O caminho

Por: Josaine Airoldi

Ter uma bicicleta e morar perto da escola foram fundamentais para a terceira série da qual eu fazia parte, ganhar a gincana em homenagem ao dia das crianças em 1.983

Eu não tinha nenhum dos dois requisitos.

Talvez, por isso a professora não tenha me deixado participar da comemoração, me expulsou, ou melhor, me enxotou. Acho que foi por maldade mesmo. Até hoje não consigo entender o motivo.

Enquanto eu tentava dizer: “eu não posso ir embora, não sem a minha irmã, ela batia o pé com força no chão e gritava:

– Vai embora…

Lembro que abaixei a cabeça e no caminho rasguei o poema que havia levado – não tinha sido necessário e, além disso, não tinha sido criado por mim.

Tentando esconder os olhos inchados, enfim, cheguei em casa. Fui recebida com uma enxurrada de xingamentos seguidos de perguntas, mas nenhuma foi…

– O aconteceu contigo para ter vindo para casa sozinha chorando?

30/06/2.010

Habilidades e competências

Por: Josaine Airoldi

Segunda-feira.

Amanhece.

Manhã gelada.

Tenho que levantar.

Penso e repenso nos prós e contras.

O telefone que está na sala toca.

Ignoro.

Ele toca novamente.

Não desistem.

Levanto após muito esforço. 

Não era nada de importante.

Poderia não ter atendido, mas atendi e para atendê-lo levantei; se me levantei vou ter que ir.  

Banheiro.

Escovar os dentes.

Banho

Toalha.

O que vestir?

Qualquer roupa que me mantenha aquecida.

Saio.

Percebo que está mais frio do que eu imaginava.

Chego.

Todos reunidos.

Tento não ser notada.

Sento sem fazer muito barulho.

Já basta chegar atrasada.

Não consigo me concentrar.

Preciso estar aqui?

Posso não estar?

Talvez.

Aqui estou: congelada.

Não sinto os meus pés.

Estão paralisados.

Escuto sem muita vontade.

O assunto do momento é: habilidades e competências.

Grupo.

Aceitação.

Diferenças.

Autossuficiência.

Autonomia.

Ao longo dos anos nessa profissão descobri que algumas coisas jamais irão mudar e que fazem parte do processo.

Descobri que se escrever, mesmo que bobagens o tempo passa mais rápido.

Então escrevo.

Escrevo para conseguir aguentar o frio congelante do mês de julho.

Escrevo sobre o quê?

Não é importante sobre o que escrever.

O importante é escrever.

Aprisionar os pensamentos que estão à solta na tentativa da manutenção da sanidade mental.

O tempo está passando mais rápido agora.

O frio está diminuindo, pois o sol está se impondo..

Continuo escrevendo: trechos da palestra.

Trechos de conversas paralelas ao meu redor.

Trechos de algumas constatações óbvias olhando tudo em volta.

Jamais vou conseguir realizar tudo o que deixei para trás.

Não vou ser popular na escola, embora eu ainda esteja na escola.

Não vou ser uma exímia dançarina.

Há coisa que se não acontecem no tempo que tem que acontecer nunca se tornarão reais.

Não vou ser uma boa cozinheira, simplesmente não gosto de cozinhar, embora acho esse ofício sublime.

Talvez, possa continuar sendo uma boa amiga, uma filha compreensiva, uma irmã presente, uma mãe carinhosa, uma esposa companheira, uma profesora eficiente… Para uma existência,  talvez basta.

Afinal, certas habilidades são para certas pessoas que têm certas competências ou vice-versa.

21/ 07/ 2.019

A história da prova ou a prova de História

Por: Josaine Airoldi

Ela era uma professora implacável conosco.

Todos tinham que ter um comportamento mais que perfeito.

Os textos eram ditados numa velocidade que só sendo muito ágil para conseguir acompanhá-la.

O conteúdo era esmiuçado de todas as formas de exercícios possíveis: questionário, cruzadinha, complete...  em provas que tinham em torno de cinco folhas mimeografadas – que às vezes, ficavam apagadas precisando que nós arrumassem.

Então, ninguém entendeu o porquê de se afastar da sala de aula em uma das últimas provas do ano.

Quem ficava no lugar dela era a professora de Língua Portuguesa que em posse das respostas deixadas com ela, enquanto a professora de História se afastava, misteriosamente se propôs a nos dar as respostas da prova, suplicando que não contasse nada do que acontecia ali para ninguém.

Nós achávamos muito esquisito tudo aquilo.

Sempre gostei de História. Sempre gostei de Língua Portuguesa, ainda mais quando há uma relação.

Suspeito que era combinado para que tivéssemos nota, pois certamente haveria reprovação em massa em História na 5ªsérie.

Será?

28/05/2.020

A banda

“Naquele tempo ser baliza era o máximo…”

Por: Josaine Airoldi

Reunião.

Blá! Blá! Blá! Blá! Bla!…

Intervalo, enfim!

Banda da escola. Expectativa total. Estão no começo. Bem no começo. Nós seremos a sua primeira plateia.

Todos têm uma história para contar sobre banda escolar.

Olho em volta somos da mesma geração.

Entram ordenadamente.

Direita volver.

Esquerda volver.

Nada mudou.

A mente viaja. Escola Tomaz. Início da década de 80. Época em que era obrigatória a perfeição nos desfiles cívicos. Desfilávamos marchando. Esquerdo. Direito. Esquerdo. Direito… Olhar rente a cabeça do colega da frente. Uniforme impecável. Impecável também tinha que ser a nossa apresentação. Ensaiávamos quase todas as tardes durante o mês de agosto.

Sempre fui alta. Ficava por isso no final da coluna. Além disso, era desengonçada.

O fato é que mesmo de lá eu a via. Linda. Magnífica. Bailava e encantava a frente dos batalhões enquanto ouvia-se o som da banda municipal.

Eu sabia que nunca ocuparia aquele posto, mas desejava.

Naqueles tempos idos, não era proibido sonhar.

21/ 07/ 2.010