Os tiradores de sangue

“Naquele tempo nossos medos eram outros.”

Por: Josaine Airoldi

Esqueça o homem do saco, o bicho papão, a mula sem cabeça e todas as formas de amedrontar às crianças, nenhum deles me provocava medo.

Eu receava ser atacada pelos tiradores de sangue.

Não se trata de vampiros, embora eles também não existam.

Não sei de quem eu tinha mais medo se da minha mãe ou se deles.

Na volta da escola era sempre a mesma coisa.

Se eu a seguisse, desobedeceria minha mãe.

Se eu não a seguisse ela os acionava.

Bravamente e solitariamente eu seguia pelo caminho indicado pela minha mãe enquanto ela chamava: Os tiradores de sangue.

Embora eles nunca tivessem aparecido, eu os temia.

Ela era assim sempre tinha uma brincadeira, uma história ou uma solução para tudo.

Uma das nossas brincadeiras consistia em brincávamos de “casinha” numa casa de verdade.

 A filha dela era sempre a minha irmã.

Era em quem dava banho, colocava bastante talco e após vesti-la com a sua melhor roupa, saíamos para passear.

Ela sempre com algum sapato ou sandália de salto alto da minha tia.

 Às vezes, eu era a professora; ela a mãe preocupada.

Certa vez quando veio buscar o boletim da filha eu seriamente usei uma expressão corriqueira o cotidiano escolar:

  – Sua filha passou raspando.

Começaram a rir sem parar.

Primeiro ela depois a filha que nunca tinha frequentado a escola e não fazia a menor ideia o que significava o que eu havia falado. Isso foi o que me dava mais raiva: o poder que tinha para influenciar as pessoas.

 Fiquei profundamente chateada, ora não era para brincar com a brincadeira.

Quando era na sua casa as brincadeiras eram outras.

Fazíamos orelhas de macaco – era para serem bolinhos fritos.

Atrapalhávamos o namoro da minha tia com um dos irmãos dela.

Como não tínhamos luz elétrica eles gostavam de namorarem no escuro ou tentarem pelo menos.

 Queimar papel higiênico sujo, certa vez quase incendiei a “patente” não havia banheiro.

 Quando brincávamos trocávamos de nome.

Tínhamos nossa amiga e vizinha imaginária: a Lita.

 Também, brigávamos muito, principalmente quando ela queria fazer aquilo que eu não podia fazer.

Eu sabia que na hora de ser responsabilizada era eu quem tinha que arcar com as consequências porque ela estaria longe.

Como éramos três, é claro que eu sobrava.

Às vezes o meu primo me defendia e batia nela com uma toalha de um modo que somente ele conseguia.

Nunca brigamos fisicamente, mas eu gostava quando ele se vingava dela por mim embora eu achasse exagerada atitude dele em relação ao que havia acontecido; porém era bom me sentir protegida.

Talvez seja por isso que ela usou seu olhar malicioso para insinuar que eu tinha feito algo com ele que não fiz.

Se eu soubesse que isso somente aconteceria dez anos depois e com outra pessoa não teria ficado tão magoada e não teria ficado quase um ano sem conseguir olhar para ela.

 Só voltei a conversar com ela depois depois.

 Com certeza, ela foi minha melhor e pior amiga de infância que eu tive.

                                                                                              27/ 11/ 2.010

Bodas de plástico

Por: Josaine Airoldi

Busco na memória lembranças nossas.

Hoje sei que deveria ter sido melhor contigo te deixando ir embora logo em seguida.

Fui egoísta te deixei entrar, um pouquinho, mas deixei. Você realmente me amou.

Eu nunca consegui te amar por que não correspondia as minhas expectativas

Nunca te respeitei, desculpas embora tarde sei que podes me compreender.

Nunca te quis realmente, não posso negar este fato.

Sei que estás bem. Estás longe de mim e de minhas amarras egoístas.

Fiquei com algumas boas lembranças, é verdade: os CD da Legião Urbana com os quais sempre me presenteava em datas especiais.

Nossas tardes de domingo com sorvete e Martini.

E o amanhecer na praia…  

Nossos planos mais profundos foram aqueles que fizemos um ao outro numa noite qualquer enquanto estávamos num bar.

Nessa noite entre uma pina colada e outra construímos um anel para comemorarmos nossas Bodas de Plástico.

Guardei o nosso símbolo até aquele domingo de sol forte em que finalmente te disse adeus para sempre.

Lamento, somente, que naquela tarde era teu aniversário.

07/08/2.010

Doroteia

Por: Josaine Airoldi

Ela apareceu certo dia. Chegou sem ser convidada. Foi logo bem acolhida pela minha avó, que recebia bem a todos: os transeuntes que pediam abrigo, os que vendiam bugigangas, os que se ofereciam para ajudar no que fosse necessário em troca de algum prato de comida ou de alguns trocados…

Era alta, delgada, tinha o couro amarelado e o focinho fino, não sei de que raça, mas era bem diferente dos outros dois que tínhamos: o Macaco e o Leão.

Além deles tínhamos o Betinho, que como ela apareceu certa noite e foi ficando, se tornando o gato da família.

Doroteia – esse é o nome que demos a ela – tinha uma particularidade canina excepcional: somente atacava mulheres, com os homens era cordial e amistosa.

Doroteia era exímia em trazer panelas dos vizinhos para casa e também as levava. Tínhamos panelas sem tampas e tampas sem panelas.

Sentimos muito a falta dela quando percebemos que não voltaria mais.

Doroteia não era de se apegar.

20/11/2.010

A banda

“Naquele tempo ser baliza era o máximo…”

Por: Josaine Airoldi

Reunião.

Blá! Blá! Blá! Blá! Bla!…

Intervalo, enfim!

Banda da escola. Expectativa total. Estão no começo. Bem no começo. Nós seremos a sua primeira plateia.

Todos têm uma história para contar sobre banda escolar.

Olho em volta somos da mesma geração.

Entram ordenadamente.

Direita volver.

Esquerda volver.

Nada mudou.

A mente viaja. Escola Tomaz. Início da década de 80. Época em que era obrigatória a perfeição nos desfiles cívicos. Desfilávamos marchando. Esquerdo. Direito. Esquerdo. Direito… Olhar rente a cabeça do colega da frente. Uniforme impecável. Impecável também tinha que ser a nossa apresentação. Ensaiávamos quase todas as tardes durante o mês de agosto.

Sempre fui alta. Ficava por isso no final da coluna. Além disso, era desengonçada.

O fato é que mesmo de lá eu a via. Linda. Magnífica. Bailava e encantava a frente dos batalhões enquanto ouvia-se o som da banda municipal.

Eu sabia que nunca ocuparia aquele posto, mas desejava.

Naqueles tempos idos, não era proibido sonhar.

21/ 07/ 2.010

Se eu morresse agora…

Por: Josaine Airoldi

Começou no sábado.

O domingo foi mais tranquilo.

Na segunda-feira, mesmo me sentindo mal fui trabalhar. Era importante terminar as atividades pendentes.

Como o xarope não fez efeito, tive que compreender que estava doente e precisava de opinião médica. Então, esperei pacientemente durante a terça-feira o Márcio voltar de Esteio, para que me levasse ao hospital. Quando, enfim sou atendida recebo o diagnóstico: gripe. Compro todos os remédios prescritos.

Como o tratamento não fez efeito em três dias pois o corpo todo continua doendo. Não parava de tossir. Às vezes, segurava a respiração para não sentir dor, volto ao hospital, pois tenho direito a reconsulta.

Outro médico. Que bom! – penso. Eu tinha certeza que o diagnóstico estava errado e que se estivesse certo o tratamento estaria melhor.

Nova decepção: o médico me trata de maneira indiferente e mantêm o tratamento e acrescenta um remédio para dor no estômago. Com muita má vontade me dá um atestado de dispensa do trabalho por um dia.

O tratamento continua não fazendo nenhum efeito: respirar dói muito..

Preciso de um médico em quem confiar. Lembro do Doutor Ricardo. Espero bastante para ser atendida – horário de “encaixe”.

Ao sair do consultório com uma receita de remédios para o tratamento de pneumonia e atestado médico para sete dias, reparo nas minhas unhas mal cuidadas. Nesse instante percebo o quanto seria ruim se eu morresse agora com as unhas quebradas desse jeito. Morrer é inevitável, contudo manter as unhas bem cuidadas é possível.

04/09/2.010

Popularidade abaixo de zero

Por: Josaine Airoldi

Levanta a mão a menina que quis ser popular na escola!

Sempre quis ser popular. Sempre achei que toda menina deseja isso.

Poderia ser: ter algo para contar, ou para quem contar. Ser a mais inteligente. Para mim, qualquer coisa servia…

Ah! Mas tinha coleguinhas que eram bastante populares.

Ela era muito bonita e…

Havia o pedágio que ela cobrava das demais meninas da Escola para que pudessem usar o

banheiro.

Quem não tinha como “pagar” passava por debaixo de suas pernas abertas.

Certa vez fui convidada para ir a sua casa após a aula. Nunca cheguei. Embora fosse perto, mas não foi porque era na direção contrária ao meu trajeto.

Estávamos indo, eu extremamente feliz por conseguir esse convite.

Quando…

Um carro para de repente. Um homem sai correndo. Junta desesperado um menino do chão coloca-o no carro. Sai em disparada. Então vemos outro menino completamente abalado, sem entender direito o que havia acontecido. Ficou assim o resto o ano ou da vida, não sei.

Às vezes, vejo essas imagens e me pergunto e se fosse em outro dia…

Na época e bem depois só tive uma amiga de infância.

Ela era muito popular. Todos gostavam dela. Exceto a sua família. Era adotada e parecia que tinha que pagar eternamente por ter sido acolhida, mas na minha família ela sempre tinha vez.

Certa vez encontrou um, penico.

Isso mesmo um penico no meio do lixo perto da escola onde estudávamos.

Não teve duvida. Lavou-o. Deixou secar e saiu com ele na cabeça. Todos riam de sua atitude.

Eu?

Estava com ela.

Minha quase xará…

Nunca me esqueci dela.Fez xixi na sala de aula.

Recordo dela em pé.

Apontando para o chão.

Virou assunto na escola.

Todos condenaram a professora Beatriz.

Afinal, ela tinha pedido para ira ao banheiro.

Por muito tempo foi assunto preferido da escola.

Ela era alta, rechonchuda e…

… A preferida dos que não levavam lanche.

Ela levava: quase meio quilo de pão caseiro:

– Minha mãe é quem faz! – dizia sempre, orgulhosa.

O pão em questão era recheado com salame e queijo, talvez margarina ou outra coisa qualquer.

O lanche era devorado com os olhos por muitos.

Repartia? Claro! Com os “irmãos.”

Não como os de verdade. Era filha única. Os irmãos eram dois colegas que a convenceram brincar que eram irmãos na hora do lanche e somente nesse momento. Então ela sorria um sorriso gordo.

Eu olhava aquilo não acreditando, como poderia ser tão burra de acreditar num história dessas. Parecia que o pão não tinha fim.

Eu os observava. Ela se comprazia em barganhar com eles. Não era o lanche que eu queria.

Ela…

…Tinha uma história triste da qual só recordo que morava com a madrinha numa casa muito bonita, perto da escola.

A madrinha lhe proporcionava tudo que uma garota naquela idade e naquela cidade poderia desejar.

Tinha todos os produtos que apareciam: “Os Menudos”.

Lembro-me também que sempre dizia:

– Máquina lava! – enquanto jogava futebol, descalças, usando nos pés apenas meias alvíssimas.

Eu nesse momento só pensava: será que ficarão novamente branquinhas essas meias…

Acho que isso não importava a ela.

Apenas, por alguns momentos e por razões completamente inusitadas, inesperadas ou não propositais fui o “centro” das atenções dos meus “coleguinhas” de escola.

Certa vez, o bilhete…

Era para a professora – raríssimos, mas esse existiu.

Velório em Porto Alegre.

Tenho que sair mais cedo.

Eu não iria ao velório.

Eu tinha que estar em casa para ajudar no quê, eu não recordo.

Também nunca compreendi o porquê do bilhete ter sido lido em voz alta. Enfim…

As meninas, todas, sentadas em volta de mim – eu recordo muito bem.

Queriam saber detalhes a respeito do velório de um primo que nunca conheci.

Tinha pouquíssima informação. Tinha que estar em casa mais cedo. Não tinha com responder a tantas perguntas. Lamentei por muito tempo.

Fui embora mais cedo desejando que aquele momento durasse para sempre.

Certa vez fui para a escola: vestida para arrasar…

A roupa era da minha tia, que resolveu brincar de boneca comigo.

Cheguei à escola.

As meninas ficam curiosas querendo saber onde tinha comprado.

Ainda atordoada e surpresa com tantas perguntas respondia meio débil a todas:

– Não é minha, é da minha tia.

Foi um momento estranho e mágico ao mesmo tempo.

Devolvi a ela agradecida por ter me proporcionado aquele momento em que todos os olhares se voltaram para mim ou para a roupa que estava vestindo, para mim não importava muito: fiquei popular na escola.

Ela, tempos depois deu a saia azul com bolsos e a blusa branca com detalhes coloridos para a minha irmã.

Sempre quis saber: por que não para mim?

30/ 06/ 2.010

Uma história puxa outra!

https://lembrarparanaoesquecerinfo.data.blog/2020/09/13/candidata-a-amiga/

Unhas de bruxa

Por: Josaine Airoldi

“Criança não trabalha, criança dá trabalho” – Arnaldo Antunes

Desde criança cuidava de outras crianças para ajudar em casa.

Éramos pobres, mas ela era mais que eu; por isso acho que sempre teve condições de se sobressair melhor na selva que é a escola, pois lutava a cada dia para sobreviver às adversidades de uma infância desprovida de infância.

– Só loucos para andar de bicicleta nessa chuva. – Comentei certa ver ao ver um senhor passar de bicicleta. – Não são só loucos que fazem isso, quem precisa também. – Comentou secamente.

Então percebi que aquele que tinha passado por nós era o pai dela. 

Fiz o comentário mais para ter o que falar do que qualquer outra coisa. Ela tinha esse poder sobre mim. Sempre conseguia fazer com que me sentisse uma perfeita idiota.Estudamos vários anos juntas nas mesmas turmas. A escola era muito pequena e não havia opção de escolha e não tínhamos noção que teríamos algum direito se tivéssemos opções.

Na quinta série formávamos um quarteto: Eu, ela, Margarete e Maria Aparecida. Era a primeira vez que eu me sentia como parte de um grupo. 

Certa vez estávamos jogando vôlei no pátio da escola. De repente o menino mais bonito da escola incluiu “mor” a letra a – a última letra do seu nome dela, criando a palavra: Claudiamor e não contente ficou repetindo, para que ela não tivesse dúvidas do que queria dizer. Fiquei com muita inveja, pois não bastava jogar bem, tinha que atrair a atenção daquele que tinha os olhos mais lindos do mundo e o nome de Ângelo.

Conversávamos muito sobre quase tudo e principalmente a respeito do nosso futuro escolar. Antes que o ano terminasse Maria Aparecida foi embora para outra cidade. Não foi naquele ano que implantaram a sexta série. Margarete se “casou” e não nos seguiu. Nunca mais soube nada a respeito delas.

Nós seguimos. Estudamos muito Matemática na parada de ônibus quando ficamos em recuperação na sexta série.

Desistimos da sétima série após longa greve dos professores, embora não combinado eu não voltei e ela também não.

Foi bom; pois ao retornarmos no ano seguinte encontramos a Angelita com a qual conversamos e rimos muito quando íamos a pé para casa, para economizarmos o dinheiro da passagem e para ficarmos mais tempo juntas.

A oitava série estava passando e eu sempre com a ideia fixa que ela seria uma excelente jogadora de vôlei como a Ana Moser – quem foi criança nos anos 80 e gostava de esportes saberá imediatamente de quem se trata. Por mais que tentasse não conseguia jogar como ela. Ela era a melhor desde sempre.

Quando começou a namorar seguiu os preceitos do lugar que as gurias de Tramandaí aos 15 anos namoravam cobradores de ônibus, aos 18 namoravam garotos que estavam servindo no exército e dali por diante valia o que viesse.

Primeiro foi Edson e depois foi o Claudio, ambos, cobradores da empresa de transporte Dindinho.

Por coincidência nos encontramos no mesmo emprego. Estava de férias da escola, estava no Segundo Grau – cursava Magistério e precisa trabalhar no verão. Passava em frente de uma padaria quando li o cartaz: “Precisa-se de balconista,” como eu tinha certa experiência de empregos anteriores; achei que poderia dar conta deste.

A proprietária era uma ex-professora de Português nossa da época em que estudávamos juntas.

O emprego era horrível; mas a companhia e a destreza dela nas realizações das atividades pertinentes a nossas funções tornaram-no menos deplorável.

O verão acabou. Voltei a estudar. Perdi o contato com ela.

Ao passar pela padaria em que eu tinha trabalho a encontrei. O mesmo olhar de fibra. Rapidamente conversamos. Fiquei sabendo que havia casado e descasado. Tinha uma filha se a minha memória não me trai.

O que eu não esqueço é de suas enormes unhas. Unhas de bruxas – eu dizia – quando brigávamos.

Unhas de uma menina que teve que crescer antes da hora, é assim que me lembro dela: com carinho e com afeto.

14/10/2.010

Aos domingos

Por: Josaine Airoldi

Visita dos primos aos domingos era sinal de refrigerante na minha casa.

– Vão buscar. – Ouvíamos sempre.

Íamos – todos eufóricos pelo reencontro  – segurando firme os “cascos”  que balançavam dentro das sacolas. Como não tínhamos geladeira por não ter luz elétrica – voltávamos o mais rápido possível – os refrigerantes não podiam “esquentarem”.

Assim estávamos quando de repente uma garrafa cai, espatifa-se no chão. Fico por alguns segundos olhando o líquido se esvaindo no asfalto quente do mês de fevereiro. 

Fico com a cabeça baixa esperando que algum adulto viesse em meu socorro e  milagrosamente aconteceu:

– Não foi culpa tua, em dia isso acontece muito: as garrafas simplesmente explodem.

Logo o assunto perdeu a importância e fomos para a rua brincar como sempre fazíamos.

Recordando essa história – consigo lembrar daquela garotinha olhando abismada para os  cacos deixados pelo caminho e desejando ser amparada quando mais precisava…

Domingo almoço na minha casa.

                                          30/06/2.010