Com carinho e afeto

Por: Josaine Airoldi

Eu nunca fui escolhida para nenhuma apresentação nos tempos de escola. Nunca tive o perfil predileto das professoras.

Nessa apresentação todos poderiam participar: era para as mães.

Todos compraram um cartão com uma mensagem muito bonita, que eu lia sempre: “Retrato de mãe” – era a história de um viajante que agradecia a sua mãe por tudo o que havia lhe ensinado…

Minha mãe tinha outros planos para aquele dia – me levar pela primeira e única vez para tirar tiririca do brejo – material com o qual fabricava as peças de artesanato. 

Enquanto sacolejava na carroça ia imaginando como estava sendo a apresentação.

Desde então a canção ficou para sempre na memória, atualmente um pouco modificada: “Eu tinha tanto pra lhe falar; mas só com palavras eu não sabia dizer: como era grande o meu amor por ela que se foi cedo demais…”

23/07/2.020

O almoço

Por: Josaine Airoldi

Hoje parece engraçado a história que minha amiga nos conta enquanto saboreamos um delicioso almoço feito por ela, mas na época em que ocorreu o fato não foi – tanto que    percebo o quanto isso ainda a incomoda, apesar das inúmeras risadas que ecoam ao narrar o fato acontecido.

Mesmo sendo crianças, o pai levava-os para a pedreira – trabalho árduo, mas necessário em vista das poucas condições de criá-los como desejava.

Era tudo escasso: alimentação, afeto, inocência…

Certa vez o irmão, que na falta de condições de assumir outra tarefa por ser “doido” – era encarregado de esquentar o almoço, acrescentou umas tábuas recolhidas próximo de onde estavam, para que o fogo não se extinguisse.

De repente, um cheiro forte foi sendo espalhado pelo ar. 

Foi então que perceberam que se tratava de restos de um caixão que estava ardendo em chamas e impregnando a comida e impossibilitando-a para consumo.

Naquele dia as frutas que, pacientemente esperavam para serem colhidas por quem se interessasse por elas, serviram de almoço.

A loucura te exime de um sofrimento que a lucidez não permite

Às vezes, ter consciência pode ser cruel, pois nos faz guardar na memória coisas que não se quer lembrar, que afloram sem consentimento ao ser aguçado por uma situação. 

01/02/2.020

Aquela que corta o bolo

Por: Josaine Airoldi

Aniversário na escola. 

Tem bolo na hora do intervalo, trazido às pressas.

Todos reunidos na sala dos professores na hora do intervalo.

Uns se certificando de quanto ainda restam de seus 15 minutos de descanso.

Outros, meio constrangidos por não saber que havia alguém de aniversário.

Alguns indiferentes a tudo em volta, mas tentando se manter interessados no acontecimento e se possível saborear a iguaria a tempo.  

De repente a pergunta ecoa no ar:

– Eu, cortar o bolo?

Já presenciei por diversas vezes essa situação, embora a contemplada queira fingir surpresa, com a importante missão: cortar o bolo e distribuí-lo aos demais; a pergunta soa mais como uma afirmação.

Há pessoas que se fazem necessárias… 

Elas sempre têm o que comentar em qualquer ocasião. 

Elas sempre estão à vontade em qualquer ambiente. 

Elas estão sempre atentas às necessidades dos demais.

Elas são bem-vindas em todos os grupos, tribos, seitas…

São aquelas que cortam o bolo…

30/06/2.010

Eu …

Por: Josaine Airoldi

Está frio.

Estou novamente sozinha em casa.

Às vezes, gosto desse espaço: físico e mental.

Outras vezes, não.

Sou bicho esquisito.

Sou bicho estranho.

Sou bicho inconstante.

Sou bicho não mutante.

Às vezes, paixão.

Às vezes, solidão.

Sou o que me proponho a ser?

Ora sim, ora não.

A cada manhã me questiono por que eu?

A cada manhã me questiono o que tenho a fazer?

A cada manhã me questiono o que quero realmente?

A cada manhã, novo recomeço ou eterno retrocesso?

28/09/2.010

Conversa de comadres

Josaine Airoldi

Certas feridas permanecem abertas por mais que o tempo passe. 

Ao culpar a tua mãe por todos os seus traumas isenta teu pai de toda responsabilidade.

Nesse eterno duelo entre a mãe má e o pai idolatrado há uma menina forte e determinada que se tornou uma mulher amargurada e fragilizada, que não consegue amar sem concessões, pois foi rejeitada, por todos aqueles que por quem esperava ser acolhida. 

Eu lhe digo isso, após me contar novamente que foi devolvida  pela família adotiva que ao saberem que uma vez registrada como filha teria direito a herança que pertencia aos filhos legítimos.

A família abastada não poderia permitir que tal absurdo acontecesse, uma vez que nem para a realização de serviços domésticos a guria servia, por isso depois de cinco anos sem nunca ter frequentado a escola era devolvida para a família biológica.

A mágoa aumenta ao relatar, outra vez, que o pai se sentiu muito humilhado ao mentir diante do juiz que não a havia dado para adoção e também porque perdeu o prazo para processá-los por tal fato tão cruel. 

A lembrança que tenho do teu pai é de um homem muito bonito, altivo, curioso, que não combinava com aquele ambiente quase agreste,  sem luz elétrica e sem água encanada…

Lembro-me, também que, enquanto ele se aprazia com nossa companhia embaixo de uma figueira frondosa naquele janeiro de sol escaldante a tua mãe: uma senhora de estatura média, rechonchuda, que apesar de estar muito feliz com a visita da filha estava sempre envolvida com alguma tarefa que necessitava ser feita, afinal a vida no campo não é tão simples como se imagina.  

– Já te contei que um dia meu pai quis ir embora. Queria conhecer o mundo e para isso bastava algumas peças de roupas e a gaita que lhe fazia companhia. – Digo que sim, mas ela continua falando.

– Minha mãe disse que ele poderia ir, mas que nunca voltasse, então, permaneceu ali, tendo outros filhos que tiveram que doar por falta de condições de criá-los.

– Todos voltaram conforme, minha mãe sempre dizia que iria acontecer ao nos ver partindo.   

– Eu usei tudo de ruim que aconteceu comigo como mola impulsora para chegar onde eu cheguei.

– Como que eu consegui? 

Sei que vais dizer que estou errada, mas a força e determinação que tens foram herdadas da tua mãe.

Ela finge que não entendeu e continua…

Para ela o importante não é o que eu digo e sim que eu ouça a sua verdade.

Então relata como manipulou uma pessoa muito importante no mundo dos negócios para que fizesse o que ela queria e assim conseguiu resolver o problema que estava incomodando o  alto escalão da empresa. Não estavam conseguindo vender um tipo de seguro oferecido por uma das mais importantes instituições financeiras do país.

– Ganhei muito dinheiro durante o tempo que trabalhei nesse banco.

– Tem coisas que nunca te contei, portanto não fique achando que me conhece.  

Ela fala em tom de revanche, por eu ter dito o que não quer ouvir. 

É justamente por isso que sou tua amiga durante esse tempo todo: sempre digo o penso sem me importar como digo.  

Embora, não consiga compreender ou aceitar, eu sou muito feliz com o que tenho: minha casa,  meu casamento, minha profissão, minha filha que é tua afilhada…

É no meu mundo que consegue desamarrar as amarras sociais que são tão preciosas para te manter no topo como gosta de achar que está. 

É no meu mundo que consegue ser o que realmente é. 

Mantemo-nos amigas por interesse mútuo. 

Eu sou a emoção, tu a razão. 

Uma equilibra a outra quando necessário.

Em vários momentos me fizestes enxergar a realidade, assim como te proporciono momentos de leveza e aconchego.

Afinal, amigas são para isso.

15/01/2021

O tio polícia

Por: Josaine Airoldi

São três irmãos. – Ela me conta.

Foram três bons amigos.  São três histórias que ficaram guardadas com muito carinho.  

Moravam à beira do rio numa casa simples de madeira com a mãe e a avó.

Quando nos encontrávamos na minha casa que também era de madeira e muito simples, mas ficava a beira da rodovia, agiam como se estivessem em outra cidade.   Sempre que passava uma viatura da polícia gritavam:

– Olha lá o tio Polícia!

Quem os ouviam falar tinha a impressão que conheciam toda a incorporação policial. Na verdade eles reconheciam apenas a viatura e por isso deduziram que dentro havia o amigo policial da mãe.

O mais velho era muito desengonçado e muito estranho, por isso eu odiava quando me comparavam a ele.

O mais novo e o mais bonito dos três – era com quem minha irmã iria casar nas brincadeiras que fazíamos.

O do meio cujo nome não sabíamos, sempre o chamávamos pelo apelido, era o que sempre se metia em confusão.

Certa vez minha avó pediu que ele buscasse umas coisas para ela. Ele foi – com má vontade – mas foi.

Embora tenha trazido o que foi solicitado, teve que voltar, porque minha avó não acreditou na história de que tinha sido logrado pelo proprietário. Pegando-o pela mão, se dirigiram ao armazém para constatar o que já sabia: o troco foi entregue corretamente.

Ora, se não estava com o menino e muito menos com o proprietário do armazém onde estaria o dinheiro?

Estava entre a vegetação da estrada em dezenas de pedacinhos que o vento se encarregou de espalhar.

Assim como o dinheiro, a nossa convivência foi se dissipando aos poucos com o passar do tempo, pois cada um tratou de cuidar da sua vida, mas os bons momentos ficaram…

Não há como esquecer dos domingos em que tomávamos porres com vinho misturado com água e açúcar, ou do dia que assistimos ao filme de kung fu sentados amontoados,  mas super contentes por estar dividindo aquele momento. Também ficaram no rol das boas lembranças o quanto eram gostosas as laranjas do céu que íamos colher na chácara onde moravam.

Quando olho a foto em que estamos abraçados em frente à cerca da minha casa sob o frio congelante de agosto, lembro-me o quanto é bom ter tido bons amigos na infância. 

Quando paro de anotar, por uns instantes, para olhá-la e dizer o quanto boas amizades são importantes, percebo que está com os olhos marejados de lágrimas.

Nada a mais a acrescentar…

20/11/2.010

Amanhã é dia de faxina

Por: Josaine Airoldi

Enxaqueca infernal. 

Começou no início da tarde.

Achei que passaria rápido, mas me enganei.

Calor insuportável em pleno mês de julho. 

Não era para estar frio?

Depois de um dia exaustivo, enfim, chego em casa.

Lembro que hoje é dia de reunião partidária aqui em casa – coisas do meu marido.

Olho em volta, está tudo bagunçado.

Estão todos na sala conversando sem parar.

Ninguém se importa com minha presença.

A minha cabeça parece que vai explodir.

Tento dormir.

Levanto.

Acendo a luz.

Ficar quietinha no escuro não resolveu dessa vez.

Não tem jeito, me rendo ao salvador das que sofrem de enxaqueca – o remédio – no meu caso é o Cefaliv.

Começo a escrever sem parar.

A dor?

Continua.

A reunião também.

Amanhã é dia da faxina.

O sono, enfim, chega…

07/07/2.010

Ele e ela

Por: Josaine Airoldi

Ele se foi.

Ela ficou e pela primeira vez – depois de meses sendo corajosa – se permitiu chorar.

Ele se foi.

Ela ficou com a convicção de que tinha feito tudo que era possível para amenizar a sua dor.

Ele se foi

Ela ficou com todos os fantasmas a assombrando.

Ele se foi. 

Ela ficou observando as horas que iam passando e percebeu que não havia tempo para lamentações.

Ele se foi. 

Ela ficou com as últimas palavras dele ecoando na sua mente: por que é tão cruel?

Ele se foi.

Ela ficou e pensou que, talvez, estivesse se referindo ao câncer que se alastrou sem dó nem piedade e persistiu em não abandoná-lo.

Ele se foi.

Ela ficou com a certeza que demonstrou gratidão por tudo que viveram juntos e compaixão pelo seu sofrimento, enquanto planeja o que fazer com todos aqueles equipamentos hospitalares, que estão ocupando a sua sala de estar.

Ele se foi.

Ela ficou com tudo o que restou: lembranças,  remorsos, angústias e incertezas…

Ele se foi.

Ela ficou com a pergunta que ambos faziam, sem obter resposta:  

– Por que comigo?

Ele se foi.

Amanhã será outro dia – ela pensou.

12/01/2.021

Feliz aniversário

Por: Josaine Airoldi

Criança gosta mesmo é de ganhar brinquedo.

Não venha com roupa maior para durar mais, que quando nos serve já está desbotada; ou com dinheiro para se colocar na poupança, o que geralmente não acontecia porque a mãe comprava mais roupas sempre dois ou três números maior do que realmente servia.

Criança quer ganhar brinquedo no dia do seu aniversário, no Natal, no dia das crianças ou em qualquer ocasião dedicada a ela.

Presente bom – entende-se brinquedo, foram o que eu ganhei de seu Medina – ou o Barão do Rio Branco – como costumávamos chamá-lo. Ele sempre nos dava brinquedo no Natal. 

Certa vez ganhei a Maria Costureira, acho que era esse o nome, porque tinha duas roupinhas.  A minha irmã ganhou a Emília, era de pano e não tinha roupinha reserva como a minha.  Outro presente que ganhei foi um conjunto de xícaras com pires que ficavam numa bandeja linda vermelha.  O seu Medina sabia o que criança gosta de ganhar de presente: brinquedo.

Certa vez ganhei uma sandália de aniversário. A sandália ficou pequena.  Tinha sido dada por uma amiga da família, a Célia. Foi comprada numa espécie de mercado que vendia de tudo. Era simples trocá-la por numeração maior.  Fomos ao local.  Encontrei a sandália, mas não me foi permitido ficar com ela. Por quê?

Porque não tinha nenhuma que servisse na minha irmã, que por chorar copiosamente, fez com que meu pai decretasse: se não tem para uma não tem para nenhuma.

Nunca entendi a atitude do meu pai.

Nunca aceitei a indiferença da minha mãe diante de tal injustiça.

Nunca perdoei o egoísmo exacerbado da minha irmã. – Desde quando ela necessitava ter, além de tudo o que era meu, uma sandália igual a minha, que foi minha por muito pouco tempo. 

Além disso, essa via era sempre de mão única. O contrário nunca aconteceria mesmo se fosse possível. Mesmo criança eu tinha noção que isso era um absurdo.

– É só uma criança, não sabe o que está fazendo, pensará alguém. 

– Cada um se defende como pode, dirá outro.

Ela sempre era protegida, até pelos estranhos.

Se fosse um brinquedo como o que eu ganhei do rapaz do armazém – uma boneca de plástico – não seria necessário a troca e assim eu teria ficado com o meu presente de aniversário.

A menina que está na frente da vitrine em 1.981 está dizendo para adulta de 2.021 que talvez não tenha acontecido dessa maneira, a memória, às vezes, nos trai…

Então a imagem ganha som e escuto novamente, que se não se não tem para uma não tem para nenhuma.

Ninguém tem o direito de tirar de mim o meu presente de aniversário.

Enfim, digo.

20/01/2.021