Por: Josaine Airoldi
Com sete anos eu e a Nane ingressamos na 1ª série.
A escola Thomaz era de madeira, tinha pouquíssimas salas e era pintada de azul, eu acho.
Tudo era novo e assustador.
Não melhorou com o passar do tempo.
O que me confortava, de certa maneira, era saber que alguém viria nos buscar ao final da aula.
Certa vez, apesar da chuva torrencial, chegamos a conclusão que seria uma boa ideia não esperarmos o adulto responsável naquele dia, pois estava demorando muito.
Estávamos completamente encharcadas quando nos resgatou daquela situação.
– Por que não esperaram? – Jorge, o irmão da Nane, disse furioso e ao mesmo tempo percebendo que éramos capazes de irmos e virmos da escola sozinhas.
O material escolar que trazíamos conosco era igual e cabia numa pasta de papelão: um caderno, lápis, borracha e apontador.
Tinha sido dada a ela pela minha mãe como pagamento de uma promessa que havia feito.
Lamentei muito a mãe dela não ter feito nenhuma promessa, quando me mostrou a mochila de couro linda que havia ganhado, além de caderno novinho, pois o antigo havia se desmanchado.
Isso se tornou pior quando recebi minha nova pasta – era de plástico, amarela e cheia de buracos feitos com caneta pela minha tia que tinha feito certamente quando a aula estava chata. “Vou fazer esses buraquinhos” – Ela deve ter pensado na época.
Não sei como foi parar embaixo do assoalho da casa da minha avó que a retirou de lá, lavou e colocou um elástico branco e me entregou.
Minha avó sempre resolvia tudo com facilidade.
Como era plástico não estragava tão facilmente. – Alguém disse.
A partir daquele dia passei a odiar a escola e tudo o que ela significava.
Eu tinha muita vergonha daquela pasta Frankenstein.
Colocava a culpa no elástico, pois se fosse igual ao original, não chamaria tanta atenção.
Colocava a culpa na minha tia que não tinha se livrado direito da pasta, uma vez que não a queria mais.
Colocava a culpa na minha mãe, pois custava ter comprado uma mochila que nem a família da minha amiga fez.
Nada disso foi verbalizado, mas muito sentido, tanto que as imagens permanecem nítidas enquanto escrevo.
No ano seguinte ganhei uma mochila preta de couro, poderia colocar nas costas, se quisesse. Tinha uns desenhos de umas crianças estudando e uma frase embaixo: “Vamos estudar o Brasil precisa de nós.”
Quase todos da escola tinham uma igual, apesar disso não dei muita importância para aquela mochila, logo eu que sempre tive necessidade de ser igual aos outros, para não me sentir deslocada.
Tenho a impressão que tudo que desejo eu recebo, mas nunca recebo quando realmente desejo.
27/11/2.010
Uma história puxa outra!
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