Para A.

Por: Josaine Airoldi

Preciso encerrar a nossa história se é que posso assim chamá-la. Essas foram as primeiras palavras que escrevi, na ânsia de não desistir do que estou prestes a fazer.

Preciso ter esta conversa contigo e tem que ser agora, pois estou há 24 anos nessa tentativa. Ironicamente, essa era a idade que eu tinha quando te conheci.

O coração continua disparado. As ideias ainda estão meio desconectadas, mas espero que ao longo do texto consiga me acalmar e organizá-las melhor.

O que traz profunda tristeza é a lembrança que guardo de ti entrando naquela igreja,  pois tinha lhe dito que não me sentia bem nesses lugar. Não sei porque isso foi pior do que qualquer coisa que aconteceu naquele domingo de janeiro. Também foi essa lembrança que me impede, até hoje de procurá-lo.

Está sendo mais difícil do que pensei, mas tenho que seguir…

Naquela época eu me encantei por ti, no instante que me puxou pela mão para dançarmos.

O meu mundo, aos poucos, passou a ser os pouquíssimos momentos que ficávamos juntos. Só queria ficar contigo, sob qualquer circunstância. Não tinha noção do quanto gostava de ti até aquele dia que brigamos, pela primeira e única vez.

Eu compreendi, com o passar dos anos, que procurou em mim “por porto seguro”, e sinto muito  por não ter conseguido ser o que esperava.

Eu me perdi, num emaranhado de sensações que nunca tinha sentido. Nunca tinha me apaixonado antes. Não sabia o quanto pode doer gostar de quem não gosta de mim.

Seguimos caminhos diferentes. Hoje, tenho plena certeza que não daria certo, mas eu preciso encerrar esse ciclo.

Eu te amei. Muito. Intensamente.

Mandou-me embora da maneira mais cruel que pode. 

Tive que ir. Chorei… Chorei muito… Chorei intensamente…

O tempo passou, embora não devesse, ainda penso em ti. 

O que fazer?

Até hoje eu não sei.

09/10/2.022

P.S. Hoje tive um insight se A. – supostamente – me procurasse pedindo para termos uma vida em comum como eu sempre quis, eu não aceitaria. Simplesmente, porque o mundo dele é muito pequeno para mim, na verdade sempre foi, mas só consegui entender isso agora. Finalmente eu consegui o que tanto desejava: fechei esse ciclo, só demorou um pouquinho.

22/07/2.025

Eu me perdoo 

Por: Josaine Airoldi

Eu me perdoo por ter te deixado eu acreditar que sou louca. 

Eu me perdoo por tudo que fez comigo, eu confiei em ti.

Eu me perdoo por estar tão perdida que, às vezes,  não sei onde estou.

Eu me perdoo por não saber o que é real e o que é invenção da minha mente, tão perturbada e confusa que estou.  

Eu me perdoo por achar que a responsabilidade de todo o desastre, que está sendo a minha vida, seja responsabilidade pura e simplesmente minha.

Eu me perdoo por, ao não saber que rumo tomar, não seguir rumo nenhum. Afinal o caminho que conheço e percorri até aqui não tem nenhuma verdade. Tudo o que eu tenho como real estou vendo desmoronar a cada dia. E agora tenho só escombros para onde olho.

Não dá para voltar ao começo. 

Não sei como faço para seguir.

Tudo está destruído. 

Nunca fui forte.

Nunca quis ser forte.

Não sei como ser forte.

Só quero que esse tormento acabe.

Eu preciso me perdoar, pois estou juntando os pedacinhos de mim, para me reconstruir.

Eu me perdoo por tudo isso e por tudo que possivelmente está por vir.

16/11/2.022

Começo do fim

Por: Josaine Airoldi

Meu mundo caiu / E me fez ficar assim / Você conseguiu / E agora diz que tem pena de mim… – cantou Maisa certa vez.

Só te peço que não traia a minha confiança – disse Frida Kalo – no filme.

Ela? Só queria uma vida pequena burguesa: mais ou menos igual ao que Raul Seixas descreveu neste trecho: “…aos domingos dar bananas aos macacos no zoológico…”

Quando se conheceram ela tinha uma profissão, um carro  e quase uma casa própria. Trinta e um anos e muitas desilusões amorosas. 

Ele estava em início de carreira, não tinha carro e morava com os pais. Tinha 25 anos e a convicção que casar com ela era o que queria. 

Ela acreditou que não tinha como dar errado: tinham a mesma profissão – os mesmos desafios e perspectivas – tinham sonhos e planos em comum, gostavam de muitas coisas em comum…

Ele deu a ela a ideia de pertencimento: no caso a inseriu ao grupo de amigos dele. Tinham finais de semana bem divertidos e tudo que faziam juntos parecia bom..

Então, achou que era válido fazer algumas concessões, afinal eram importantes para a manutenção da relação deles.

Aos poucos foi descobrindo que mentia, quase sempre eram coisas banais, que eram descobertas sempre da pior maneira possível: por acaso. 

Sempre afirmava que perderia a confiança nele e que no dia que isso acontecesse, seria um caminho sem volta, que por mais que a verdade fosse difícil, era o que queria.

Ele não compreendia e continuava a fazer as coisas escondido. Deixava sempre muitas pistas para ser descoberto. Era como se necessitasse do desgaste emocional dela para sobreviver. 

Nesses momentos, tinha aprendido, que era só deixar ela falar, chorar, xingar e fazer planos que iria tomar as rédeas de sua vida… 

Breve tudo voltaria à rotina de antes. Era  sempre questão de tempo, pois assim estavam por 18 anos. Viviam uma vida segunda via – como ela dizia.

Como tudo sempre tem a gota d’água que faz a água do copo transbordar… No caso foi a casca do ovo na lixeira errada. Nesse dia, como nos outros era necessária a pergunta cuja resposta já sabia.

Como sempre há uma sequência de mentiras seguidas de várias outras mentiras para encobrir a primeira, criando um emaranhado de fatos desconexos.

Sem necessidade – ela pensa em desespero.  

 – Fala, logo a verdade! – Ela gritava.

– Eu sei que não foi assim que aconteceu.  – Novamente ela implorava na tentativa vã de descobrir que estava enganada. Talvez estivesse realmente enlouquecendo, mas não. Não estava enganada: havia algo muito errado. 

Em alguns momentos a realidade a chamava: é preciso aproveitar o sol para que as roupas sequem… 

Sabia que não podia se dar ao luxo de ser totalmente impulsiva, conhecia os danos que a sua impulsividade causava.

Quando se acalmava era pior, a verdade,  aquela que sempre desejou, se descortinava  na sua mente. 

Às vezes, se surpreendia com a capacidade de dedução que possuía ser avassaladora  – tanto quanto a incapacidade de estabelecer limites. 

Aos prantos e com o coração se dilacerando foi percebendo seu mundo  desmoronando, como tinha acontecido em várias outras vezes. Só que desta vez seguiu a sugestão que sempre dava e concordou que era melhor ele ir para a casa da mãe.

Foi percebendo o quanto a relação deles era parecida com a de seus pais, sem a ressalva de não ter tido condições de poder mudar o curso e ter vivido de outra forma. 

O que ela mais desejava era construir uma outra história: a deles – sempre dizia a ele. 

Como construir uma vida juntos se…

Ele precisa do caos.

Ela da calmaria.

Por mais que se encontravam em alguns momentos, para ela não bastava. 

Era o começo do fim.

Ele só entenderia o que ela dizia no momento que percebesse por si só, embora pudesse ser tarde demais. 

Sem ter mais nenhuma certeza, fechou os olhos e deixou o tempo passar…

17/10/2.022    

Tudo fica melhor à beira-mar

Por: Josaine Airoldi

Terça-feira ensolarada.

Contemplo as minhas ilusões indo embora com as ondas do mar.

As férias estão acabando…

Não quero fazer planos que sei que não vou cumprir. Serão abortados no início como todos os outros.

Olho a linha do horizonte: o infinito, realmente existe.

Pode-se ser feliz com tão pouco.

Basta uma tarde à beira-mar.

Ah! como é bom morar aqui.

A brisa leve toca a minha pele fazendo eu lembrar que ela se faz presente nesse momento.

Penso em retomar a terapia. É complicado ser eu. Sempre foi.

As palavras do meu psiquiatra terapeuta ecoam na minha mente:

– Sempre estarei aqui para te acolher.

Ele sabe o quanto gosto dessa ideia.

Estou sentindo, talvez dessa vez mais forte que as outras vezes, a necessidade de ter uma vida organizada.

O que para quem tem déficit de atenção é extremamente complicado e difícil. Não é só uma questão de querer, como alguns acham. É não conseguir de forma nenhuma, não importa quanto esforço, método e empenho sejam utilizados.

Há a necessidade de medicação, que para obtê-la é preciso a receita… Enfim, voltar à terapia…

“Aquela ideia de tudo se ajeitar  / Não valeu…”  – Chico Buarque se instaura sem nenhuma  permissão na minha mente.

A tarde segue lenta sem nenhum percalço. Começo a sentir o efeito do álcool… Tudo está ficando mais lento e confuso.

É preciso manter o mínimo de lucidez.

Talvez a água do mar não esteja tão gelada assim…

08/02/2.022

Tatuagem

Por: Josaine Airoldi

Eu gosto de ocupar espaços.

Gosto de flutuar por aí.

Sou e me sinto leve.

Não me importava em ser obesa.

Quem se importava eram os outros.

Nos tempos de escola sofri bullying.

Tive transtorno alimentar.

Depressão.

Emagreci.

Cada tatuagem conta uma história…

Esta: as oliveiras têm muito significado para mim.

Estão relacionadas a um momento muito difícil que superei.

Não gosto de amarras.

Sempre me relacionei com mulheres com biotipo fora dos padrões.

No curso de desenho que eu fiz, aprende-se a desenhar o corpo humano – aquele considerado por muitos como perfeito – a partir de esboços maiores ou menores de retângulos, quadrados, círculos…  

Ouvi-la faz bem: sua voz é aveludada.

Seu olhar é doce e encantador.

Alguém chega…

Interrompe a conversa.

25/11/2.021

Para que querer saber?

Por: Josaine Airoldi

Domingo com sol.

Eu só penso em não sentir frio…

Além de, querer não sentir esta angústia…

Percebo o que eu quis, eu tive.

Será que o que eu desejei estava errado?

Às vezes, sinto que sei o caminho, mas não quero segui-lo.

Para que remexer no passado?

Para que querer saber o que não é necessário?

Lembro-me que é preciso comprar: margarina, papel higiênico, sabão em pó…

Não há mais tempo para desvaneios…

Não há tempo para escrever…

Não há tempo para mim…

Enfim, é a vida tentando seguir seu curso normal…

12/06/2.022

Com que roupa eu vou?

Por: Josaine Airoldi

Com que roupa eu vou? 

Além de ser o título de um samba, é também uma das vilãs da minha existência. Nunca sei como me vestir.

Às vezes, faço uma limpeza no guarda-roupa: retiro tudo que eu acho que não faz parte da minha nova versão. Momentaneamente, tenho uma sensação de autocuidado…

Quero escrever sobre a capacidade que tenho para escolher roupas erradas, mas o Nicolas Cage está na televisão. 

O filme eu já vi é muito bom, apesar de ser impactante: Oito milímetros

Com que roupa eu vou? 

Não sei. O Nick tomou por completo a minha atenção. Além disso, o  frio congelante impede minha vontade de fazer qualquer outra coisa.

Continuo escrevendo enquanto o filme se desenrola na tela da televisão, pois preciso aprisionar os meus fantasmas reprimidos.

Eu tenho essa dificuldade.

Qual?

Entendo então que são duas: escolher a roupa adequada e permanecer por longo tempo realizando a mesma atividade.

Ah! Com que roupa eu vou? Não sei. O importante é que Nicolas Cage aqueceu minha tarde fria e solitária de sábado.

21/07/2.010

Brincadeira de criança

Por: Josaine Airoldi

Estávamos conversando sobre frivolidades e saboreando um excelente vinho tinto, quando ela começou a falar sobre uma prima distante.

Ela era extremamente competitiva e, às vezes, chegava a ser chata. 

Sempre quis ser a melhor em tudo. 

Não suportava aquilo que não conseguia compreender ou desvendar.

As brincadeiras tinham que ser as que conhecia. 

Para mim ela fazia parte de outra realidade e era para ser prazerosa nossa convivência e não uma eterna competição e chateação.

Tudo tinha que ser do seu jeito, senão não participava das brincadeiras. Como morávamos longe e nos víamos em certos momentos a suportava.

Quando não conseguíamos ou não gostávamos do que propunha logo nos desinteressamos, mas para ela era questão de honra e como contava com o apoio da irmã continuava com a brincadeira como se nada tivesse acontecido.       

Eu me dava melhor com uma das irmãs dela com a qual sempre convivi tranquilamente.

Quando não estava com ela gostava de jogar futebol com meu pai e os três primos. 

Era o momento em que demonstravam que a personalidade do pai não tinha determinado totalmente a deles. 

Eram iguais aos demais meninos que eu conhecia.

Era a que mais recebia atenção do meu pai que acho que a acolhia e a todos os sobrinhos por sentir o quanto o irmão era seco com os filhos. 

Sempre que a visitávamos, meu pai fazia questão de parar num mercadinho próximo a casa deles e comprar balas para os sobrinhos e escolher o melhor e mais bonito pão d’água de quarto quilo (expressão bastante comum na época) para presenteá-la. 

Ela recebia aquele embrulho com os olhos brilhando e agradecidos. 

Aquele pão representava o afago que seu pai nunca lhe dava ou nunca lhe deu, apesar de ser a filha caçula e ser a preferida dos seis filhos.

Eram bons aqueles momentos na casa dos tios. 

O almoço ou o jantar, apesar da austeridade imposta pelo meu tio, era uma ocasião especial por causa do sabor dos pratos que degustávamos: a galinha caipira com bastante molho, a polenta que só a minha tia sabia fazer, a massa caseira, café fumegante, o pão caseiro. Tudo preparado no fogão à lenha. 

Ganhávamos “ovos” que nós, eu e minha irmã comíamos rapidamente sem se preocupar com a película que os envolviam, enquanto elas tentavam retirá-los.

Ela sempre implicava com a minha irmã apesar de não ter noção de que sentimento era aquele que exalava por seus poros, sabia que a fixação para que a minha irmã tivesse resultados ruins na escola era exagerada.

Hoje sei o nome disso: inveja.

Era inveja do amor e carinho que tínhamos do meu pai.

Era inveja da maneira como seus irmãos a tratavam: como uma bonequinha.

Era inveja de um amor que nunca recebeu.

Certa vez quase enlouqueceu quando não conseguia decifrar o código que tínhamos para descobrir qual era a palavra combinada numa brincadeira banal de adolescentes. 

Nos fez repeti-la várias vezes. 

Ah! Como me diverti vendo sua expressão de angústia e nos acusando de não revelar que havia descoberto o segredo apesar de já ter adivinhado. 

A brincadeira para mim era quase uma revanche, por todas aquelas brincadeiras tolas que realizei para agradá-la ou para não desagradá-la durante anos.

O vinho acaba, mas continuamos a conversa, afinal as recordações boas ou ruins, não.

16/10/2.010

Meu primeiro amor

Por: Josaine Airoldi

Tudo começou quando a Nane me impôs que eu tinha que escolher algum menino para gostar. Eu não gostava de nenhum menino, talvez por ter apenas dez anos, mas como nunca gostei de ser a “diferente,” comecei a observar os colegas de turma, afinal para ser meu primeiro amor, não poderia ter nada que de alguma forma me desagradassse.

Lembro que…

Leandro: andava de maneira desengonçada, era muito chato e metido a sabichão.

Gilmar – o Batatinha –  acho que o apelido era em referência ao personagem do desenho animado: Manda Chuva – era muito baixinho.

Jair: muito alto, feio e muito mais velho que eu. 

Luciano: bastante mal educado.

Genésio: sem graça e repetente.

Jerônimo: muito extrovertido. 

Hélio: vivia ficando de castigo por ser mal-comportado.  

Quando estava quase desistindo comecei a reparar nele. Era: franzino – mas tinha minha altura – era loiro, os olhos eram castanhos, bom aluno e educado com os colegas… Tinha que ser … Adriano..

Anunciei em alto e bom som para a Nane e para a Eliane que tinha escolhido um menino para gostar, mas não diria o nome, morreria de vergonha, se ele soubesse. Na verdade eu tinha medo que alguma delas contasse para a minha mãe, por isso embora, todos os dias insistiam em saber, eu nada dizia.

Qual não foi meu encantamento ao ler o seu nome de amigo secreto. Minha avó providenciou o que eu daria. Estava radiante até constatar que teria que entregar um talco Pompom para o menino dos meus sonhos, mas na falta de outra alternativa, entreguei o presente sem olhar a sua reação.

Meu mundo caiu mesmo tempos depois quando chegou na festa junina de braços dados com a Hélia – irmã gêmea do Hélio – de um lado e a Geni do outro. Vendo os três alegres e sorridentes, subitamente comecei a me sentir cada vez mais estranha dentro daquele vestido enorme para meu tamanho e a ausência de saia de armação ficou mais evidente.

Não aguentei a humilhação e fui embora.

Adriano não tinha como saber que tinha saber … – eu pensava – enquanto enxugava as lágrimas que teimavam em cair.

04/02/2.020

P.S. Ao longo dos anos Adriano foi minha referência de par ideal – esbarrei com alguns parecidos com ele – mas casei com um “sapo” e em 17 anos de convivência se mostrou que nunca deixaria de apenas um “sapo”. Atualmente, estou muito bem na minha própria companhia.

30/10/2.025