É como andar de bicicleta

“Que possamos lembrar somente dos bons momentos.”

Por: Josaine Airoldi

                                                                            

É como andar de bicicleta – alguns dizem quando querem se referir ao que nunca esquecemos, uma vez aprendido, mas esquecem-se como é difícil aprender.

Os adultos em volta diziam que era fácil: é só se  equilibrar e pedalar.

Eu não conseguia: ou me equilibrava ou pedalava. As duas coisas juntas não eram possíveis: o chão era o limite.

Ela, a bicicleta na qual eu tentava – sem muito sucesso andar – não tinha rodinhas. Eu também não tinha mais idade para uma daquelas. Era uma Caloi 10. Enorme para mim. Além disso, não era minha. Era da minha tia que sabia andar e costumava nos levar na garupa de vez em quando.

Eu aprendi a andar de bicicleta depois de… 

Ter levado muitos tombos…

Ter ralado os joelhos…

Ter machucado os cotovelos…

Entre outras coisas que acontecem com quem quer aprender a andar de bicicleta…

Quando tivemos a nossa bicicleta. Era para eu andar primeiro – disseram.

Minha irmã não me deixou ter esse prazer, mesmo com os pneus murchos ela deu a primeira pedalada. Caiu logo em seguida, mas foi quem andou primeiro.

Era vermelha. Não tinha muitos detalhes, mas era indicada para meninas por ser mais leve e fácil de andar.  

Chamávamos de Moto Laser era o nome de um seriado que passava na televisão aos domingos.

Muito nos divertimos com ela: eu e minha irmã.

Ela, a Moto Laser e todas aventuras que nos proporcionou são algumas coisas que gosto de lembrar para não esquecer…

15/03/2.020

Embruxada

Por: Josaine Airoldi

Minha irmã caçula herdou do meu pai os olhos azuis que tanto a minha mãe desejou durante a gravidez e também as crises de asma do meu avô.

Foi benzida por todas as curandeiras da cidade, inclusive minha avó que tinha o costume de “coser” os males de quem precisasse e pedisse.

Foram ensinadas inúmeras simpatias para curá-la. Todas feitas a risca. Nenhuma, até hoje, surtiu efeito.

Certa vez, alguém sugeriu que a menina estava embruxada, por isso continuava tendo crises e não se curava.

– Como assim, embruxada? Havia uma bruxa entre nós? – Eu me questionava.

A conversa dos adultos continuava indiferente a minha expressão de medo e espanto, ouvindo tudo aquilo.

– Isso mesmo. A bruxa é a primeira pessoa que vier aqui amanhã. – Explicou aquela que parecia entender bastante do assunto. Era preciso que essa pessoa deixasse de ter contato com a criança para as crises acabassem.

Quase não dormi naquela noite. Precisava conferir quem era a bruxa. Será que seria igual as que apareciam em livros e filmes que passavam na televisão?

Eu tinha certeza que a bruxa – aquela que estava causando todo o mal – era uma senhora muito feia e se assemelhava a uma criatura das trevas – que era muito amiga da família e frequentemente estava lá em casa.

Qual não foi a surpresa de todos quando a tia Wilma chegou. Não conseguia olhar para ela. Ela era muito engraçada, sempre nos fazia rir muito de qualquer coisa, além disso, nunca havíamos falar em bruxa loira.

Não me recordo com foi recebida por nós, mas todos que a conheceram guardam com carinho boas lembranças suas.

Não sei se a tia Wilma ficou sabendo que era uma bruxa, mas se soube, certamente, deu muitas gargalhadas.

16/05/2.020

Uma história puxa outra!

O ultimo adeus https://wp.me/pbBYGl-hP

O sorriso da Gracinha

Por: Josaine Airoldi

Ela sempre foi muito bonita e tem um sorriso encantador.

Em todas as aulas esperávamos a mesma cena: ela ir apontar o lápis e próximo à lixeira ficar rindo baixinho.

Do que ria? Não me lembro. Acho que não tinha motivo. Talvez, o que gostava era a “quebra” na rotina da aula.

Estávamos em processo de redemocratização no Brasil.

Naquele tempo, quem não usava o uniforme era impedido de assistir à aula e tinha que voltar para casa imediatamente.

Havia também a aplicação de castigos como: cheirar parede ou permanecer com os joelhos em uma tábua com tampinhas viradas para cima, além dos puxões de orelha…

Em setembro, enfileirados e uniformizados com chuva ou sol marchamos e exaltamos a pátria mãe gentil.

Em casa, à noite ouvíamos o pronunciamento do Excelentíssimo Presidente da República General João Figueiredo, que interrompia a programação normal dos canais de televisão, sempre que bem entendia.

Lembro-me também do Hino Nacional Brasileiro sendo cantado pela Fafá de Belém em meio a uma multidão pedindo: Diretas já!

Acompanhamos pelo Jornal do Almoço as conturbadas brigas do ex-casal: Teixeirinha e Mary Terezinha.

Ao se apaixonar por outro, ela deixou o Rio Grande do Sul dividido.

Mais tarde, ele deixou a todos nós de luto.

Havia, aqui, as peripécias do então prefeito: Sessim – aquele que é até hoje – é idolatrado ou odiado pelos que o conhecem.

Foram tempos confusos para quem não entendia muito bem o que estava acontecendo.

Na minha concepção eu só precisava ser comportada, que nada de ruim aconteceria.

Assim era na escola e assim era em casa.

Acho que por isso o sorriso da Rosângela, a Gracinha, me remetia a ideia que eu poderia também  subverter a ordem, pelo menos por alguns instantes.

29/04/2.020

Uma história puxa outra!

https://lembrarparanaoesquecerinfo.data.blog/2021/01/23/se-eu-tivesse-uma-mochila

Gadeias

Por: Josaine Airoldi

Ela me  causou vários problemas. Era um dos motivos preferidos da mãe para brigar comigo.  -Assim começou o seu relato.

Quando estava tudo bem lá em casa ela resolvia cuidar do meu cabelo. A pergunta e a explicação eu já conhecia de cor:

– Cadê a tua escova? Quero pentear essas tuas “gadeias”. Geralmente eu não sabia, até porque eu a odiava.

As “gadeias” em questão eram o meu cabelo loiro, comprido e embaraçado. Em virtude disso eu tinha até uma característica particular: eu era “gadelhuda.”

Ela não tinha paciência nem comigo nem com ele: escova-o com raiva puxando-o com força e quando estava de mau-humor amarrava-o com mais força ainda.

Tudo ficava pior quando encontrava piolhos no meu cabelo, o que não era nada difícil, pois eu era um criadouro deles. Ainda sinto o cabo de madeira sendo  batido com toda a força na minha cabeça.

Numa das eternas busca pela escova perdida encontrei-a entre os resíduos de lixo que haviam sido queimados no pátio.  Estava parcialmente queimada, principalmente nas cerdas.

Ficamos em silêncio, por um longo tempo, ouvindo o barulho da chuva que caia incessantemente e indiferente a nós e a nossas memórias.

Certa vez… – ela retoma como se voltasse para o momento que estava prestes a narrar.   – Quando foram chamados os alunos cujos pais queriam a famosa e tradicional: Lembrança Escolar, embora tivesse ensaiado várias possibilidades de solicitar que a professora fizesse algo diferente do rigoroso rabo de cavalo com o meu cabelo que minha mãe tinha feito – usando a minha maravilhosa escova, não tive coragem: tinha um medo terrível dela também.

Enquanto penso em dizer algo para amenizar a dor que essa lembrança lhe traz, ela continua…

A minha irmã que nunca teve uma escova exclusiva como eu e nunca teve cabelos embaraçados, os cabelos dela eram lisos ao extremo, os quais gostava de cortá-los escondida atrás do fogão a gás se tornou cabeleireira e tem escovas de todos os formatos e utilidades. Sabe como ninguém manuseá-las entre um corte e um penteado.

Eu continuo desgrenhada… – Diz rindo e encerrando assim nossa conversa sobre esse assunto e se servindo de mais vinho.

23/11/2.010

Os tiradores de sangue

“Naquele tempo nossos medos eram outros.”

Por: Josaine Airoldi

Esqueça o homem do saco, o bicho papão, a mula sem cabeça e todas as formas de amedrontar às crianças, nenhum deles me provocava medo.

Eu receava ser atacada pelos tiradores de sangue.

Não se trata de vampiros, embora eles também não existam.

Não sei de quem eu tinha mais medo se da minha mãe ou se deles.

Na volta da escola era sempre a mesma coisa.

Se eu a seguisse, desobedeceria minha mãe.

Se eu não a seguisse ela os acionava.

Bravamente e solitariamente eu seguia pelo caminho indicado pela minha mãe enquanto ela chamava: Os tiradores de sangue.

Embora eles nunca tivessem aparecido, eu os temia.

Ela era assim sempre tinha uma brincadeira, uma história ou uma solução para tudo.

Uma das nossas brincadeiras consistia em brincávamos de “casinha” numa casa de verdade.

 A filha dela era sempre a minha irmã.

Era em quem dava banho, colocava bastante talco e após vesti-la com a sua melhor roupa, saíamos para passear.

Ela sempre com algum sapato ou sandália de salto alto da minha tia.

 Às vezes, eu era a professora; ela a mãe preocupada.

Certa vez quando veio buscar o boletim da filha eu seriamente usei uma expressão corriqueira o cotidiano escolar:

  – Sua filha passou raspando.

Começaram a rir sem parar.

Primeiro ela depois a filha que nunca tinha frequentado a escola e não fazia a menor ideia o que significava o que eu havia falado. Isso foi o que me dava mais raiva: o poder que tinha para influenciar as pessoas.

 Fiquei profundamente chateada, ora não era para brincar com a brincadeira.

Quando era na sua casa as brincadeiras eram outras.

Fazíamos orelhas de macaco – era para serem bolinhos fritos.

Atrapalhávamos o namoro da minha tia com um dos irmãos dela.

Como não tínhamos luz elétrica eles gostavam de namorarem no escuro ou tentarem pelo menos.

 Queimar papel higiênico sujo, certa vez quase incendiei a “patente” não havia banheiro.

 Quando brincávamos trocávamos de nome.

Tínhamos nossa amiga e vizinha imaginária: a Lita.

 Também, brigávamos muito, principalmente quando ela queria fazer aquilo que eu não podia fazer.

Eu sabia que na hora de ser responsabilizada era eu quem tinha que arcar com as consequências porque ela estaria longe.

Como éramos três, é claro que eu sobrava.

Às vezes o meu primo me defendia e batia nela com uma toalha de um modo que somente ele conseguia.

Nunca brigamos fisicamente, mas eu gostava quando ele se vingava dela por mim embora eu achasse exagerada atitude dele em relação ao que havia acontecido; porém era bom me sentir protegida.

Talvez seja por isso que ela usou seu olhar malicioso para insinuar que eu tinha feito algo com ele que não fiz.

Se eu soubesse que isso somente aconteceria dez anos depois e com outra pessoa não teria ficado tão magoada e não teria ficado quase um ano sem conseguir olhar para ela.

 Só voltei a conversar com ela depois depois.

 Com certeza, ela foi minha melhor e pior amiga de infância que eu tive.

                                                                                              27/ 11/ 2.010

Doroteia

Por: Josaine Airoldi

Ela apareceu certo dia. Chegou sem ser convidada. Foi logo bem acolhida pela minha avó, que recebia bem a todos: os transeuntes que pediam abrigo, os que vendiam bugigangas, os que se ofereciam para ajudar no que fosse necessário em troca de algum prato de comida ou de alguns trocados…

Era alta, delgada, tinha o couro amarelado e o focinho fino, não sei de que raça, mas era bem diferente dos outros dois que tínhamos: o Macaco e o Leão.

Além deles tínhamos o Betinho, que como ela apareceu certa noite e foi ficando, se tornando o gato da família.

Doroteia – esse é o nome que demos a ela – tinha uma particularidade canina excepcional: somente atacava mulheres, com os homens era cordial e amistosa.

Doroteia era exímia em trazer panelas dos vizinhos para casa e também as levava. Tínhamos panelas sem tampas e tampas sem panelas.

Sentimos muito a falta dela quando percebemos que não voltaria mais.

Doroteia não era de se apegar.

20/11/2.010

A banda

“Naquele tempo ser baliza era o máximo…”

Por: Josaine Airoldi

Reunião.

Blá! Blá! Blá! Blá! Bla!…

Intervalo, enfim!

Banda da escola. Expectativa total. Estão no começo. Bem no começo. Nós seremos a sua primeira plateia.

Todos têm uma história para contar sobre banda escolar.

Olho em volta somos da mesma geração.

Entram ordenadamente.

Direita volver.

Esquerda volver.

Nada mudou.

A mente viaja. Escola Tomaz. Início da década de 80. Época em que era obrigatória a perfeição nos desfiles cívicos. Desfilávamos marchando. Esquerdo. Direito. Esquerdo. Direito… Olhar rente a cabeça do colega da frente. Uniforme impecável. Impecável também tinha que ser a nossa apresentação. Ensaiávamos quase todas as tardes durante o mês de agosto.

Sempre fui alta. Ficava por isso no final da coluna. Além disso, era desengonçada.

O fato é que mesmo de lá eu a via. Linda. Magnífica. Bailava e encantava a frente dos batalhões enquanto ouvia-se o som da banda municipal.

Eu sabia que nunca ocuparia aquele posto, mas desejava.

Naqueles tempos idos, não era proibido sonhar.

21/ 07/ 2.010

Se eu morresse agora…

Por: Josaine Airoldi

Começou no sábado.

O domingo foi mais tranquilo.

Na segunda-feira, mesmo me sentindo mal fui trabalhar. Era importante terminar as atividades pendentes.

Como o xarope não fez efeito, tive que compreender que estava doente e precisava de opinião médica. Então, esperei pacientemente durante a terça-feira o Márcio voltar de Esteio, para que me levasse ao hospital. Quando, enfim sou atendida recebo o diagnóstico: gripe. Compro todos os remédios prescritos.

Como o tratamento não fez efeito em três dias pois o corpo todo continua doendo. Não parava de tossir. Às vezes, segurava a respiração para não sentir dor, volto ao hospital, pois tenho direito a reconsulta.

Outro médico. Que bom! – penso. Eu tinha certeza que o diagnóstico estava errado e que se estivesse certo o tratamento estaria melhor.

Nova decepção: o médico me trata de maneira indiferente e mantêm o tratamento e acrescenta um remédio para dor no estômago. Com muita má vontade me dá um atestado de dispensa do trabalho por um dia.

O tratamento continua não fazendo nenhum efeito: respirar dói muito..

Preciso de um médico em quem confiar. Lembro do Doutor Ricardo. Espero bastante para ser atendida – horário de “encaixe”.

Ao sair do consultório com uma receita de remédios para o tratamento de pneumonia e atestado médico para sete dias, reparo nas minhas unhas mal cuidadas. Nesse instante percebo o quanto seria ruim se eu morresse agora com as unhas quebradas desse jeito. Morrer é inevitável, contudo manter as unhas bem cuidadas é possível.

04/09/2.010

Aos domingos

Por: Josaine Airoldi

Visita dos primos aos domingos era sinal de refrigerante na minha casa.

– Vão buscar. – Ouvíamos sempre.

Íamos – todos eufóricos pelo reencontro  – segurando firme os “cascos”  que balançavam dentro das sacolas. Como não tínhamos geladeira por não ter luz elétrica – voltávamos o mais rápido possível – os refrigerantes não podiam “esquentarem”.

Assim estávamos quando de repente uma garrafa cai, espatifa-se no chão. Fico por alguns segundos olhando o líquido se esvaindo no asfalto quente do mês de fevereiro. 

Fico com a cabeça baixa esperando que algum adulto viesse em meu socorro e  milagrosamente aconteceu:

– Não foi culpa tua, em dia isso acontece muito: as garrafas simplesmente explodem.

Logo o assunto perdeu a importância e fomos para a rua brincar como sempre fazíamos.

Recordando essa história – consigo lembrar daquela garotinha olhando abismada para os  cacos deixados pelo caminho e desejando ser amparada quando mais precisava…

Domingo almoço na minha casa.

                                          30/06/2.010