Meus fantasmas

Por: Josaine Airoldi

Chegou o momento:  precisamos ir. – Eles sussurram.

Já tivemos momentos como este: precisamos ir. – Eles insistem.

Meus fantasmas parecem mais lúcidos do que eu. 

Sou egoísta e não quero abandoná-los. Não estou preparada para seguir sem eles. Receio encarar a realidade. Ainda não sei quem sou.

Estou sempre fugindo para o passado ou indo para o futuro. Permanecer no presente é desafiador para mim.

Precisamos ir. – Eles são intransigentes. Eu repito que não quero ficar sem eles. – Não me importo de ser egoísta. Afinal, estamos juntos a longo tempo. Não podem simplesmente desaparecer de um momento para o outro.

Necessito deles para me dizerem qual é o caminho.

Eles são a minha referência.

Não sei seguir vivendo sem eles…

Enfim, eles compreendem e dizem que vão permanecer mais um tempo comigo.

Respiro aliviada e agradecida…  

25/08/2.007

Halls

Por: Josaine Airoldi

Sempre nos oferecia Halls preto, que ardia muito na boca, então, colocávamos fora. 

Não sei por que nos oferecia. 

Também não sei porque aceitava se sabia que colocaria fora. Acho que era a forma de retribuir a atenção que me dava.

Ele gostava de participar das nossas brincadeiras – ia nos visitar embaixo das árvores –  que era onde ficava nossas casas –  entrava e sempre pergunva como estávamos e também sempre cumprimentava a nossa amiga e vizinha imaginária. 

Nesses momentos não éramos crianças, éramos donas de casa atarefadas com as lides domésticas. Tínhamos até outro nome.  

Ele era amigo do meu avô e se tornou namorado da minha tia e, de vez em quando, vinha visitá-la e por morar longe ficava o fim de semana, por isso dormia no sofá da sala da casa da minha avó.

Como o interesse da amada era pouco.

Só restava o bar que ficava próximo de onde morávamos.

Minha irmã adorava acompanhá-lo nessa empreitada, pois o rapaz lhe dava o que pedia.

Ela servia como anjo da guarda lhe guiando no caminho de volta. 

Lembrando dos dois juntos parecem a Marsha e o Urso.

O namoro não durou. 

Ficaram com lembrança um disco do Júlio Iglesias presente dele para a namorada, que eu adorava ouvir, apesar de não entender o porquê de tantos lamentos e uma foto dos dois juntos no álbum de quinze anos da minha tia.

17/04/2.020

A consulta

Por: Josaine Airoldi

É só comprar outro – ele me diz.

Se eu tomasse a medicação indicada pararia de dar importância para coisas pequenas do dia a dia.

Ele fala sobre os componentes químicos do remédio como um aliado.

As pessoas vão continuar fazendo coisas que te desagradam, porém tu não darás essa dimensão, ou seja, não  tente mudar o outro, tenha outra visão sobre o acontecido.

-Se  o vinho que vocês compraram para tomarem juntos foi tomado sem a tua participação é só comprar outro. Simples assim.

– A casa está bagunçada? Contrate uma faxineira.

– Está cansada? Descanse!

– Aprenda a dar outra resposta a tudo que te incomoda.

Parece fácil ouvindo. 

Estou quase convencida que tem razão.

Mas, quando usa o exemplo, que se alguém escolhe trabalhar num ambiente sem janela, mas com ar–condicionado…

Olho em volta e percebo que está se referindo a própria situação, que é uma maneira de se convencer que fez a escolha certa.

Ele volta a falar do remédio como se fosse um velho amigo.

Minha mente viaja. 

Estou analisando o psiquiatra.

Conhecer o ser humano é uma dádiva e um tormento. 

Às vezes, se torna complicado a convivência com certas pessoas, pois se entende além do que é dito. 

Todos nós temos nosso calcanhar de Aquiles.

Será que para isso existe remédio?

22/01/2.020

A culpa é do orégano

Por: Josaine Airoldi

Domingo à tarde tinha planejado sair.

Não fui. 

Ficou tarde. 

Tudo começou quando comecei a procurar o orégano para colocar na carne, que estava cozinhando para o almoço.

Tinha certeza que estava num pote dentro de um armário. 

Não estava em lugar nenhum.

Nessa empreitada começou-se a verificação de data de validade dos produtos sendo jogados fora os que já estavam vencidos, a limpeza de algumas áreas esquecidas no dia a dia…   

Não saí! Mas a cozinha ficou limpa e organizada.

Ao sentar exausta no sofá da sala me deparei com ele impassível e empoeirado pregado na parede, está sempre lá esperando que seja limpo, que seja colocado um dos ponteiros que caiu e que também sejam trocadas as pilhas que o fazem produzir seu indiferente tique-toque.

Qualquer dia mando arrumar – assim com todo o resto que precisa de algum conserto.

Fui ensinada a fazer o que é certo. 

Fui ensinada a pensar sempre no bem estar dos outros. 

Fui ensinada a não dar opinião quando os adultos estavam conversando.

Sendo adulta não consigo decidir o que é realmente relevante para determinado momento. 

Às vezes, me proponho a não tomar decisão nenhuma.

Fico à deriva, sem rumo…

Não quero ser responsável por qualquer coisa que possa acontecer em decorrência da minha interferência ou pela minha alienação.  

Fico ao sabor das consequências da minha não-ação.  

É uma maneira tosca de me rebelar contra aquilo que me aflige.

Às vezes, é mais cômodo culpar algo aleatório sobre o que dá errado ou não acontece como desejado, do que encarar que sou responsável pelas minhas decisões ou pelas minhas não-decisões.

Não sai num domingo à tarde como tinha planejado e queria, mas a culpa não foi minha, a culpa é do orégano.

A pergunta que fica é: por que eu faço isso?

05/01/2.020 

O quatro olhos

Por: Josaine Airoldi

Hoje me lembrei da época em que estudava no Assis Brasil e especialmente de um comentário feito pelo Rogério: “Sabe o Quatro Olhos? Ele não percebeu que havia uma janela e foi com tudo nela”.

Rogério era um garoto muito magro, muito alto para a idade, desenhava muito bem e gostava muito de fazer piadas de mau gosto.

O Quatro Olhos em questão era nosso colega na oitava série em 1.989. Era um rapaz extremamente tímido, desajeitado e ter que usar óculos de grau não o ajudava em nada.

Eu me sentia deslocada naquela escola e mais ainda naquela turma. De certa, maneira nos identificávamos – éramos os “estranhos no ninho”.

Certo dia começamos uma brincadeira só nossa: sentar na primeira classe da terceira fileira. Eu morava longe e dependia de transporte público, enquanto ele morava perto e por isso quase sempre ganhava a disputa.

Quando eu conseguia algum êxito ele me perturbava a aula toda.

– “Da Frente”, dá licença não consigo enxergar daqui de trás! – Vale lembrar que, embora eu soubesse que tinha razão – pois eu era bem mais alto do que ele – respondia de maneira bem desaforada – para o “De Trás”- para que fosse possível continuarmos com nossa guerrinha particular.

Quando soube que gostava de uma música do Roupa Nova: Um trem azul, não tive dúvidas, copie a letra numa folha de papel, escrevi uma mensagem simpática tipo: “Seja feliz” ou qualquer coisa assim e lhe entreguei. Ele leu, me agradeceu e aproveitou para me contar que estava interessado numa menina da outra turma. Para mim, ela era muito feia e sem graça, mas mesmo assim, o incentivei para que se aproximasse dela.

Então, munido da pouca coragem que tinha e da música – que tive o maior trabalho para transcrevê-la – durante um recreio qualquer, disse que queria namorá-la. Para minha surpresa, a feiosa aceitou. A partir daquele dia era comum eu vê-los juntos de mãos dadas pelo pátio da escola.

Com a presença de uma outra pessoa na nossa vida, a nossa brincadeira aos poucos foi acabando. Mesmo assim, fiquei profundamente triste por ele – quando me contou o quanto estava sofrendo porque ela tinha acabado o namoro. Nada do que eu fazia para agradá-lo conseguia fazer com que não pensasse naquela lambisgoia. Foi assim que percebi que nunca deixaria de ser a “Da Frente”, simplesmente.

Lembrando dessa história agora, percebo que sempre fui melhor como amiga do que como namorada e quando insisto em querer mudar de categoria fico sem nenhum nem outro.

Recentemente, durante um evento o reencontrei. Notei que estava sem óculos, talvez estivesse usando lentes de contato – como eu ou fez cirurgia. Nos cumprimentamos à distancia pelo olhar e com sorrisos de cumplicidade, eu acho. Percebi que estava acompanhado de uma linda moça, havia uma aliança na mão esquerda e que fica bastante atraente vestido de branco.

O tempo só lhe fez bem.

 09/11/2.010

EU… EU… EU… sou um GÊNIO

Por: Josaine Airoldi

Egocêntrico. Egoísta. Enfadonho. Esquisito. Estranho. Extremista…

Apesar dessas características espantosas reunidas na mesma personalidade ele foi a pessoa com quem mais fácil convivi. Não esperava nada dele e de mim não nada exigia. Simplesmente, quando um estava a fim de ficar com o outro nos encontrávamos. Nunca fizemos planos de ficarmos juntos. Acho que a própria presença lhe bastava. Ele foi a única pessoa com quem me relacionei que não “romantizei”, não me perdi num emaranhado de fantasias e expectativas – de certa forma isso me fez bem.

Nunca houve um término com todas aquelas frases clássicas de fim de namoro… Depois de muito tempo, lembro de tê-lo avistado conversando com uma moça perto da Faculdade, onde eu estava fazendo uma curso de Pós graduação. Um acenou para o outro. Ele continuou o que estava fazendo, eu entrei no carro do meu namorado e fui embora. Foi a última vez que nos vimos.

Eu sempre ria quando dizia que não tomava nenhuma bebida gelada por causa da garganta – não se permitia ficar doente.

Às vezes, era enfadonho querendo ser culto: enquanto as pessoas comuns vão à praia, ele contempla a orla marítima. É comum pôr mostarda em lanches, ele só aceita pôr condimento a base de mostarda.

Era extremamente desagradável quando falava o que pensava:

– Comprei uma caixa de bombons Lacta. Adoro chocolate e só compro dessa marca que é a melhor que qualquer outra. – Falou sem se importar com fato de eu ter recebido, de outro convidado, outra caixa de bombons de outra marca.

– Sorvete bom é flocos e só da Nestle. – comentou certa vez na fila do caixa do supermercado. Enquanto expunha o seu ponto de vista olhei sem graça para o rapaz que estava atrás de nós na fila do supermercado com um pote de sorvete de banana de uma marca um pouco duvidosa. Qualquer outro sabor não gosta, embora nunca tenha provado.

Às vezes, era tão ridículo que chegava a ser patético: quase morri de vergonha quando resolveu entrar numa vídeo locadora com o capacete na cabeça – nada do que eu disse fez mudar de ideia – parecia um verdadeiro lunático.

Seu mundo só cabia uma pessoa: a mãe. A escolhida incondicionalmente, é uma boa senhora, que faz o que é preciso para ver o único filho, cujo pai nunca o reconheceu, feliz. Sempre me tratou muito bem e sempre fui bem-vinda a sua casa.

Se recusava a amadurecer apesar dos quase trinta anos, provavelmente, que enquanto o padrasto o ignorar e a mãe – a sua grande paixão e a única razão de sua existência estiver ali para protegê-lo – não precisa crescer.

Hoje é o dia do seu aniversário. Deve ser por isso que me lembrei dele e de sua eterna mania de não se tornar adulto.

14/11/2.005

Candidata a amiga

     Por: Josaine Airoldi

Ter uma amiga na turma em que eu estudava sempre foi um desejo meu.

Sempre que eu conseguia fazer amizade com alguma menina na turma acontecia o seguinte: eu passava e a candidata a melhor amiga era reprovada ou parava de estudar porque tinha engravidado do namorado ou iria embora para outra cidade…

Com a Vanderleia foi assim:

Por “convite” feito pelo professor de Matemática eu tive que assistir às aulas de recuperação terapêutica.

– Ela passou, mas seria interessante que frequentasse as aulas de Matemática para reforço. – disse aquele professor à minha mãe.

Eu tinha verdadeiro pavor daquele homem que não conseguia assimilar que eu não precisava passar mais tempo na sua presença.

Eu havia conseguido alcançar à média, mesmo que isso lhe contrariasse profundamente.

Se ele foi capaz deixar o filho da diretora da escola, após o período letivo o que não faria comigo – eu pensava sempre.

Como não conseguia compreender o horário das aulas, eu ia à escola no horário normal e ficava esperando as aulas de Matemática que, às vezes, eram os últimos períodos.

A pior parte foi quando meu pai resolveu nos levar para a colheita de cana numa chácara que pretendia vender.

– Eu não posso faltar à aula. – Explicava.

– Bobagem. Vamos todos. Vocês irão de Kombi com o Paulo.

O passeio foi muito bom.

O lugar era muito bonito.

Fazia jus ao nome: Figueira Grande.

Fizemos piquenique.

Conhecemos crianças que trabalhavam com foices e facões.

Conversei muito com a Patrícia que apesar de sempre frequentar a sua casa e comparecer as suas festas nunca fiz parte da sua turma.

No outro dia estava em pânico, com medo de ser reprovada.

Como chegava sempre cedo pude escorada no muro da escola copiar a matéria.

O professor não falou nada a respeito da minha ausência na aula anterior.

Até me chamou para resolver uma expressão numérica no quadro, quando percebeu que o Genésio não sabia resolvê-la.

Ainda estava tremendo quando ouvi que todos deveriam saber resolver a operação como eu sabia.

No dia da entrega de boletins encontrei Vanderleia convicta que tinha sido aprovada para a 5ª série e que a irmã tinha sido reprovada, porém aconteceu o contrário do que ela tinha previsto.

Sempre foi assim quando eu conseguia fazer amizade com alguma menina na turma acontecia o seguinte: eu passava e a candidata a melhor amiga era reprovada ou parava de estudar porque tinha engravidado do namorado ou iria embora para outra cidade…

Realmente, eu estava predestinada a ser um ser solitário.

04/12/2.010

As balas

         Por: Josaine Airoldi

Num dia enquanto tentava me equilibrar num ônibus lotado, tive uma sensação muito estranha.

Senti-me protegida sem ser tocada.

Olhei para cima havia um braço másculo, mas não consegui ver de quem era.

Isso só foi possível quando o dono do braço desceu na parada seguinte.

Estava ainda mais bonito e mais alto do que eu me lembrava.

Eu sabia que havia casado com uma garota que eu conhecia de vista e que o casamento não tinha dado certo.

O que fez com que eu sentisse pena dele e muita raiva dela; como ela pode traí-lo? – Eu pensei quando ouvi essa história.

Eu o conheci quando tinha meus sete ou oito anos.

Estava na primeira ou segunda série.

Ia sempre comprar balas após a aula num armazém perto da escola.

Que idade ele tinha nunca fiquei sabendo.

Sei que era mais velho que eu.

As balas a mais do que a minhas parcas moedinhas pagavam vinham um sorriso.

Ele sempre foi gentil comigo e acho que com todas as crianças que por ali passavam.

 Mas naquele dia ele não me atendeu, nem sempre ele estava ali.

Quem me atendeu foi o pai dele.

Antes eu não ter entrado ali naquele dia.

Também não me lembro do porquê de querer tomar Coca-Cola depois da aula.

Mas me recordo perfeitamente que rapidamente colocou a tampinha na garrafa do refrigerante, dizendo que eu não tinha dinheiro suficiente e guardou a garrafa novamente no freezer.

 O que faltava era muito pouco.

 O que não foi pouco foi a minha humilhação que senti vendo a garrafa sendo retirada das minhas mãos.

  Como senti falta do Paulo Ricardo naquele dia.

          26/11/2.010

Triângulo amoroso tupiniquim

Por: Josaine Airoldi

A história era para ser minha e do Moacir, mas o destino não quis. – disse certa vez Jussara.

Como contra o destino não há como lutar – assim alguns acreditam – tornou-se a história de Moacir e Jurema.

Jussara gostava do Moacir.

Moacir, talvez gostasse de Jussara.

Jurema também gostava do Moacir.

Enquanto Jussara acreditando que seria feliz para sempre com Moacir numa casinha que não fosse de sapê, Jurema anuncia que engravidou.

Talvez o desenlace desse folhetim fosse diferente se não houvesse a presença do filho nessa história.

O fato é que diante do acontecido, ao pai não restou alternativa – o casamento entre Jurema e Moacir era necessário e urgente – mesmo sabendo o quanto magoaria Jussara – a filha mais querida.

Tempos depois Jussara não suportando a desilusão bem longe dali foi morar e com outro se casou.

Assim tristes ficaram os três.

Cada um escondendo suas dores e decepções com frágeis máscaras.

Moacir na bebida encontrou acalento.

Jurema na mágoa mergulhou.

Jussara percebendo que nem sempre encontraria abrigo, naquele que escolheu para substituir Moacir, filho com ele, nunca quis ter.

Sempre que esse assunto é trazido à tona, percebo o olhar distante dela, como tivesse tentando se convencer que não era para ser.

Quem de nós poderá saber?

29/04/2.020