O almoço

Por: Josaine Airoldi

Hoje parece engraçado a história que minha amiga nos conta enquanto saboreamos um delicioso almoço feito por ela, mas na época em que ocorreu o fato não foi – tanto que    percebo o quanto isso ainda a incomoda, apesar das inúmeras risadas que ecoam ao narrar o fato acontecido.

Mesmo sendo crianças, o pai levava-os para a pedreira – trabalho árduo, mas necessário em vista das poucas condições de criá-los como desejava.

Era tudo escasso: alimentação, afeto, inocência…

Certa vez o irmão, que na falta de condições de assumir outra tarefa por ser “doido” – era encarregado de esquentar o almoço, acrescentou umas tábuas recolhidas próximo de onde estavam, para que o fogo não se extinguisse.

De repente, um cheiro forte foi sendo espalhado pelo ar. 

Foi então que perceberam que se tratava de restos de um caixão que estava ardendo em chamas e impregnando a comida e impossibilitando-a para consumo.

Naquele dia as frutas que, pacientemente esperavam para serem colhidas por quem se interessasse por elas, serviram de almoço.

A loucura te exime de um sofrimento que a lucidez não permite

Às vezes, ter consciência pode ser cruel, pois nos faz guardar na memória coisas que não se quer lembrar, que afloram sem consentimento ao ser aguçado por uma situação. 

01/02/2.020

Aquela que corta o bolo

Por: Josaine Airoldi

Aniversário na escola. 

Tem bolo na hora do intervalo, trazido às pressas.

Todos reunidos na sala dos professores na hora do intervalo.

Uns se certificando de quanto ainda restam de seus 15 minutos de descanso.

Outros, meio constrangidos por não saber que havia alguém de aniversário.

Alguns indiferentes a tudo em volta, mas tentando se manter interessados no acontecimento e se possível saborear a iguaria a tempo.  

De repente a pergunta ecoa no ar:

– Eu, cortar o bolo?

Já presenciei por diversas vezes essa situação, embora a contemplada queira fingir surpresa, com a importante missão: cortar o bolo e distribuí-lo aos demais; a pergunta soa mais como uma afirmação.

Há pessoas que se fazem necessárias… 

Elas sempre têm o que comentar em qualquer ocasião. 

Elas sempre estão à vontade em qualquer ambiente. 

Elas estão sempre atentas às necessidades dos demais.

Elas são bem-vindas em todos os grupos, tribos, seitas…

São aquelas que cortam o bolo…

30/06/2.010

Conversa de comadres

Josaine Airoldi

Certas feridas permanecem abertas por mais que o tempo passe. 

Ao culpar a tua mãe por todos os seus traumas isenta teu pai de toda responsabilidade.

Nesse eterno duelo entre a mãe má e o pai idolatrado há uma menina forte e determinada que se tornou uma mulher amargurada e fragilizada, que não consegue amar sem concessões, pois foi rejeitada, por todos aqueles que por quem esperava ser acolhida. 

Eu lhe digo isso, após me contar novamente que foi devolvida  pela família adotiva que ao saberem que uma vez registrada como filha teria direito a herança que pertencia aos filhos legítimos.

A família abastada não poderia permitir que tal absurdo acontecesse, uma vez que nem para a realização de serviços domésticos a guria servia, por isso depois de cinco anos sem nunca ter frequentado a escola era devolvida para a família biológica.

A mágoa aumenta ao relatar, outra vez, que o pai se sentiu muito humilhado ao mentir diante do juiz que não a havia dado para adoção e também porque perdeu o prazo para processá-los por tal fato tão cruel. 

A lembrança que tenho do teu pai é de um homem muito bonito, altivo, curioso, que não combinava com aquele ambiente quase agreste,  sem luz elétrica e sem água encanada…

Lembro-me, também que, enquanto ele se aprazia com nossa companhia embaixo de uma figueira frondosa naquele janeiro de sol escaldante a tua mãe: uma senhora de estatura média, rechonchuda, que apesar de estar muito feliz com a visita da filha estava sempre envolvida com alguma tarefa que necessitava ser feita, afinal a vida no campo não é tão simples como se imagina.  

– Já te contei que um dia meu pai quis ir embora. Queria conhecer o mundo e para isso bastava algumas peças de roupas e a gaita que lhe fazia companhia. – Digo que sim, mas ela continua falando.

– Minha mãe disse que ele poderia ir, mas que nunca voltasse, então, permaneceu ali, tendo outros filhos que tiveram que doar por falta de condições de criá-los.

– Todos voltaram conforme, minha mãe sempre dizia que iria acontecer ao nos ver partindo.   

– Eu usei tudo de ruim que aconteceu comigo como mola impulsora para chegar onde eu cheguei.

– Como que eu consegui? 

Sei que vais dizer que estou errada, mas a força e determinação que tens foram herdadas da tua mãe.

Ela finge que não entendeu e continua…

Para ela o importante não é o que eu digo e sim que eu ouça a sua verdade.

Então relata como manipulou uma pessoa muito importante no mundo dos negócios para que fizesse o que ela queria e assim conseguiu resolver o problema que estava incomodando o  alto escalão da empresa. Não estavam conseguindo vender um tipo de seguro oferecido por uma das mais importantes instituições financeiras do país.

– Ganhei muito dinheiro durante o tempo que trabalhei nesse banco.

– Tem coisas que nunca te contei, portanto não fique achando que me conhece.  

Ela fala em tom de revanche, por eu ter dito o que não quer ouvir. 

É justamente por isso que sou tua amiga durante esse tempo todo: sempre digo o penso sem me importar como digo.  

Embora, não consiga compreender ou aceitar, eu sou muito feliz com o que tenho: minha casa,  meu casamento, minha profissão, minha filha que é tua afilhada…

É no meu mundo que consegue desamarrar as amarras sociais que são tão preciosas para te manter no topo como gosta de achar que está. 

É no meu mundo que consegue ser o que realmente é. 

Mantemo-nos amigas por interesse mútuo. 

Eu sou a emoção, tu a razão. 

Uma equilibra a outra quando necessário.

Em vários momentos me fizestes enxergar a realidade, assim como te proporciono momentos de leveza e aconchego.

Afinal, amigas são para isso.

15/01/2021

O tio polícia

Por: Josaine Airoldi

São três irmãos. – Ela me conta.

Foram três bons amigos.  São três histórias que ficaram guardadas com muito carinho.  

Moravam à beira do rio numa casa simples de madeira com a mãe e a avó.

Quando nos encontrávamos na minha casa que também era de madeira e muito simples, mas ficava a beira da rodovia, agiam como se estivessem em outra cidade.   Sempre que passava uma viatura da polícia gritavam:

– Olha lá o tio Polícia!

Quem os ouviam falar tinha a impressão que conheciam toda a incorporação policial. Na verdade eles reconheciam apenas a viatura e por isso deduziram que dentro havia o amigo policial da mãe.

O mais velho era muito desengonçado e muito estranho, por isso eu odiava quando me comparavam a ele.

O mais novo e o mais bonito dos três – era com quem minha irmã iria casar nas brincadeiras que fazíamos.

O do meio cujo nome não sabíamos, sempre o chamávamos pelo apelido, era o que sempre se metia em confusão.

Certa vez minha avó pediu que ele buscasse umas coisas para ela. Ele foi – com má vontade – mas foi.

Embora tenha trazido o que foi solicitado, teve que voltar, porque minha avó não acreditou na história de que tinha sido logrado pelo proprietário. Pegando-o pela mão, se dirigiram ao armazém para constatar o que já sabia: o troco foi entregue corretamente.

Ora, se não estava com o menino e muito menos com o proprietário do armazém onde estaria o dinheiro?

Estava entre a vegetação da estrada em dezenas de pedacinhos que o vento se encarregou de espalhar.

Assim como o dinheiro, a nossa convivência foi se dissipando aos poucos com o passar do tempo, pois cada um tratou de cuidar da sua vida, mas os bons momentos ficaram…

Não há como esquecer dos domingos em que tomávamos porres com vinho misturado com água e açúcar, ou do dia que assistimos ao filme de kung fu sentados amontoados,  mas super contentes por estar dividindo aquele momento. Também ficaram no rol das boas lembranças o quanto eram gostosas as laranjas do céu que íamos colher na chácara onde moravam.

Quando olho a foto em que estamos abraçados em frente à cerca da minha casa sob o frio congelante de agosto, lembro-me o quanto é bom ter tido bons amigos na infância. 

Quando paro de anotar, por uns instantes, para olhá-la e dizer o quanto boas amizades são importantes, percebo que está com os olhos marejados de lágrimas.

Nada a mais a acrescentar…

20/11/2.010

Amanhã é dia de faxina

Por: Josaine Airoldi

Enxaqueca infernal. 

Começou no início da tarde.

Achei que passaria rápido, mas me enganei.

Calor insuportável em pleno mês de julho. 

Não era para estar frio?

Depois de um dia exaustivo, enfim, chego em casa.

Lembro que hoje é dia de reunião partidária aqui em casa – coisas do meu marido.

Olho em volta, está tudo bagunçado.

Estão todos na sala conversando sem parar.

Ninguém se importa com minha presença.

A minha cabeça parece que vai explodir.

Tento dormir.

Levanto.

Acendo a luz.

Ficar quietinha no escuro não resolveu dessa vez.

Não tem jeito, me rendo ao salvador das que sofrem de enxaqueca – o remédio – no meu caso é o Cefaliv.

Começo a escrever sem parar.

A dor?

Continua.

A reunião também.

Amanhã é dia da faxina.

O sono, enfim, chega…

07/07/2.010

Ele e ela

Por: Josaine Airoldi

Ele se foi.

Ela ficou e pela primeira vez – depois de meses sendo corajosa – se permitiu chorar.

Ele se foi.

Ela ficou com a convicção de que tinha feito tudo que era possível para amenizar a sua dor.

Ele se foi

Ela ficou com todos os fantasmas a assombrando.

Ele se foi. 

Ela ficou observando as horas que iam passando e percebeu que não havia tempo para lamentações.

Ele se foi. 

Ela ficou com as últimas palavras dele ecoando na sua mente: por que é tão cruel?

Ele se foi.

Ela ficou e pensou que, talvez, estivesse se referindo ao câncer que se alastrou sem dó nem piedade e persistiu em não abandoná-lo.

Ele se foi.

Ela ficou com a certeza que demonstrou gratidão por tudo que viveram juntos e compaixão pelo seu sofrimento, enquanto planeja o que fazer com todos aqueles equipamentos hospitalares, que estão ocupando a sua sala de estar.

Ele se foi.

Ela ficou com tudo o que restou: lembranças,  remorsos, angústias e incertezas…

Ele se foi.

Ela ficou com a pergunta que ambos faziam, sem obter resposta:  

– Por que comigo?

Ele se foi.

Amanhã será outro dia – ela pensou.

12/01/2.021

Se eu tivesse uma mochila

Por: Josaine Airoldi

Com sete anos eu e a Nane ingressamos na 1ª série.

A escola  Thomaz era de madeira, tinha pouquíssimas salas e era pintada de azul, eu acho. 

Tudo era novo e assustador. 

Não melhorou com o passar do tempo. 

O que me confortava, de certa maneira, era saber que alguém viria nos buscar ao final da aula.

Certa vez, apesar da chuva torrencial, chegamos  a conclusão que seria uma boa ideia não esperarmos o adulto responsável naquele dia, pois estava demorando muito. 

Estávamos completamente encharcadas quando nos resgatou daquela situação.

– Por que não esperaram? – Jorge, o irmão da Nane, disse furioso e ao mesmo tempo percebendo que éramos capazes de irmos e virmos da escola sozinhas.

O material escolar que trazíamos conosco era igual e cabia numa pasta de papelão: um caderno, lápis, borracha e apontador. 

Tinha sido dada a ela pela minha mãe como pagamento de uma promessa que havia feito. 

Lamentei muito a mãe dela não ter feito nenhuma promessa, quando me mostrou a mochila de couro linda que havia ganhado, além de caderno novinho, pois o antigo havia se desmanchado. 

Isso se tornou pior quando recebi minha nova pasta – era de plástico, amarela e cheia de buracos feitos com caneta pela minha tia que tinha feito certamente quando a aula estava chata. “Vou fazer esses buraquinhos” – Ela deve ter pensado na época.

Não sei como foi parar embaixo do assoalho da casa da minha avó que a retirou de lá, lavou e colocou um elástico branco e me entregou. 

Minha avó sempre resolvia tudo com facilidade.

Como era plástico não estragava tão facilmente. – Alguém disse.

A partir daquele dia passei a odiar a escola e tudo o que ela significava.

Eu tinha muita vergonha daquela pasta Frankenstein.

Colocava a culpa no elástico, pois se fosse igual ao original, não chamaria tanta atenção.

Colocava a culpa na minha tia que não tinha se livrado direito da pasta, uma vez que não a queria mais.

Colocava a culpa na minha mãe, pois custava ter comprado uma mochila que nem a família da minha amiga fez.

Nada disso foi verbalizado, mas muito sentido, tanto que as imagens permanecem nítidas enquanto escrevo.

No ano seguinte ganhei uma mochila preta de couro, poderia colocar nas costas, se quisesse. Tinha uns desenhos de umas crianças estudando e uma frase embaixo: “Vamos estudar o Brasil precisa de nós.”

Quase todos da escola tinham uma igual, apesar disso não dei muita importância para aquela mochila, logo eu que sempre tive necessidade de ser igual aos outros, para não me sentir deslocada.

Tenho a impressão que tudo que desejo eu recebo, mas nunca recebo quando realmente desejo.

27/11/2.010

Uma história puxa outra!

https://lembrarparanaoesquecerinfo.data.blog/2020/07/28/o-caminho-3

O carinho da mãe, o guaraná e a injeção

Por: Josaine Airoldi

Quando a minha mãe e a minha avó percebiam que as claras de ovos batidas colocadas nos meus pés não estavam fazendo efeito e não importava o quanto de guaraná “fora do gelo” eu tomasse, a febre alta não iria abaixar, elas começavam a cogitar a possibilidade de ser levada para consultar em Osório. 

Nesse momento chorava ainda mais. 

Não tanto pela dor terrível na garganta, mas pelo fato de saber que iria tomar injeção e ficando boa não teria mais o carinho e a atenção da minha mãe, que nessas ocasiões ficava em volta da cama aflita, medindo a minha febre de 10 em 10 minutos. 

Eu suplicava dizendo que estava melhor que não precisava, embora a febre me desmentisse.

Como meu pai estava sempre trabalhando longe, era chamado o seu Artur, taxista que estava sempre a postos para atender os vizinhos.

A Doutora Maria Amelia sempre receitava a mesma coisa: Benzetacil, para o pavor de todas as crianças, ainda existe.

Para garantir a eficácia do tratamento, a primeira dose de injeção era dada lá mesmo no consultório.

As demais eram aplicadas na casa de uma senhora que era enfermeira – Dona Noemia – para a qual eu tive que ir todos os dias durante sete dias.

Embora, criasse vários planos durante o trajeto para me livrar daquela situação não consegui pôr nenhum em prática.

Depois de esterilizar a seringa de vidro, ela realizava com habilidade seu ofício; enquanto aquela bondosa senhora se tornava, por alguns segundos minha carrasca, eu o via escondido se divertindo com a minha situação. Tinha mais ou menos a minha idade e era sempre mandado para o quarto, quando eu chegava, mas nunca obedecia à mãe.

O que doia mais era ter que enfrentar tudo isso sozinha.

Cada vez que eu reclamava de alguma coisa para minha mãe eu ouvia que eu tinha que agradecer muito a Deus por estar viva, que ficou cuidando de mim meses e meses no Hospital Conceição, que eu tinha sido desenganada pelos médicos.

Depois de muito tempo estava eu e minha mãe novamente no mesmo hospital, em posições contrárias, porém dessa vez os médicos não estavam errados quanto ao diagnóstico.

                                                                                      15/08/2.000

Esqueceram de mim

Por: Josaine Airoldi

Da praça eu vi todos entrando na igreja: os convidados – entre eles meu pai, minha mãe e minha irmã do meio, o noivo e enfim a noiva acompanhada pelo pai e pelas daminhas de honra.

Eu não queria assistir a cerimônia. O que eu queria mesmo era sair correndo sozinha para qualquer lugar longe dali, uma vez que ninguém se lembrou que eu estava sozinha com uma bebê de alguns meses. Ou como uma bebê de alguns meses fica sob os cuidados numa praça com uma criança de 10 anos – mas nenhuma das possibilidades seria possível. – Eu concluí:

Se levasse o pelego e a bolsa com as fraldas não conseguiria levar a minha irmã. 

Se levasse a minha irmã teria que deixar o resto para trás. 

Eu estava nesse devaneio quando chega a tia Sirlei. 

Ela me olha com olhos de curiosos, mas não perdeu muito tempo com perguntas. Rapidamente troca a fralda de pano da minha maninha – que estava bastante suja e me tira daquele suplício. 

Depois disso, tudo transcorreu bem. 

A festa estava boa. 

02/06/2.010