O coitadinho

Por: Josaine Airoldi

Eles foram morar conosco: minha mãe, meu pai, minhas irmãs, minhas tias, avós, por certo tempo, quando a mãe dele ficou doente e os outros filhos estavam criados e moravam em Porto Alegre. 

Ele era terrível.  Estava sempre fazendo o que não devia, na opinião dos adultos. Para mâe, ele era sempre o coitadinho.  Ela o protegia, por mais que aprontasse, e ele me protegia. Eu o adorava por isso.

Lembro da vez que minha irmã do meio não se adaptou de jeito nenhum à escola e voltava para casa dizendo que não havia aula. Então, era comum eu ter que levá-la novamente. Ele sempre se prontificava para fazer isso no meu lugar, mas tinha que ser na bicicleta da minha tia. O que irritava profundamente a minha avó, que apesar disso emprestava, após muitas recomendações.

Eu adorava ficar na sua companhia, não interessava fazendo o quê.

Certa quarta–feira chuvosa; recolhemos tudo que era possível interessar ao dono do Ferro Velho, colocamos numa carroça e ele vendeu. Meu pai quase enlouqueceu quando descobriu a limpeza que nós realizamos no pátio de casa, mas só ele foi responsabilizado. Esse é um dos dias que guardo com mais carinho. Ainda posso sentir os pingos de chuva sob a minha pele e alegria de ter podido retribuir tudo o que fazia por mim.

Era comum, também, me ajudar a cuidar da minha irmã caçula. Ele a enrolava com todo o cuidado, colocava-a no carrinho e a embalava até que dormisse e podíamos completar juntos a revistinha: Coquetel.

Apesar de termos quase a mesma idade, estranhamente me sentia protegida, sempre quando estava por perto.

Quando adolescente encantava as meninas da escola, e a mim também, embora nunca soube disso…

16/10/2.010

O carinho da mãe, o guaraná e a injeção

Por: Josaine Airoldi

Quando a minha mãe e a minha avó percebiam que as claras de ovos batidas colocadas nos meus pés não estavam fazendo efeito e não importava o quanto de guaraná “fora do gelo” eu tomasse, a febre alta não iria abaixar, elas começavam a cogitar a possibilidade de ser levada para consultar em Osório. 

Nesse momento chorava ainda mais. 

Não tanto pela dor terrível na garganta, mas pelo fato de saber que iria tomar injeção e ficando boa não teria mais o carinho e a atenção da minha mãe, que nessas ocasiões ficava em volta da cama aflita, medindo a minha febre de 10 em 10 minutos. 

Eu suplicava dizendo que estava melhor que não precisava, embora a febre me desmentisse.

Como meu pai estava sempre trabalhando longe, era chamado o seu Artur, taxista que estava sempre a postos para atender os vizinhos.

A Doutora Maria Amelia sempre receitava a mesma coisa: Benzetacil, para o pavor de todas as crianças, ainda existe.

Para garantir a eficácia do tratamento, a primeira dose de injeção era dada lá mesmo no consultório.

As demais eram aplicadas na casa de uma senhora que era enfermeira – Dona Noemia – para a qual eu tive que ir todos os dias durante sete dias.

Embora, criasse vários planos durante o trajeto para me livrar daquela situação não consegui pôr nenhum em prática.

Depois de esterilizar a seringa de vidro, ela realizava com habilidade seu ofício; enquanto aquela bondosa senhora se tornava, por alguns segundos minha carrasca, eu o via escondido se divertindo com a minha situação. Tinha mais ou menos a minha idade e era sempre mandado para o quarto, quando eu chegava, mas nunca obedecia à mãe.

O que doia mais era ter que enfrentar tudo isso sozinha.

Cada vez que eu reclamava de alguma coisa para minha mãe eu ouvia que eu tinha que agradecer muito a Deus por estar viva, que ficou cuidando de mim meses e meses no Hospital Conceição, que eu tinha sido desenganada pelos médicos.

Depois de muito tempo estava eu e minha mãe novamente no mesmo hospital, em posições contrárias, porém dessa vez os médicos não estavam errados quanto ao diagnóstico.

                                                                                      15/08/2.000

Esqueceram de mim

Por: Josaine Airoldi

Da praça eu vi todos entrando na igreja: os convidados – entre eles meu pai, minha mãe e minha irmã do meio, o noivo e enfim a noiva acompanhada pelo pai e pelas daminhas de honra.

Eu não queria assistir a cerimônia. O que eu queria mesmo era sair correndo sozinha para qualquer lugar longe dali, uma vez que ninguém se lembrou que eu estava sozinha com uma bebê de alguns meses. Ou como uma bebê de alguns meses fica sob os cuidados numa praça com uma criança de 10 anos – mas nenhuma das possibilidades seria possível. – Eu concluí:

Se levasse o pelego e a bolsa com as fraldas não conseguiria levar a minha irmã. 

Se levasse a minha irmã teria que deixar o resto para trás. 

Eu estava nesse devaneio quando chega a tia Sirlei. 

Ela me olha com olhos de curiosos, mas não perdeu muito tempo com perguntas. Rapidamente troca a fralda de pano da minha maninha – que estava bastante suja e me tira daquele suplício. 

Depois disso, tudo transcorreu bem. 

A festa estava boa. 

02/06/2.010

Halls

Por: Josaine Airoldi

Sempre nos oferecia Halls preto, que ardia muito na boca, então, colocávamos fora. 

Não sei por que nos oferecia. 

Também não sei porque aceitava se sabia que colocaria fora. Acho que era a forma de retribuir a atenção que me dava.

Ele gostava de participar das nossas brincadeiras – ia nos visitar embaixo das árvores –  que era onde ficava nossas casas –  entrava e sempre pergunva como estávamos e também sempre cumprimentava a nossa amiga e vizinha imaginária. 

Nesses momentos não éramos crianças, éramos donas de casa atarefadas com as lides domésticas. Tínhamos até outro nome.  

Ele era amigo do meu avô e se tornou namorado da minha tia e, de vez em quando, vinha visitá-la e por morar longe ficava o fim de semana, por isso dormia no sofá da sala da casa da minha avó.

Como o interesse da amada era pouco.

Só restava o bar que ficava próximo de onde morávamos.

Minha irmã adorava acompanhá-lo nessa empreitada, pois o rapaz lhe dava o que pedia.

Ela servia como anjo da guarda lhe guiando no caminho de volta. 

Lembrando dos dois juntos parecem a Marsha e o Urso.

O namoro não durou. 

Ficaram com lembrança um disco do Júlio Iglesias presente dele para a namorada, que eu adorava ouvir, apesar de não entender o porquê de tantos lamentos e uma foto dos dois juntos no álbum de quinze anos da minha tia.

17/04/2.020