Tudo fica melhor à beira-mar

Por: Josaine Airoldi

Terça-feira ensolarada.

Contemplo as minhas ilusões indo embora com as ondas do mar.

As férias estão acabando…

Não quero fazer planos que sei que não vou cumprir. Serão abortados no início como todos os outros.

Olho a linha do horizonte: o infinito, realmente existe.

Pode-se ser feliz com tão pouco.

Basta uma tarde à beira-mar.

Ah! como é bom morar aqui.

A brisa leve toca a minha pele fazendo eu lembrar que ela se faz presente nesse momento.

Penso em retomar a terapia. É complicado ser eu. Sempre foi.

As palavras do meu psiquiatra terapeuta ecoam na minha mente:

– Sempre estarei aqui para te acolher.

Ele sabe o quanto gosto dessa ideia.

Estou sentindo, talvez dessa vez mais forte que as outras vezes, a necessidade de ter uma vida organizada.

O que para quem tem déficit de atenção é extremamente complicado e difícil. Não é só uma questão de querer, como alguns acham. É não conseguir de forma nenhuma, não importa quanto esforço, método e empenho sejam utilizados.

Há a necessidade de medicação, que para obtê-la é preciso a receita… Enfim, voltar à terapia…

“Aquela ideia de tudo se ajeitar  / Não valeu…”  – Chico Buarque se instaura sem nenhuma  permissão na minha mente.

A tarde segue lenta sem nenhum percalço. Começo a sentir o efeito do álcool… Tudo está ficando mais lento e confuso.

É preciso manter o mínimo de lucidez.

Talvez a água do mar não esteja tão gelada assim…

08/02/2.022

Qual é o significado?

Por: Josaine Airoldi

… E quando vejo o mar há algo que diz que a vida continua e se entregar é uma bobagem… – escreveu certa vez Renato Russo.

Depressão é coisa séria.

Quando me sentia muito mal costumava ir para praia apreciar o incansável ir e vir das ondas.

Às vezes, tinha vontade de entrar mar adentro, mas a ideia de perceber que estava num caminho sem volta fez com que eu não concretizasse esse desejo, se é que seria um desejo.

Meu psiquiatra me diz que desejos como esses têm relação com a vida uterina.

Quero saber mais sobre isso. Ele me pergunta se nunca tinha lido sobre isso?

Respondo que não, então, me manda pesquisar na internet. Ora se fosse para pesquisar no Google eu não estaria ali, tentando entender o que me diz.

Ele me explica novamente que desejos suicidas de maneiras muito trágicas como: atropelamento ou afogamento tem haver com a vida uterina.

Saio do consultório sem entender a relação. Pesquiso sobre o assunto e encontro a mesma explicação.

Enfim, depressão é coisa muito séria e quase sempre tem relação com insatisfações profundas, que emergem do subconsciente devastando a vida no presente.

02/02/2.020

Devaneios à beira-mar

Eu estava somente divagando solitária e triste.

A reunião terminou mais cedo do que eu tinha previsto.

Não estava a fim de retornar para a escola e muito menos ir para casa.

Então, me restava a praia, a imensidão azul do mar, o eterno incansável ir e vir das ondas…

Estava vestida de: professora-titular que tem reunião na escola da estagiária.

Então, tive que improvisar: tirei o calçado e arremanguei as calças para poder sentir a água gelada, mas aos poucos fui entrando um pouquinho mais…

Gosto da água do mar chegando devagarinho, me trazendo à realidade.

– Oi! Quer carona? – me perguntou!

Eu estava tão absorta nos meus pensamentos, que esqueci de todo o resto.

Olhei em direção daquela voz.

Encontrei um rapaz: jovem, bonito, simpático…Parecia preocupado comigo, não sei por quê.  De certo achou que eu era louca.

Não respondi.

Então, achando que eu não tinha entendido ou não tinha ouvido, aproximou ainda mais o carro e repetiu:

– Quer carona?

Olhei em volta a praia estava quase deserta.

As ondas do mar indiferentes a tudo e a todos.

Estava tão perdida em mim mesma que resolvi aceitar.

Durante o trajeto: contou que era representante de uma marca de calças jeans e estava voltando para Porto Alegre, naquele momento.

Ofereceu-me uma calça do mostruário – a minha estava totalmente molhada, mas não aceitei.

 Expliquei que não tinha intenção de entrar mar adentro.

Não tinha coragem para algo tão trágico.

Queria apenas um pouco da serenidade que sempre encontro ao caminhar pela beira do mar, deixando a água me levar…

O nome dele eu esqueci, mas lembro-me que beijava bem.

Lembro-me também do jeito que me olhava.

Deixou-me em casa sã e salva.

Deve ter contado para alguém que, salvou uma desconhecida, numa manhã qualquer a beira-mar de Tramandaí, da melancolia em que estava mergulhada.

Deveria ter aceitado a calça.

29/04/2.020