O quatro olhos

Por: Josaine Airoldi

Hoje me lembrei da época em que estudava no Assis Brasil e especialmente de um comentário feito pelo Rogério: “Sabe o Quatro Olhos? Ele não percebeu que havia uma janela e foi com tudo nela”.

Rogério era um garoto muito magro, muito alto para a idade, desenhava muito bem e gostava muito de fazer piadas de mau gosto.

O Quatro Olhos em questão era nosso colega na oitava série em 1.989. Era um rapaz extremamente tímido, desajeitado e ter que usar óculos de grau não o ajudava em nada.

Eu me sentia deslocada naquela escola e mais ainda naquela turma. De certa, maneira nos identificávamos – éramos os “estranhos no ninho”.

Certo dia começamos uma brincadeira só nossa: sentar na primeira classe da terceira fileira. Eu morava longe e dependia de transporte público, enquanto ele morava perto e por isso quase sempre ganhava a disputa.

Quando eu conseguia algum êxito ele me perturbava a aula toda.

– “Da Frente”, dá licença não consigo enxergar daqui de trás! – Vale lembrar que, embora eu soubesse que tinha razão – pois eu era bem mais alto do que ele – respondia de maneira bem desaforada – para o “De Trás”- para que fosse possível continuarmos com nossa guerrinha particular.

Quando soube que gostava de uma música do Roupa Nova: Um trem azul, não tive dúvidas, copie a letra numa folha de papel, escrevi uma mensagem simpática tipo: “Seja feliz” ou qualquer coisa assim e lhe entreguei. Ele leu, me agradeceu e aproveitou para me contar que estava interessado numa menina da outra turma. Para mim, ela era muito feia e sem graça, mas mesmo assim, o incentivei para que se aproximasse dela.

Então, munido da pouca coragem que tinha e da música – que tive o maior trabalho para transcrevê-la – durante um recreio qualquer, disse que queria namorá-la. Para minha surpresa, a feiosa aceitou. A partir daquele dia era comum eu vê-los juntos de mãos dadas pelo pátio da escola.

Com a presença de uma outra pessoa na nossa vida, a nossa brincadeira aos poucos foi acabando. Mesmo assim, fiquei profundamente triste por ele – quando me contou o quanto estava sofrendo porque ela tinha acabado o namoro. Nada do que eu fazia para agradá-lo conseguia fazer com que não pensasse naquela lambisgoia. Foi assim que percebi que nunca deixaria de ser a “Da Frente”, simplesmente.

Lembrando dessa história agora, percebo que sempre fui melhor como amiga do que como namorada e quando insisto em querer mudar de categoria fico sem nenhum nem outro.

Recentemente, durante um evento o reencontrei. Notei que estava sem óculos, talvez estivesse usando lentes de contato – como eu ou fez cirurgia. Nos cumprimentamos à distancia pelo olhar e com sorrisos de cumplicidade, eu acho. Percebi que estava acompanhado de uma linda moça, havia uma aliança na mão esquerda e que fica bastante atraente vestido de branco.

O tempo só lhe fez bem.

 09/11/2.010

Eu não era ela

Por: Josaine Airoldi

Depressão após fim de namoro. Tristeza sem fim. Transferência de escola. Redução de salário. Muitas contas a pagar. Últimos semestres na faculdade. Estágios. Relatórios. Trabalhos de conclusão. Teatro da Gleydes. Artigo para a Terezinha. Formatura à vista. Tudo ao mesmo tempo. Só quem viveu sabe! 

Foi então que ela teve a ideia.  Não só isso, colocou-a em prática. Soube depois. Não tinha como ficar pior a minha vida – então aceitei.

Ela tinha selecionado cinco pretendentes numa sessão dos classificados da Zero Hora – Desafio Sentimental. Escreveu uma carta como se fosse eu, fez cópias e enviou para os perfis que achava que se encaixava com meu.

Por telefone ficou horas me instruindo como deveria falar. Mandou uma cópia da carta pelo correio. Tinha que confirmar que eu era aquilo que estava escrito. Em breve, com certeza algum deles iria entrar em contato,  tinha que estar preparada.

Já tinha esquecido dessa história quando recebi uma ligação. A voz era agradável e a conversa também. Chamava-se João Luis.

Conversávamos quase todos às noites após eu chegar da Faculdade. Era a melhor parte do meu dia ou da noite.

Relatava sobre as idas ao supermercado acompanhado pela sobrinha. Sobre o dia a dia como corretor de seguros. Sobre o que gostava de fazer nos fins de semana…

Eu gostava de conversar sobre assuntos triviais e os problemas pelos quais estava passando…

Aparentemente gostavamos de várias coisas em comum…

Como as férias de julho estavam próximas,  combinamos de nos encontrarmos quando fosse a Porto Alegre.

Minha amiga e mentora tinha que estar junto. Instruída por ela marcamos num restaurante que ficava num shopping perto da casa dela.

Ah! Eu tinha que parecer elegante, então, se me perguntasse o que eu gostaria de beber teria que dizer que era suco de laranja.  Cerveja era vulgar. Vinho era caro. Refrigerante era infantil.

Eu estava entre curiosa e em pânico. O que me dava segurança era que sempre tão articulada e esperta não deixaria eu entrar em nenhuma cilada. 

A melhor parte, sem dúvida, foi a espera pelo rapaz, porque quando nos abordou veio a primeira decepção: era feio e estava vestido com o uniforme da empresa.

Condizia com a descrição que eu havia escutado, mas não com a que eu tinha imaginado.

Após as devidas apresentações. Então, ela  avisou que daria uma volta para que pudéssemos nos conhecer melhor.

A conversa não fluiu como fluía pelo telefone.

Relatou as desaventuras que teve certa vez numa viagem que fez para o litoral. Nada interessante para um primeiro encontro. Comentou que morava em tal bairro porém trocou a localização, talvez para analisar minha reação. Nem  precisei escolher o que beber pois, não houve essa possibilidade.

Entre um relato desagradável e outro ele perguntava em que momento a minha amiga voltaria. Quando  voltou ficou encantado novamente por ela, que não tinha nenhum interesse nele. Estava casada. Estava bem assim e também não gostou dele.

Nos despedimos ali mesmo. Nunca mais me ligou. Segui a vida… Aos poucos tudo foi serenando…

Sempre rimos bastante do nosso encontro às escura a três, enfim, eu não era ela.

24/04/2.020

P.S. Em 2.025 nossa amizade completou Bodas de Pérolas. Durante os 30 anos que convivemos:  eu casei e descasei. Ela ficou viúva e casou novamente. Ela continua me indicando pretendentes e me orientando como me comportar. Analiso as opções, não gosto e continuo fazendo escolhas erradas, por minha conta e risco. 

27/10/2.025

O Bico Fino

Por: Josaine Airoldi

Certa vez fomos a sua casa: eu e a Gorete. Eram em torno das 19 horas. Quando vi aquela cena, achei inacreditável: estava sentado à frente da televisão, concentradíssimo assistindo ao RBS Notícias, com as pernas cruzadas e nos pés um sapato ilustradíssimo de bico fino. Assim permaneceu, sem demonstrar qualquer entusiasmo pela nossa presença. Então, o apelidamos de Bico Fino.

Na nossa concepção adolescente, havia algo errado, pois aquele rapaz era para estar interessado em nós e não no que estava acontecendo de importante no mundo e principalmente, usar como qualquer adolescente, tênis.

A mãe fazia o que podia para ver o filho namorando uma de nós. Éramos as convidadas especiais em todos os aniversários. Acompanhava-o no nosso aniversário. A parte divertida desses encontros ficava por conta dos irmãos menores, que eram bem engraçados.

De vez em quando, nos encontrávamos, ele de bicicleta voltando do trabalho, eu a pé, voltando da Escola, conversavamos sobre frivolidades e outras coisas, até chegarmos na rua onde morávamos.

Quando completou 18 anos se alistou e para seu descontentamento foi convocado. Não seguiu carreira militar. Quando voltou para casa, começou a namorar uma menina que não conhecíamos e aos poucos fomos nos afastando.

Eu achava que não iria durar o namoro, que era apenas momentâneo, pois a garota parecia ser o avesso de nós. Quando ela engravidou. Foram morar juntos na casa da mãe dele.

Tempos depois, às vezes, nos encontrávamos e conversávamos sobre tudo e nada de importante, como antigamente enquanto esperávamos o ônibus para irmos ao trabalho.

Apenas por educação perguntava pelas meninas. Dizia que eram meninas lindas e parecidas com ele.

– Estão bem. – Respondia com timidez e certo orgulho.

Inevitavelmente eu olhava para seus pés.

22/11/2.010