Os ossos do meu avô 

Por: Josaine Airoldi

Meu pai sempre fala com muito apreço do meu avô. Eram cúmplices. Sente muito por não ter conseguido acatar o seu último pedido: retirá-lo do hospital, pois queria morrer em casa, mas os médicos não permitiram. 

A única lembrança que tenho dele são seus ossos e restos de roupas que aos poucos foram retirados pelo meu pai e pelo tio Chico e colocados numa caixa de papelão para que o desejo da vovó Carola fosse cumprido: ser colocada junto ao marido, depois de realizados todos os ritos católicos.

Naquela época, com 10 anos e o prazer de reencontrar as primas e primos, assistir a essa cena não pareceu algo assombroso.

Além do que para mim o motivo principal de – praticamente toda a família – que diga se de passagem é enorme – estar reunida na casa da vovó naquele dia – era o convite feito pela tia Madalena, para que os sobrinhos e sobrinhas com até 7 anos participassem da mesa de inocentes organizada por ela.   

A promessa foi cumprida. Os doces e rosquetes estavam maravilhosos como sempre.

Em certo momento, estávamos correndo quando, de repente, ficamos extasiadas no meio da rua – eu, minha irmã e algumas primas – olhando o táxi vermelho que passa levantando poeira vermelha, que para diante da casa da vovó, então saí uma mulher alta com uma cabeleira esvoaçante vermelha. 

Era tia Maria – aquela que morava em Brasília desde sempre e só veio para o enterro e voltou logo em seguida.  Não sei dizer como era o rosto dela.

Também não me lembro do que mais aconteceu naquele velório tão diferenciado, mas guardei para sempre a cena dos ossos do meu avô.

01/02/2.020

Brincadeira de criança

Por: Josaine Airoldi

Estávamos conversando sobre frivolidades e saboreando um excelente vinho tinto, quando ela começou a falar sobre uma prima distante.

Ela era extremamente competitiva e, às vezes, chegava a ser chata. 

Sempre quis ser a melhor em tudo. 

Não suportava aquilo que não conseguia compreender ou desvendar.

As brincadeiras tinham que ser as que conhecia. 

Para mim ela fazia parte de outra realidade e era para ser prazerosa nossa convivência e não uma eterna competição e chateação.

Tudo tinha que ser do seu jeito, senão não participava das brincadeiras. Como morávamos longe e nos víamos em certos momentos a suportava.

Quando não conseguíamos ou não gostávamos do que propunha logo nos desinteressamos, mas para ela era questão de honra e como contava com o apoio da irmã continuava com a brincadeira como se nada tivesse acontecido.       

Eu me dava melhor com uma das irmãs dela com a qual sempre convivi tranquilamente.

Quando não estava com ela gostava de jogar futebol com meu pai e os três primos. 

Era o momento em que demonstravam que a personalidade do pai não tinha determinado totalmente a deles. 

Eram iguais aos demais meninos que eu conhecia.

Era a que mais recebia atenção do meu pai que acho que a acolhia e a todos os sobrinhos por sentir o quanto o irmão era seco com os filhos. 

Sempre que a visitávamos, meu pai fazia questão de parar num mercadinho próximo a casa deles e comprar balas para os sobrinhos e escolher o melhor e mais bonito pão d’água de quarto quilo (expressão bastante comum na época) para presenteá-la. 

Ela recebia aquele embrulho com os olhos brilhando e agradecidos. 

Aquele pão representava o afago que seu pai nunca lhe dava ou nunca lhe deu, apesar de ser a filha caçula e ser a preferida dos seis filhos.

Eram bons aqueles momentos na casa dos tios. 

O almoço ou o jantar, apesar da austeridade imposta pelo meu tio, era uma ocasião especial por causa do sabor dos pratos que degustávamos: a galinha caipira com bastante molho, a polenta que só a minha tia sabia fazer, a massa caseira, café fumegante, o pão caseiro. Tudo preparado no fogão à lenha. 

Ganhávamos “ovos” que nós, eu e minha irmã comíamos rapidamente sem se preocupar com a película que os envolviam, enquanto elas tentavam retirá-los.

Ela sempre implicava com a minha irmã apesar de não ter noção de que sentimento era aquele que exalava por seus poros, sabia que a fixação para que a minha irmã tivesse resultados ruins na escola era exagerada.

Hoje sei o nome disso: inveja.

Era inveja do amor e carinho que tínhamos do meu pai.

Era inveja da maneira como seus irmãos a tratavam: como uma bonequinha.

Era inveja de um amor que nunca recebeu.

Certa vez quase enlouqueceu quando não conseguia decifrar o código que tínhamos para descobrir qual era a palavra combinada numa brincadeira banal de adolescentes. 

Nos fez repeti-la várias vezes. 

Ah! Como me diverti vendo sua expressão de angústia e nos acusando de não revelar que havia descoberto o segredo apesar de já ter adivinhado. 

A brincadeira para mim era quase uma revanche, por todas aquelas brincadeiras tolas que realizei para agradá-la ou para não desagradá-la durante anos.

O vinho acaba, mas continuamos a conversa, afinal as recordações boas ou ruins, não.

16/10/2.010

Meu primeiro amor

Por: Josaine Airoldi

Tudo começou quando a Nane me impôs que eu tinha que escolher algum menino para gostar. Eu não gostava de nenhum menino, talvez por ter apenas dez anos, mas como nunca gostei de ser a “diferente,” comecei a observar os colegas de turma, afinal para ser meu primeiro amor, não poderia ter nada que de alguma forma me desagradassse.

Lembro que…

Leandro: andava de maneira desengonçada, era muito chato e metido a sabichão.

Gilmar – o Batatinha –  acho que o apelido era em referência ao personagem do desenho animado: Manda Chuva – era muito baixinho.

Jair: muito alto, feio e muito mais velho que eu. 

Luciano: bastante mal educado.

Genésio: sem graça e repetente.

Jerônimo: muito extrovertido. 

Hélio: vivia ficando de castigo por ser mal-comportado.  

Quando estava quase desistindo comecei a reparar nele. Era: franzino – mas tinha minha altura – era loiro, os olhos eram castanhos, bom aluno e educado com os colegas… Tinha que ser … Adriano..

Anunciei em alto e bom som para a Nane e para a Eliane que tinha escolhido um menino para gostar, mas não diria o nome, morreria de vergonha, se ele soubesse. Na verdade eu tinha medo que alguma delas contasse para a minha mãe, por isso embora, todos os dias insistiam em saber, eu nada dizia.

Qual não foi meu encantamento ao ler o seu nome de amigo secreto. Minha avó providenciou o que eu daria. Estava radiante até constatar que teria que entregar um talco Pompom para o menino dos meus sonhos, mas na falta de outra alternativa, entreguei o presente sem olhar a sua reação.

Meu mundo caiu mesmo tempos depois quando chegou na festa junina de braços dados com a Hélia – irmã gêmea do Hélio – de um lado e a Geni do outro. Vendo os três alegres e sorridentes, subitamente comecei a me sentir cada vez mais estranha dentro daquele vestido enorme para meu tamanho e a ausência de saia de armação ficou mais evidente.

Não aguentei a humilhação e fui embora.

Adriano não tinha como saber que tinha saber … – eu pensava – enquanto enxugava as lágrimas que teimavam em cair.

04/02/2.020

P.S. Ao longo dos anos Adriano foi minha referência de par ideal – esbarrei com alguns parecidos com ele – mas casei com um “sapo” e em 17 anos de convivência se mostrou que nunca deixaria de apenas um “sapo”. Atualmente, estou muito bem na minha própria companhia.

30/10/2.025

Ela

Por: Josaine Airoldi

Ela era sempre indiferente à minha admiração, embora linda e perfeita. Todos os dias eu ia visitá-la. Ela era inacessível para mim

Percebi isso quando me dei conta que o seu valor era dez vezes o que eu tinha entendido, ou seja  não eram R$ 14,50 e sim R$ 145,00 – se fosse nos dias de hoje. 

Pior de não poder tê-la, foi vê-la ser de outra criança, que nem mesmo a desejou como eu.

Os adultos podem ser cruéis de vez em quando: de todas as bonecas existentes na loja tinha que escolher a única que desejei, mesmo nunca tendo ficado sabendo disso.

Tudo bem que a criança em questão era sua neta e eu apenas a filha da sobrinha do marido, que estava passando uns dias de férias em sua casa.

Ela ficou para sempre entre as coisas que sempre desejei e nunca tive.

25/12/2.020

Zé Gralha

Por: Josaine Airoldi

– Meu nome é José Oliveira – Essa é uma das frases que sempre dizia.

Ainda mais quando descobriu que chamávamos de Zé Gralha. Não me recordo o que motivou  tal acunha. Sei que não gostou nem um pouco. Zé Gralha era um homem muito bonito, mas a cachaça – raramente ficava sóbrio –  e o excesso de exposição ao sol envelheceram ele antes do tempo.

Certa vez, depois de um longo período ausente reapareceu.

Estava vivo para nosso espanto. Ríamos muito, lembrando que havia sido encomendado uma missa em homenagem a sua memória.

O fato é que havia recebido uma indenização generosa por ter sido atropelado enquanto vagava solitário por uma estrada qualquer.

Mesmo assim retornou – como sempre precisava de um lugar para ficar por um tempo.

Um dia foi embora e nunca mais voltou…

 06/11/2.021

Amigas para sempre?

Por: Josaine Airoldi

Esperteza ou inteligência.

Eu, a inteligente.

Ela, a esperta. 

Quem tem mais chances na vida adulta?

Eu sempre achei que fosse a esperteza, pois se tem ou não tem. Não é algo que se adquire estudando.

Mesmo assim, para mim, gostar de estudar era a única coisa que me tornava superior a  ela. 

Ouvi certa vez após, relatar esse pensamento a um amigo na sala dos professores:

– Quem é ela atualmente?

Não soube responder,  mas subitamente lembrei-me de uma conversa que tivemos  numa sala de espera de um consultório:

– Tenho um filho de sete anos.

Combinamos que eu seria a madrinha de seu primeiro filho ou filha – enquanto ela batizava minha boneca.

– Eu não casei. Não tenho filhos… Fiz faculdade…

Parece que é uma obrigação: nascer…. Crescer… Casar…  Procriar… e Morrer…

– Moramos com a mãe.

De todos os filhos e filhas, a única que ficou cuidando da mãe foi ela que sempre soube que embora tivesse sido acolhida – por aquela família – não era bem-vinda.

– Continuamos morando todos juntos.

– Lembra daquele dia de chuva.

– Lembro sim.  

Até hoje me pergunto – o poderia ter sido diferente se tivéssemos esperado alguém nos vir buscar. – pensei, mas não falei; com certeza não entenderia. 

– E as gurias e teu pai?

– Estão bem.

-Tem que aparecer lá em casa para colocarmos a conversa em dia.

– Qualquer dia eu vou.

– Faz tempo que a tua mãe se foi.

– Faz sim. 

Os médicos nunca souberam dizer qual foi a causa, escreveram simplesmente: falência múltipla dos órgãos… –  estava me preparando para dar essa explicação, mas não perguntou.  

– Está demorando…

– É!

Não fomos amigas para sempre…

Nós nos perdemos? 

Não, seguimos caminhos óbvios.

Eu segui estudando.

Ela continuou fazendo o que sempre fez de melhor desde criança: limpar e organizar a casa dos outros.

Noto o quanto é feliz na simplicidade de saber viver bem com o que tem.

Realmente, a sua esperteza sempre me incomodou.

– É sua vez. – diz a recepcionista sorrindo.

30/06/2.010

Uma história puxa outra:

https://lembrarparanaoesquecerinfo.data.blog/2020/05/13/os-tiradores-de-sangue/

O coitadinho

Por: Josaine Airoldi

Eles foram morar conosco: minha mãe, meu pai, minhas irmãs, minhas tias, avós, por certo tempo, quando a mãe dele ficou doente e os outros filhos estavam criados e moravam em Porto Alegre. 

Ele era terrível.  Estava sempre fazendo o que não devia, na opinião dos adultos. Para mâe, ele era sempre o coitadinho.  Ela o protegia, por mais que aprontasse, e ele me protegia. Eu o adorava por isso.

Lembro da vez que minha irmã do meio não se adaptou de jeito nenhum à escola e voltava para casa dizendo que não havia aula. Então, era comum eu ter que levá-la novamente. Ele sempre se prontificava para fazer isso no meu lugar, mas tinha que ser na bicicleta da minha tia. O que irritava profundamente a minha avó, que apesar disso emprestava, após muitas recomendações.

Eu adorava ficar na sua companhia, não interessava fazendo o quê.

Certa quarta–feira chuvosa; recolhemos tudo que era possível interessar ao dono do Ferro Velho, colocamos numa carroça e ele vendeu. Meu pai quase enlouqueceu quando descobriu a limpeza que nós realizamos no pátio de casa, mas só ele foi responsabilizado. Esse é um dos dias que guardo com mais carinho. Ainda posso sentir os pingos de chuva sob a minha pele e alegria de ter podido retribuir tudo o que fazia por mim.

Era comum, também, me ajudar a cuidar da minha irmã caçula. Ele a enrolava com todo o cuidado, colocava-a no carrinho e a embalava até que dormisse e podíamos completar juntos a revistinha: Coquetel.

Apesar de termos quase a mesma idade, estranhamente me sentia protegida, sempre quando estava por perto.

Quando adolescente encantava as meninas da escola, e a mim também, embora nunca soube disso…

16/10/2.010

Feliz aniversário

Por: Josaine Airoldi

Criança gosta mesmo é de ganhar brinquedo.

Não venha com roupa maior para durar mais, que quando nos serve já está desbotada; ou com dinheiro para se colocar na poupança, o que geralmente não acontecia porque a mãe comprava mais roupas sempre dois ou três números maior do que realmente servia.

Criança quer ganhar brinquedo no dia do seu aniversário, no Natal, no dia das crianças ou em qualquer ocasião dedicada a ela.

Presente bom – entende-se brinquedo, foram o que eu ganhei de seu Medina – ou o Barão do Rio Branco – como costumávamos chamá-lo. Ele sempre nos dava brinquedo no Natal. 

Certa vez ganhei a Maria Costureira, acho que era esse o nome, porque tinha duas roupinhas.  A minha irmã ganhou a Emília, era de pano e não tinha roupinha reserva como a minha.  Outro presente que ganhei foi um conjunto de xícaras com pires que ficavam numa bandeja linda vermelha.  O seu Medina sabia o que criança gosta de ganhar de presente: brinquedo.

Certa vez ganhei uma sandália de aniversário. A sandália ficou pequena.  Tinha sido dada por uma amiga da família, a Célia. Foi comprada numa espécie de mercado que vendia de tudo. Era simples trocá-la por numeração maior.  Fomos ao local.  Encontrei a sandália, mas não me foi permitido ficar com ela. Por quê?

Porque não tinha nenhuma que servisse na minha irmã, que por chorar copiosamente, fez com que meu pai decretasse: se não tem para uma não tem para nenhuma.

Nunca entendi a atitude do meu pai.

Nunca aceitei a indiferença da minha mãe diante de tal injustiça.

Nunca perdoei o egoísmo exacerbado da minha irmã. – Desde quando ela necessitava ter, além de tudo o que era meu, uma sandália igual a minha, que foi minha por muito pouco tempo. 

Além disso, essa via era sempre de mão única. O contrário nunca aconteceria mesmo se fosse possível. Mesmo criança eu tinha noção que isso era um absurdo.

– É só uma criança, não sabe o que está fazendo, pensará alguém. 

– Cada um se defende como pode, dirá outro.

Ela sempre era protegida, até pelos estranhos.

Se fosse um brinquedo como o que eu ganhei do rapaz do armazém – uma boneca de plástico – não seria necessário a troca e assim eu teria ficado com o meu presente de aniversário.

A menina que está na frente da vitrine em 1.981 está dizendo para adulta de 2.021 que talvez não tenha acontecido dessa maneira, a memória, às vezes, nos trai…

Então a imagem ganha som e escuto novamente, que se não se não tem para uma não tem para nenhuma.

Ninguém tem o direito de tirar de mim o meu presente de aniversário.

Enfim, digo.

20/01/2.021

O último adeus

Por: Josaine Airoldi

Ao obter como resposta o barulho do fósforo sendo riscado na caixa na terceira vez que fez a mesma pergunta: “Quem está aí?”, minha mãe não teve dúvidas, pulou a janela do quarto.

Não tínhamos luz elétrica, por isso ficavam sempre: uma caixa de fósforos e uma vela na “guardinha” próximo a porta que era fechada por dentro por uma tramela.

Estava em pânico e nos deixou em pânico por muitos anos.

Diziam que era um tio que morreu dias depois que tinha vindo se despedir.

Eu me perguntava, então porque não respondeu. 

Será que não tinha uma maneira menos traumatizante para fazer isso e porque logo a minha mãe a pessoa escolhida que, além de estar sozinha estava grávida.

Não gostávamos de dormir na nossa casa, depois que ficou assombrada muito menos.

Sempre que possível conseguiamos nos livrarmos de tal incumbência.

Gostávamos de dormir na casa da minha avó que ficava no mesmo pátio.

Minha avó tinha vindo com as minhas tias morar perto justamente para minha mãe não ficar sozinha durante as longas ausências do meu pai que, por ser caminhoneiro ficava longos períodos longe da família. 

Era comum minha mãe decretar que queria dormir na cama dela

– Onde se viu: nós tínhamos casa – sempre dizia.

Então, uma de nós tinha que lhe fazer companhia.

Às vezes, relembrando dessa história me questiono o que teria acontecido se uma de nós estivesse junto.

A resposta é sempre a mesma: o desfecho seria igual.

12/04/2.020