. Para minha surpresa, a feiosa aceitou. A partir daquele dia era comum eu vê-los juntos de mãos dadas pelo pátio da escola.

Com a presença de uma outra pessoa na nossa vida, a nossa brincadeira aos poucos foi acabando. Mesmo assim, fiquei profundamente triste por ele – quando me contou o quanto estava sofrendo porque ela tinha acabado o namoro. Nada do que eu fazia para agradá-lo conseguia fazer com que não pensasse naquela lambisgoia. Foi assim que percebi que nunca deixaria de ser a “Da Frente”, simplesmente.

Lembrando dessa história agora, percebo que sempre fui melhor como amiga do que como namorada e quando insisto em querer mudar de categoria fico sem nenhum nem outro.

Recentemente, durante um evento o reencontrei. Notei que estava sem óculos, talvez estivesse usando lentes de contato – como eu ou fez cirurgia. Nos cumprimentamos à distancia pelo olhar e com sorrisos de cumplicidade, eu acho. Percebi que estava acompanhado de uma linda moça, havia uma aliança na mão esquerda e que fica bastante atraente vestido de branco.

O tempo só lhe fez bem.

 09/11/2.010

EU… EU… EU… sou um GÊNIO

Por: Josaine Airoldi

Egocêntrico. Egoísta. Enfadonho. Esquisito. Estranho. Extremista…

Apesar dessas características espantosas reunidas na mesma personalidade ele foi a pessoa com quem mais fácil convivi. Não esperava nada dele e de mim não nada exigia. Simplesmente, quando um estava a fim de ficar com o outro nos encontrávamos. Nunca fizemos planos de ficarmos juntos. Acho que a própria presença lhe bastava. Ele foi a única pessoa com quem me relacionei que não “romantizei”, não me perdi num emaranhado de fantasias e expectativas – de certa forma isso me fez bem.

Nunca houve um término com todas aquelas frases clássicas de fim de namoro… Depois de muito tempo, lembro de tê-lo avistado conversando com uma moça perto da Faculdade, onde eu estava fazendo uma curso de Pós graduação. Um acenou para o outro. Ele continuou o que estava fazendo, eu entrei no carro do meu namorado e fui embora. Foi a última vez que nos vimos.

Eu sempre ria quando dizia que não tomava nenhuma bebida gelada por causa da garganta – não se permitia ficar doente.

Às vezes, era enfadonho querendo ser culto: enquanto as pessoas comuns vão à praia, ele contempla a orla marítima. É comum pôr mostarda em lanches, ele só aceita pôr condimento a base de mostarda.

Era extremamente desagradável quando falava o que pensava:

– Comprei uma caixa de bombons Lacta. Adoro chocolate e só compro dessa marca que é a melhor que qualquer outra. – Falou sem se importar com fato de eu ter recebido, de outro convidado, outra caixa de bombons de outra marca.

– Sorvete bom é flocos e só da Nestle. – comentou certa vez na fila do caixa do supermercado. Enquanto expunha o seu ponto de vista olhei sem graça para o rapaz que estava atrás de nós na fila do supermercado com um pote de sorvete de banana de uma marca um pouco duvidosa. Qualquer outro sabor não gosta, embora nunca tenha provado.

Às vezes, era tão ridículo que chegava a ser patético: quase morri de vergonha quando resolveu entrar numa vídeo locadora com o capacete na cabeça – nada do que eu disse fez mudar de ideia – parecia um verdadeiro lunático.

Seu mundo só cabia uma pessoa: a mãe. A escolhida incondicionalmente, é uma boa senhora, que faz o que é preciso para ver o único filho, cujo pai nunca o reconheceu, feliz. Sempre me tratou muito bem e sempre fui bem-vinda a sua casa.

Se recusava a amadurecer apesar dos quase trinta anos, provavelmente, que enquanto o padrasto o ignorar e a mãe – a sua grande paixão e a única razão de sua existência estiver ali para protegê-lo – não precisa crescer.

Hoje é o dia do seu aniversário. Deve ser por isso que me lembrei dele e de sua eterna mania de não se tornar adulto.

14/11/2.005