Não era sobre isso que queria falar…

Por: Josaine Airoldi

Às vezes, basta tentar um caminho ainda não percorrido.

Estou há dias tentando concluir um curso on-line e não consigo. Já fiz quase tudo e não consigo receber a resposta: 100% concluído.

Por falta de atenção, talvez, ou por má-vontade eu abri páginas em excesso e não consigo fechá-las. Não quero pedir ajuda.

Tenho vergonha de explicar para algum desconhecido que eu abri oito páginas indevidamente, ou seja, eu consegui repetir o mesmo erro por oito vezes.

Eis, então, que sigo a ordem dos fatores e qual não foi minha surpresa: eureca!

Consegui.

Tão simples.

Oh! Não, faltou luz!

Continuo tateando as teclas, mesmo no escuro, preciso aproveitar que estou inspirada para escrever.

Afinal, para alguma coisa tem que servir ter morado tantos anos em um lugar sem luz elétrica.

Minha mãe dizia que eu era teimosa igual a porco de cangalha.

Cangalha eram três pedaços de paus amarrados com arame em forma de triângulo que eram colocados nos porcos para que estes não fugissem do cercados onde ficavam. Mesmo assim sempre tinham os que não se intimidavam com tal artifício e tentavam sair, ficando presos… Afinal, era para isso que as cangalhas serviam…

Tem momento que me sinto assim: teimo em algo que, apesar de perceber que não está certo, eu continuo…

Não consigo parar ou consigo e opto por prosseguir… É como se a insistência fizesse tudo se resolver.

Claro, posso culpar o déficit de atenção, que faz um estrago em qualquer vida por aí, se não tratá-lo corretamente…

Ai se alguém segura o leme / Dessa nave incandescente… – dizem Kleiton e Kledir na minha mente, que já se desviou do que estava fazendo…

27/04/2.020

Ela

Por: Josaine Airoldi

Ela era sempre indiferente à minha admiração, embora linda e perfeita. Todos os dias eu ia visitá-la. Ela era inacessível para mim

Percebi isso quando me dei conta que o seu valor era dez vezes o que eu tinha entendido, ou seja  não eram R$ 14,50 e sim R$ 145,00 – se fosse nos dias de hoje. 

Pior de não poder tê-la, foi vê-la ser de outra criança, que nem mesmo a desejou como eu.

Os adultos podem ser cruéis de vez em quando: de todas as bonecas existentes na loja tinha que escolher a única que desejei, mesmo nunca tendo ficado sabendo disso.

Tudo bem que a criança em questão era sua neta e eu apenas a filha da sobrinha do marido, que estava passando uns dias de férias em sua casa.

Ela ficou para sempre entre as coisas que sempre desejei e nunca tive.

25/12/2.020

Qual é o significado?

Por: Josaine Airoldi

… E quando vejo o mar há algo que diz que a vida continua e se entregar é uma bobagem… – escreveu certa vez Renato Russo.

Depressão é coisa séria.

Quando me sentia muito mal costumava ir para praia apreciar o incansável ir e vir das ondas.

Às vezes, tinha vontade de entrar mar adentro, mas a ideia de perceber que estava num caminho sem volta fez com que eu não concretizasse esse desejo, se é que seria um desejo.

Meu psiquiatra me diz que desejos como esses têm relação com a vida uterina.

Quero saber mais sobre isso. Ele me pergunta se nunca tinha lido sobre isso?

Respondo que não, então, me manda pesquisar na internet. Ora se fosse para pesquisar no Google eu não estaria ali, tentando entender o que me diz.

Ele me explica novamente que desejos suicidas de maneiras muito trágicas como: atropelamento ou afogamento tem haver com a vida uterina.

Saio do consultório sem entender a relação. Pesquiso sobre o assunto e encontro a mesma explicação.

Enfim, depressão é coisa muito séria e quase sempre tem relação com insatisfações profundas, que emergem do subconsciente devastando a vida no presente.

02/02/2.020

Zé Gralha

Por: Josaine Airoldi

– Meu nome é José Oliveira – Essa é uma das frases que sempre dizia.

Ainda mais quando descobriu que chamávamos de Zé Gralha. Não me recordo o que motivou  tal acunha. Sei que não gostou nem um pouco. Zé Gralha era um homem muito bonito, mas a cachaça – raramente ficava sóbrio –  e o excesso de exposição ao sol envelheceram ele antes do tempo.

Certa vez, depois de um longo período ausente reapareceu.

Estava vivo para nosso espanto. Ríamos muito, lembrando que havia sido encomendado uma missa em homenagem a sua memória.

O fato é que havia recebido uma indenização generosa por ter sido atropelado enquanto vagava solitário por uma estrada qualquer.

Mesmo assim retornou – como sempre precisava de um lugar para ficar por um tempo.

Um dia foi embora e nunca mais voltou…

 06/11/2.021

Amigas para sempre?

Por: Josaine Airoldi

Esperteza ou inteligência.

Eu, a inteligente.

Ela, a esperta. 

Quem tem mais chances na vida adulta?

Eu sempre achei que fosse a esperteza, pois se tem ou não tem. Não é algo que se adquire estudando.

Mesmo assim, para mim, gostar de estudar era a única coisa que me tornava superior a  ela. 

Ouvi certa vez após, relatar esse pensamento a um amigo na sala dos professores:

– Quem é ela atualmente?

Não soube responder,  mas subitamente lembrei-me de uma conversa que tivemos  numa sala de espera de um consultório:

– Tenho um filho de sete anos.

Combinamos que eu seria a madrinha de seu primeiro filho ou filha – enquanto ela batizava minha boneca.

– Eu não casei. Não tenho filhos… Fiz faculdade…

Parece que é uma obrigação: nascer…. Crescer… Casar…  Procriar… e Morrer…

– Moramos com a mãe.

De todos os filhos e filhas, a única que ficou cuidando da mãe foi ela que sempre soube que embora tivesse sido acolhida – por aquela família – não era bem-vinda.

– Continuamos morando todos juntos.

– Lembra daquele dia de chuva.

– Lembro sim.  

Até hoje me pergunto – o poderia ter sido diferente se tivéssemos esperado alguém nos vir buscar. – pensei, mas não falei; com certeza não entenderia. 

– E as gurias e teu pai?

– Estão bem.

-Tem que aparecer lá em casa para colocarmos a conversa em dia.

– Qualquer dia eu vou.

– Faz tempo que a tua mãe se foi.

– Faz sim. 

Os médicos nunca souberam dizer qual foi a causa, escreveram simplesmente: falência múltipla dos órgãos… –  estava me preparando para dar essa explicação, mas não perguntou.  

– Está demorando…

– É!

Não fomos amigas para sempre…

Nós nos perdemos? 

Não, seguimos caminhos óbvios.

Eu segui estudando.

Ela continuou fazendo o que sempre fez de melhor desde criança: limpar e organizar a casa dos outros.

Noto o quanto é feliz na simplicidade de saber viver bem com o que tem.

Realmente, a sua esperteza sempre me incomodou.

– É sua vez. – diz a recepcionista sorrindo.

30/06/2.010

Uma história puxa outra:

https://lembrarparanaoesquecerinfo.data.blog/2020/05/13/os-tiradores-de-sangue/

A descoberta da inocência

Por: Josaine Airoldi

– Quer ficar no meu lugar? O trabalho é simples. O lugar é pequeno. Não há muito a ser feito.

– Quero sim! 

Cheguei explicando…

– Minha prima me mandou.

– Ótimo! – respondeu entusiasmado. 

– Posso começar amanhã mesmo à tarde. Estudo pela manhã – respondi esperançosa, era uma ótima oportunidade para uma garota de 17 anos.

Rapidamente me mostrou tudo e explicou as minhas atribuições.

Se ateve numa recomendação:

– Isso é importante: anotar aqui tudo o que não tivermos, caso alguém procure.

Olhei o papel ao lado do caixa e pensei: isso é fácil.

No outro dia, me deu as boas vindas e saiu dizendo que voltaria logo em seguida, o que não aconteceu nem naquele dia nem nos demais.

Voltando quis saber:

– Tudo bem por aqui. 

– Tudo! – respondi sorrindo, tentando demonstrar tranquilidade.

– Algum medicamento a ser encomendado?

– Está anotado.

Olhando minhas anotações…

– Esse eu preciso encomendar. 

– Esse não, porque nós temos.

Depois que me recuperei do susto – pois não poderia demonstrar incompetência – respondi:

– Eu procurei em todos os setores: nos comprimidos, nos injetáveis,… E nada.

– Não procurou aqui nesse balcão.

Olhei aparvalhada.

– Eu nunca achei que procurasse esse produto pela marca…

O fato é que nenhuma figura de linguagem foi capaz de fazer com que ele não percebesse que eu não sabia o que era Jontex.

05/01/2.010

Aquele olhar

Por: Josaine Airoldi

Não sei se me viu, eu desviei os olhos rapidamente. 

Talvez por ele. Talvez por mim. Talvez por nós.

Certa vez, ao percebê-lo finalmente, deixei-o entrar na minha vida, porém  ao olhá-lo com profundidade, vi o que não desejava, e não o quis mais.

Não aceitou e reagiu da pior maneira. O que eu fiz?

Procurei me afastar cada vez mais. 

Fiquei sabendo – depois – pela tia que o socorreu – que não tinha sido a primeira vez que era internado, por causa da dependência de álcool.

Disse, também, que não tinha culpa pelo comportamento auto-destrutivo do sobrinho.

Agradeci e procurei pensar em outra coisa naquele dia.

Embora, até hoje, eu saiba que não tinha o  direito de deixá-lo achar que poderíamos dar certo juntos.

Mas aquele olhar…

 02/07/2.010

Apenas escrevo…

Por: Josaine Airoldi

É tarde.

Está extremamente frio.

É sábado.

Estou sozinha em casa.

A televisão não me satisfaz.

Não consigo dormir.

A leitura de qualquer livro não me atraí.

Então o que faço?

Escrevo sem parar.

Começa a chover.

Continuo a escrever para preencher um vazio inexplicável que me assola e me invade.

Enquanto procuro um motivo para escrever, vou vivendo…

Escrevo para esquecer de lembrar.

Apenas escrevo…

17/10/2.021

O coitadinho

Por: Josaine Airoldi

Eles foram morar conosco: minha mãe, meu pai, minhas irmãs, minhas tias, avós, por certo tempo, quando a mãe dele ficou doente e os outros filhos estavam criados e moravam em Porto Alegre. 

Ele era terrível.  Estava sempre fazendo o que não devia, na opinião dos adultos. Para mâe, ele era sempre o coitadinho.  Ela o protegia, por mais que aprontasse, e ele me protegia. Eu o adorava por isso.

Lembro da vez que minha irmã do meio não se adaptou de jeito nenhum à escola e voltava para casa dizendo que não havia aula. Então, era comum eu ter que levá-la novamente. Ele sempre se prontificava para fazer isso no meu lugar, mas tinha que ser na bicicleta da minha tia. O que irritava profundamente a minha avó, que apesar disso emprestava, após muitas recomendações.

Eu adorava ficar na sua companhia, não interessava fazendo o quê.

Certa quarta–feira chuvosa; recolhemos tudo que era possível interessar ao dono do Ferro Velho, colocamos numa carroça e ele vendeu. Meu pai quase enlouqueceu quando descobriu a limpeza que nós realizamos no pátio de casa, mas só ele foi responsabilizado. Esse é um dos dias que guardo com mais carinho. Ainda posso sentir os pingos de chuva sob a minha pele e alegria de ter podido retribuir tudo o que fazia por mim.

Era comum, também, me ajudar a cuidar da minha irmã caçula. Ele a enrolava com todo o cuidado, colocava-a no carrinho e a embalava até que dormisse e podíamos completar juntos a revistinha: Coquetel.

Apesar de termos quase a mesma idade, estranhamente me sentia protegida, sempre quando estava por perto.

Quando adolescente encantava as meninas da escola, e a mim também, embora nunca soube disso…

16/10/2.010