Por: Josaine Airoldi
Ele se foi.
Ela ficou e pela primeira vez – depois de meses sendo corajosa – se permitiu chorar.
Ele se foi.
Ela ficou com a convicção de que tinha feito tudo que era possível para amenizar a sua dor.
Ele se foi
Ela ficou com todos os fantasmas a assombrando.
Ele se foi.
Ela ficou observando as horas que iam passando e percebeu que não havia tempo para lamentações.
Ele se foi.
Ela ficou com as últimas palavras dele ecoando na sua mente: por que é tão cruel?
Ele se foi.
Ela ficou e pensou que, talvez, estivesse se referindo ao câncer que se alastrou sem dó nem piedade e persistiu em não abandoná-lo.
Ele se foi.
Ela ficou com a certeza que demonstrou gratidão por tudo que viveram juntos e compaixão pelo seu sofrimento, enquanto planeja o que fazer com todos aqueles equipamentos hospitalares, que estão ocupando a sua sala de estar.
Ele se foi.
Ela ficou com tudo o que restou: lembranças, remorsos, angústias e incertezas…
Ele se foi.
Ela ficou com a pergunta que ambos faziam, sem obter resposta:
– Por que comigo?
Ele se foi.
Amanhã será outro dia – ela pensou.
12/01/2.021
