As gurias bárbaras

Por: Josaine Airoldi

Elas fediam a xixi. Mesmo após o banho fediam a xixi. A casa inteira fedia a xixi. O cheiro de tudo que era referente a elas era insuportável.

Como tudo sempre pode ficar pior, a presença delas se intensificou quando minha avó pediu ajuda da mãe delas para cuidar dos animais que criava.

Sinceramente eu não tenho nada contra a Marlene, principalmente porque ela não fedia a xixi e me considerava inteligente. 

A minha rixa era com suas filhas que por mais que apanhassem não ficavam meninas educadas e sem cheiro de xixi.

Certo dia, uma delas ocupou um espaço que era meu. Qualquer outra criança eu não me importava; porém ela e a irmã eu não suportava que o usassem. Tive que agir logo e agi:

– A tua mãe está chegando! – inventei.

Ela correu para o portão, libertando-o de imediato.

Eu ganhei desta vez! – pensei – porém o sentimento de vitória logo perdeu o sentido porque, ficou estagnada no portão.  Era muito burra para compreender que não tinha ninguém vindo.

Eu sempre tive um senso absurdo de responsabilidade sobre tudo e sobre todos. Receava que pudesse acontecer alguma ruim com ela caso não saísse daquele portão.

– É mentira a tua mãe não veio ainda! – Gritei.

– Sai dai! – Supliquei.

– Vem brincar no meu balanço! – Apelei.

A raiva ia aumentando enquanto eu me aproximava mais e mais do portão na tentativa vã de tirar ela dali. Quando a mãe desembarca do ônibus, sai disparadamente em direção à parada. Respiro de certa forma aliviada, a responsabilidade de cuidar delas não era mais minha.

Numa tarde sinto algo metálico nas minhas pernas. Por ciúme, a guria bárbara mais nova me atacou com o resto do que um dia foi um guarda-chuva. Segurei o menino chorando com toda a força que eu tinha para não deixá-lo cair até que minha avó viesse em nosso socorro.  Eu descobri, mais tarde, o quanto poderia ser ainda mais cruel. 

A bárbara menor -sempre ela – simplesmente estrangulou e enterrou todos os meus pintinhos carijós por pura maldade e inveja.  Eles eram meus, ninguém tinha direito de tirá-los de mim.  Não havia cascudos que recebesse naqueles cabelos sebosos e cheios de piolhos que aliviasse a minha dor.      

Certa vez me vinguei delas. Estávamos em pleno inverno.  As ruas não eram asfaltadas como até hoje não são e por isso alagam facilmente, então a Prefeitura jogava várias camadas de areia e enquanto a “patrola” não vinha para espalhá-la nós nos divertíamos naqueles imensos morros de areia.

O meu primo Almenir, que gostava de me defender – gosto de pensar assim – aprontou com a nossa ajuda – minha e da minha irmã, uma vingancinha saborosa.

– Todos tem que se enterrar na areia. Essa é a brincadeira. Anunciamos, imponentes de cima da areia. 

Imediatamente ficou definido – por nós – que as pessoas a terem o privilégio de iniciar a brincadeira eram elas. Nós teríamos o trabalho de auxiliá-las nessa empreitada. O que fizemos com muito prazer. Vê-las soterradas na areia sem poder se mover e sendo atacadas por formigas – que não estavam previstas – foi muito divertido. Quase aliviou toda a mágoa e raiva que eu sentia por elas. É claro que nós não nos enterramos.

Certa vez ao me dirigir para o caixa do supermercado percebi que talvez fosse a Clarice – a bárbara mais velha – a operadora.  Pensei em mudar de atendente, mas se fosse realmente ela perceberia a minha atitude. Tinha que ter certeza, por isso imediatamente olhei para o crachá e enfrentei a situação. 

– Não se lembra de mim? – ela me perguntou como se tivesse lendo meus pensamentos.

– Claro! – Apesar de estar bem diferente.

– Depois de três filhos a gente muda bastante.

Sorri sem graça tentando disfarçar a inveja que senti daquela criatura. Ser mãe era o que eu mais desejava e não estava obtendo muito sucesso. 

Não tive coragem para perguntar a respeito de Marlene, apesar de ser o único interesse que eu tinha em conversar com ela, uma vez que era inevitável. 

23/11/2.010

O retrato

Por: Josaine Airoldi

Olho o retrato. 

Nele há duas meninas muito parecidas e diferentes ao mesmo tempo.

Olho o retrato.

Nele está registrado uma lembrança da infância.

Olho o retrato.

Nele estão duas irmãs que fizeram o melhor que puderam do que delas resultaram. 

Olho o retrato.

30/06/2.010

Meu anjo

Por: Josaine Airoldi

– Meu anjo!

– De onde vem isso?

– Sei lá tirei da minha cabeça.

Tantas coisas não ditas.

Tantas coisas ditas.

Tantas coisas ditas e não compreendidas.

Tantas coisas não ditas e compreendidas.

Meu anjo.

Tudo termina como começa.

30/06/2.010

A história da prova ou a prova de História

Por: Josaine Airoldi

Ela era uma professora implacável conosco.

Todos tinham que ter um comportamento mais que perfeito.

Os textos eram ditados numa velocidade que só sendo muito ágil para conseguir acompanhá-la.

O conteúdo era esmiuçado de todas as formas de exercícios possíveis: questionário, cruzadinha, complete...  em provas que tinham em torno de cinco folhas mimeografadas – que às vezes, ficavam apagadas precisando que nós arrumassem.

Então, ninguém entendeu o porquê de se afastar da sala de aula em uma das últimas provas do ano.

Quem ficava no lugar dela era a professora de Língua Portuguesa que em posse das respostas deixadas com ela, enquanto a professora de História se afastava, misteriosamente se propôs a nos dar as respostas da prova, suplicando que não contasse nada do que acontecia ali para ninguém.

Nós achávamos muito esquisito tudo aquilo.

Sempre gostei de História. Sempre gostei de Língua Portuguesa, ainda mais quando há uma relação.

Suspeito que era combinado para que tivéssemos nota, pois certamente haveria reprovação em massa em História na 5ªsérie.

Será?

28/05/2.020

Gadeias

Por: Josaine Airoldi

Ela me  causou vários problemas. Era um dos motivos preferidos da mãe para brigar comigo.  -Assim começou o seu relato.

Quando estava tudo bem lá em casa ela resolvia cuidar do meu cabelo. A pergunta e a explicação eu já conhecia de cor:

– Cadê a tua escova? Quero pentear essas tuas “gadeias”. Geralmente eu não sabia, até porque eu a odiava.

As “gadeias” em questão eram o meu cabelo loiro, comprido e embaraçado. Em virtude disso eu tinha até uma característica particular: eu era “gadelhuda.”

Ela não tinha paciência nem comigo nem com ele: escova-o com raiva puxando-o com força e quando estava de mau-humor amarrava-o com mais força ainda.

Tudo ficava pior quando encontrava piolhos no meu cabelo, o que não era nada difícil, pois eu era um criadouro deles. Ainda sinto o cabo de madeira sendo  batido com toda a força na minha cabeça.

Numa das eternas busca pela escova perdida encontrei-a entre os resíduos de lixo que haviam sido queimados no pátio.  Estava parcialmente queimada, principalmente nas cerdas.

Ficamos em silêncio, por um longo tempo, ouvindo o barulho da chuva que caia incessantemente e indiferente a nós e a nossas memórias.

Certa vez… – ela retoma como se voltasse para o momento que estava prestes a narrar.   – Quando foram chamados os alunos cujos pais queriam a famosa e tradicional: Lembrança Escolar, embora tivesse ensaiado várias possibilidades de solicitar que a professora fizesse algo diferente do rigoroso rabo de cavalo com o meu cabelo que minha mãe tinha feito – usando a minha maravilhosa escova, não tive coragem: tinha um medo terrível dela também.

Enquanto penso em dizer algo para amenizar a dor que essa lembrança lhe traz, ela continua…

A minha irmã que nunca teve uma escova exclusiva como eu e nunca teve cabelos embaraçados, os cabelos dela eram lisos ao extremo, os quais gostava de cortá-los escondida atrás do fogão a gás se tornou cabeleireira e tem escovas de todos os formatos e utilidades. Sabe como ninguém manuseá-las entre um corte e um penteado.

Eu continuo desgrenhada… – Diz rindo e encerrando assim nossa conversa sobre esse assunto e se servindo de mais vinho.

23/11/2.010

Aos domingos

Por: Josaine Airoldi

Visita dos primos aos domingos era sinal de refrigerante na minha casa.

– Vão buscar. – Ouvíamos sempre.

Íamos – todos eufóricos pelo reencontro  – segurando firme os “cascos”  que balançavam dentro das sacolas. Como não tínhamos geladeira por não ter luz elétrica – voltávamos o mais rápido possível – os refrigerantes não podiam “esquentarem”.

Assim estávamos quando de repente uma garrafa cai, espatifa-se no chão. Fico por alguns segundos olhando o líquido se esvaindo no asfalto quente do mês de fevereiro. 

Fico com a cabeça baixa esperando que algum adulto viesse em meu socorro e  milagrosamente aconteceu:

– Não foi culpa tua, em dia isso acontece muito: as garrafas simplesmente explodem.

Logo o assunto perdeu a importância e fomos para a rua brincar como sempre fazíamos.

Recordando essa história – consigo lembrar daquela garotinha olhando abismada para os  cacos deixados pelo caminho e desejando ser amparada quando mais precisava…

Domingo almoço na minha casa.

                                          30/06/2.010