Hoje a tristeza não é passageira…

Por: Josaine Airoldi

Não sou infalível.

Sinto muito, mas não sou infalível.

Queria ser, mas não sou.

Eu falho como filha.

Eu falho como irmã.

Eu falho como professora.

Eu falho, quase todos os dias, como mãe.

Eu falho como amiga.

Eu falhei como namorada, esposa, amante…

Por mais que eu tente não consigo aceitá-las. Elas me destroem de uma maneira avassaladora.

Amanhã será igual a todos os outros dias.

A realidade me assusta.

A tempestade não cessa.

Não há nada que me diga que possa amenizar essa sensação.

Como disse Renato Russo: “Hoje a tristeza não é passageira”.

22/11/2.025

Bônus: Via láctea – Legião Urbana

Conto de fatos 

Por: Josaine Airoldi

Certa vez numa cidadezinha igual a muitas outras por aí tinha uma casa, nessa casa tinha ela sozinha, sentada na varanda, sob o sol de agosto olhando para o nada, perdida em seus pensamentos, revisitando o passado.

Conversou com sua versão criança e conseguiu perdoá-la, pois tinha feito o melhor que podia com as possibilidades que dispunha.  

Logo reconheceu sua versão adolescente e a acolheu como gostaria que tivessem feito.  

Foi assim que a sua versão adulta conseguiu entender que ninguém vai vir no alto da torre para lhe salvar. Tem que, simplesmente, descer degrau por degrau, segurando firme no corrimão para não cair e se preciso for, enfrentar o dragão e mostrar a ele, quem manda.

É necessário também encarar o espelho sem desviar o olhar, pois cada linha de expressão conta um pouco do que viveu de bom e ruim.

Viu, talvez pela primeira  vez, além das aparências, compreendeu  que belo é quem tem responsabilidade afetiva. Se não for assim, não serve e não importa o quanto pareça ser encantador o seu mundo. 

 Além disso, não precisa despertar a partir da chegada de alguém que invada seu espaço e depois vá embora sem nenhuma explicação, deixando-a num vazio imenso e se perguntando o que fez de errado dessa vez.

Foi assim, depois muitos momentos de extrema solidão e autocrítica compreendeu que o passado é um lugar para se visitar, de vez em quando, não para se morar e que é óbvio que não se obtém resultados diferentes se  mantiver o  modus operante. Desse modo, não tinha tanta importância os traumas, os vários: o que poderia ter acontecido se… ,  o que viveu de ruim…  Estava pouco a pouco se sentindo preparada para seguir sem mágoas, ressentimentos,  sem amarras… 

Com certeza, foi muito difícil chegar até constatação desses fatos, então tem que faz valer a pena cada momento bom que está por vir porque, finalmente, compreendeu que é a protagonista da sua história. É quem tem que dirigir, atuar, produzir e colocar em cena o enredo que escreve, pois a vida acontece no agora.

Então, escolhe um novo caminho para obter outras respostas, porque a vida acontece no agora.

Lulu Santos sempre teve razão quando disse que…”Nada do que foi será / De novo como foi um dia  / A vida vem em ondas como o mar / Tudo que se vê não é igual ao que foi a um segundo… “

Bora lá, que dias melhores virão

09/08/2.025 

Última conversa

Por: Josaine Airoldi

Eu tenho necessidade de encerrar ciclos escrevendo, eu sei que sabe disso, pois foi isso que de certa forma, nos aproximou…  – Foi assim que comecei a última mensagem que te enviei.  

Quero dizer, outra vez, que foi muito bom conversar contigo, porque suas mensagens que foram surgindo, de maneira despretensiosa, acrescentaram mais leveza a minha rotina.

Acredito mesmo que seja alguém inteligente, interessante, educado, que lê e gosta o que eu escrevo, que não me considera louca por não querer nada pela metade, que não usa o que eu digo contra mim…

Talvez o que ainda não tenha dito é que enquanto aguardava notícias suas, percebi que, estava novamente tentando me encaixar no mundo de alguém sem nenhuma ressalva e como sempre achei que, tudo estava sob meu controle e como sempre estava enganada.

O que há de novo é que dessa vez,  fui em busca de respostas para o meu comportamento autodestrutivo e pelo meu constante caos emocional. Tinha determinado que estava mais que na hora de parar de “andar em círculos” e … como diz a música de uma banda daqui deste lado do planeta – que acho conhece: “Eu não vim até aqui para desistir agora…”

Assim, aos poucos, fui sendo apresentada para o que significa: dependência emocional, reconhecimento de algo familiar, tentativa de receber afeto… e muitas outras expressões que nunca tinha ouvido falar, mas sei como ninguém, o que significam.

O fato é que preciso dessa última conversa  – para lhe dizer que, embora tenha gratidão por tudo que vivemos do jeito inusitado que criamos, também fiquei com uma sensação de decepção – por simplesmente ter “desaparecido” – porque sempre combinamos de ser verdadeiros um com o outro.

Eu continuo cumprindo a minha parte no nosso “acordo”, tanto que sou capaz de dizer que consigo, neste momento, entender seu comportamento, talvez por termos as mesmas dores emocionais…

Enfim,  sendo bem clichê:  o que me resta agora é recalcular a rota…

16/07/2.025

Só por hoje

Por: Josaine Airoldi

Observo o espelho nele está refletido um rosto que identifico como meu.

Hoje me sinto bonita.

Gosto do que vejo, apesar das linhas de expressões, apesar da ausência total de qualquer subterfúgio. 

Não uso maquiagem. Não por convicção, mas por comodismo.

O espelho continua me dizendo que o tempo não perdoa e que os homens são cruéis apesar de tudo, portanto só por hoje quero me sentir feliz.

30/07/2.010

Enquanto eu dormia

Por: Josaine Airoldi 

Peço que não me julguem, não precisa,  eu mesma faço isso desde aquele verão.

Em 1.990 eu e duas gurias trabalhávamos em condições completamente inadequadas. Estávamos longe da nossa família. Nos alimentávamos muito mal e tínhamos que dormir em meio às mercadorias, balaios, muita sujeira e num lugar totalmente de fácil acesso aos marginais.  

É claro que ficamos muito gratas quando soubemos que iríamos dormir no chão da sala do casal que alugava o lugar para a patroa –  para nós era uma espécie de bônus, por tanta dedicação ao trabalho quase escravo. 

Tudo estava dentro da normalidade, até o momento que comecei a receber a visita do benfeitor.

Não lembro o que dizia para justificar o fato que se encontrava ajoelhado, no escuro, bem próximo a mim,  quando eu “acordava” ao perceber que estava acontecendo outro nível de carícias.

Talvez tenha fingido tão bem que estava dormindo que não tenha desconfiado.

A verdade é que o jogo chegou ao fim quando recebemos a notícia que não poderiamos mais utilizar a sala daquele benevolente casal, pelo olhar da minha estimada patroa achei que estava ciente do verdadeiro motivo pelo qual teria que voltar a ocupar as maravilhosas acomodações que dispunha para suas meninas – como nos chamava. Hoje não tenho tanta certeza. Não sei se ela (esqueci seu nome) teve coragem de dizer o que realmente acontecia durante todas as noites na sua casa ou tenha contado uma versão onde eximia o marido de qualquer responsabilidade ou simplesmente disse que não nos queria mais porque nós deixávamos sua sala com aspecto ruim. A versão que ouvimos era que iriam receber visitas, que até onde lembro nunca chegaram.

Estralhamente enquanto escrevia,  lembrei da sensação que tinha quando a sua mão firme tocava em mim e por mais que o tempo tenha passado, eu não consigo saber o que sinto por aquele homem que, por alguns minutos fazia eu sentir um misto de desejo e repulsa, enquanto eu dormia.

27/11/2.024

Os ossos do meu avô 

Por: Josaine Airoldi

Meu pai sempre fala com muito apreço do meu avô. Eram cúmplices. Sente muito por não ter conseguido acatar o seu último pedido: retirá-lo do hospital, pois queria morrer em casa, mas os médicos não permitiram. 

A única lembrança que tenho dele são seus ossos e restos de roupas que aos poucos foram retirados pelo meu pai e pelo tio Chico e colocados numa caixa de papelão para que o desejo da vovó Carola fosse cumprido: ser colocada junto ao marido, depois de realizados todos os ritos católicos.

Naquela época, com 10 anos e o prazer de reencontrar as primas e primos, assistir a essa cena não pareceu algo assombroso.

Além do que para mim o motivo principal de – praticamente toda a família – que diga se de passagem é enorme – estar reunida na casa da vovó naquele dia – era o convite feito pela tia Madalena, para que os sobrinhos e sobrinhas com até 7 anos participassem da mesa de inocentes organizada por ela.   

A promessa foi cumprida. Os doces e rosquetes estavam maravilhosos como sempre.

Em certo momento, estávamos correndo quando, de repente, ficamos extasiadas no meio da rua – eu, minha irmã e algumas primas – olhando o táxi vermelho que passa levantando poeira vermelha, que para diante da casa da vovó, então saí uma mulher alta com uma cabeleira esvoaçante vermelha. 

Era tia Maria – aquela que morava em Brasília desde sempre e só veio para o enterro e voltou logo em seguida.  Não sei dizer como era o rosto dela.

Também não me lembro do que mais aconteceu naquele velório tão diferenciado, mas guardei para sempre a cena dos ossos do meu avô.

01/02/2.020

Carta para mim 

        Por: Josaine Airoldi

Enfim, cinquenta anos.

Admito que eu cometi muitos erros, mas acho que o mais grave foi não ter cuidado de mim: me ver refletida no espelho é cruel.  Não é fácil ficar frente a frente com essa minha versão atualizada. As rugas me mostram o quanto deveria ter cuidado da minha pele enquanto era jovem. Os inúmeros fios de cabelos embranquecidos, me dizem que tenho que encontrar tempo para me cuidar. As unhas com esmalte descascando me mostram o quanto deixei de me importar comigo.

Além de muitíssimas mágoas – eu juro que estou tentando apagá-las – e várias  dívidas feitas em meu nome sem o meu conhecimento, uma filha linda, que precisa de uma mãe com equilíbrio emocional para criá-la foi o que ficou do meu casamento.

Tudo que planejei não será mais possível. É necessário rever a rota. Segurar com força o leme dessa nave incandescente que é a minha vida. Sim. Eu tenho que rever meu percurso.

Logo eu, que sinto a necessidade do previsível, que nunca quis ser diferente, que nunca quis chamar a atenção.

Logo eu que sempre escondi minhas dores, que sempre me senti  responsável por tudo sempre…  

Logo eu que preciso do aconchego, que preciso me sentir protegida.

Logo eu que preciso da sensação de calmaria. 

Logo eu que sempre me alimentei da possibilidade de um dia ter um pouco de atenção.

Logo eu que  sou tão o que querem que eu seja, sempre me moldando para caber num lugar que não é meu e como recompensa me contento com míseras migalhas de afeto. De repente, me vejo sozinha, numa solidão absurda, numa casa que não tem nada de minha.

Eu sinto que não construí nada, apesar de ter muitas coisas. Na estante da sala tem a mãe e a professora. Onde estarão as outras “eu”? Elas existem? Por que não estão representadas em lugar nenhum?

Como disse Rita Lee: mulher é um bicho estranho, todo mês sangra. Acho que de uma forma ou de outra todas nós somos estranhas e, às vezes, sagramos.

15/04/ 2.024

Aconteceu no Obelix 

Por: Josaine Airoldi

Numa certa madrugada fria de primavera…

Show acontecendo agendado com muita antecedência.

Tudo transcorrendo dentro da normalidade…

De repente…

– Fechem imediatamente esse bar – um deles diz em alto e bom som – está faltando o alvará.

A música para. Trazem um documento, afinal eles são a lei.

-.Como assim? – Uns perguntam – observando incrédulos o que está acontecendo.

Outros estão em outra vibe, continuam bebendo, fumando, conversando…

Há aqueles que se manifestam a favor dos meninos que estão apenas trazendo um pouco de vida cultural a Imbé.

O caos está instaurado.

Um cliente sobe no palco.

Profere duras palavras contra os que acham que estão munidos de razão.

Vendo a cena, um dos homens da lei também quer fazer uso da palavra.

Tenta – à força – tomar o microfone. Não consegue. Afinal, ali, é um espaço democrático, mas nem tanto.

Alguém comenta que há 4 viaturas na rua.

Outro observa que – no meio da escuridão – há uma mulher dentro de um dos carros, que não pertence a nenhum dos dois segmentos, atenta a tudo.

Mostram-se todos os documentos expedidos por todos os órgãos competentes, conforme exigido.

Não querem olhar.

Estão lá para cumprirem uma ordem.

É o que irão fazer.

Não interessa a eles nenhum argumento e nem nada que indique que tal arbitrariedade não será aceita.

Apesar disso, um deles confidencia que há exageros, mas…

Uma cliente passa mal.

O marido pede ajuda.

Uma desconhecida a socorre.

Tentam sair.

São barrados: precisam provar que pagaram. O homem explica, então, que alguém está fazendo isso. Tinham ido conhecer o bar com um casal de amigos. Estavam esperando o lanche e curtindo a boa música quando tudo começou…

O clima fica cada vez mais tenso.

Um cliente é preso: desacato.

O representante da lei e da ordem não tolera desaforos, ainda mais de quem o impediu de dar seu depoimento sobre o ocorrido no palco.

Aos poucos os clientes vão embora, reclamando do absurdo que está acontecendo.

Frank Jorge, promete voltar em outra ocasião, uma vez que não pode concluir sua apresentação.

O dia está amanhecendo, há muito a ser feito…

As portas se fecham, enfim.

Sobre eles

Josaine Airoldi

Ele era um adolescente e ela uma mulher de 20 e poucos anos.

Achava-o muito atrevido para a pouca idade que tinha.

Lembra dele com olhar determinado em conseguir o que queria, levemente escondido sob a aba do boné.

Depois de quase 30 anos, o destino resolve brincar com eles.

Ele, agora homem feito, se vê sozinho e com imensa vontade de mudar a rota da sua vida, já que o caminho que percorreu até aquele momento não serve mais, a procura. 

Vai tateando bem devagar o percurso, não tem nenhuma ideia de como vai reagir a sua busca por ela. Sabe pouquíssimas coisas a seu respeito, mas como sempre, não desiste.

Ela fica intrigada com o contato, mas como é impulsiva e meio distraída aceita conversar com ele virtualmente. Fica sabendo o que aconteceu na sua vida em poucos minutos. 

A imagem que tem dele – menino –  se confunde com o relato sobre como está atualmente. 

Fica impressionada em como amadureceu e no que se tornou. Confessa para si que não dava nada por ele.

Surpreendentemente, faz bem a ela conversar com ele, mesmo que através de mensagens.

Ela comenta com algumas pessoas sobre esse reencontro. Ninguém o conheceu naquela época, talvez por isso ninguém diz nada relevante. Quando muito tem alguma recordação do irmão dele, com quem ela namorava naquela época.

Final de ano, a vida segue em ritmo alucinante,  mil coisas para fazer. 

De repente, férias….

Num sábado de carnaval. Está sozinha em casa. O sol sob a varanda a convida para ir para a rua. Ler o livro deixa de ser prioridade, porque o pensamento está em saber mais sobre ele.

Ficam sabendo um pouco mais a respeito um do outro, vão percebendo que têm  várias  coisas em comum. 

Combinam de se encontrar para verificarem se realmente há algo real ou é só  carência afetiva. 

Uma sucessão de impossibilidades surge. Ora é ela que não pode, ora é ele que não consegue ir. 

Numa tarde ensolarada de um domingo qualquer ficam, finalmente, um de frente para o outro.

O que aconteceu depois?

Pois é! Não sei. 

Pode ser que perceberam que era melhor continuar apenas como amigos virtuais.

Talvez houve um encantamento de almas, coisa que acontece raramente e ficaram juntos para todo o sempre.

Ou quando se encontraram, conversaram e notaram que não tinham nada em comum e decidiram que o melhor era seguir a vida como se nada tivesse acontecido.

De repente, há outra possibilidade. Afinal, o destino, às vezes, gosta de brincar e nem sempre o acaso protege quem está distraído.

20/03/2.024