Qual é o significado?

Por: Josaine Airoldi

… E quando vejo o mar há algo que diz que a vida continua e se entregar é uma bobagem… – escreveu certa vez Renato Russo.

Depressão é coisa séria.

Quando me sentia muito mal costumava ir para praia apreciar o incansável ir e vir das ondas.

Às vezes, tinha vontade de entrar mar adentro, mas a ideia de perceber que estava num caminho sem volta fez com que eu não concretizasse esse desejo, se é que seria um desejo.

Meu psiquiatra me diz que desejos como esses têm relação com a vida uterina.

Quero saber mais sobre isso. Ele me pergunta se nunca tinha lido sobre isso?

Respondo que não, então, me manda pesquisar na internet. Ora se fosse para pesquisar no Google eu não estaria ali, tentando entender o que me diz.

Ele me explica novamente que desejos suicidas de maneiras muito trágicas como: atropelamento ou afogamento tem haver com a vida uterina.

Saio do consultório sem entender a relação. Pesquiso sobre o assunto e encontro a mesma explicação.

Enfim, depressão é coisa muito séria e quase sempre tem relação com insatisfações profundas, que emergem do subconsciente devastando a vida no presente.

02/02/2.020

Eu não era ela

Por: Josaine Airoldi

Depressão após fim de namoro. Tristeza sem fim. Transferência de escola. Redução de salário. Muitas contas a pagar. Últimos semestres na faculdade. Estágios. Relatórios. Trabalhos de conclusão. Teatro da Gleydes. Artigo para a Terezinha. Formatura à vista. Tudo ao mesmo tempo. Só quem viveu sabe! 

Foi então que ela teve a ideia.  Não só isso, colocou-a em prática. Soube depois. Não tinha como ficar pior a minha vida – então aceitei.

Ela tinha selecionado cinco pretendentes numa sessão dos classificados da Zero Hora – Desafio Sentimental. Escreveu uma carta como se fosse eu, fez cópias e enviou para os perfis que achava que se encaixava com meu.

Por telefone ficou horas me instruindo como deveria falar. Mandou uma cópia da carta pelo correio. Tinha que confirmar que eu era aquilo que estava escrito. Em breve, com certeza algum deles iria entrar em contato,  tinha que estar preparada.

Já tinha esquecido dessa história quando recebi uma ligação. A voz era agradável e a conversa também. Chamava-se João Luis.

Conversávamos quase todos às noites após eu chegar da Faculdade. Era a melhor parte do meu dia ou da noite.

Relatava sobre as idas ao supermercado acompanhado pela sobrinha. Sobre o dia a dia como corretor de seguros. Sobre o que gostava de fazer nos fins de semana…

Eu gostava de conversar sobre assuntos triviais e os problemas pelos quais estava passando…

Aparentemente gostavamos de várias coisas em comum…

Como as férias de julho estavam próximas,  combinamos de nos encontrarmos quando fosse a Porto Alegre.

Minha amiga e mentora tinha que estar junto. Instruída por ela marcamos num restaurante que ficava num shopping perto da casa dela.

Ah! Eu tinha que parecer elegante, então, se me perguntasse o que eu gostaria de beber teria que dizer que era suco de laranja.  Cerveja era vulgar. Vinho era caro. Refrigerante era infantil.

Eu estava entre curiosa e em pânico. O que me dava segurança era que sempre tão articulada e esperta não deixaria eu entrar em nenhuma cilada. 

A melhor parte, sem dúvida, foi a espera pelo rapaz, porque quando nos abordou veio a primeira decepção: era feio e estava vestido com o uniforme da empresa.

Condizia com a descrição que eu havia escutado, mas não com a que eu tinha imaginado.

Após as devidas apresentações. Então, ela  avisou que daria uma volta para que pudéssemos nos conhecer melhor.

A conversa não fluiu como fluía pelo telefone.

Relatou as desaventuras que teve certa vez numa viagem que fez para o litoral. Nada interessante para um primeiro encontro. Comentou que morava em tal bairro porém trocou a localização, talvez para analisar minha reação. Nem  precisei escolher o que beber pois, não houve essa possibilidade.

Entre um relato desagradável e outro ele perguntava em que momento a minha amiga voltaria. Quando  voltou ficou encantado novamente por ela, que não tinha nenhum interesse nele. Estava casada. Estava bem assim e também não gostou dele.

Nos despedimos ali mesmo. Nunca mais me ligou. Segui a vida… Aos poucos tudo foi serenando…

Sempre rimos bastante do nosso encontro às escura a três, enfim, eu não era ela.

24/04/2.020

P.S. Em 2.025 nossa amizade completou Bodas de Pérolas. Durante os 30 anos que convivemos:  eu casei e descasei. Ela ficou viúva e casou novamente. Ela continua me indicando pretendentes e me orientando como me comportar. Analiso as opções, não gosto e continuo fazendo escolhas erradas, por minha conta e risco. 

27/10/2.025