Zé Gralha

Por: Josaine Airoldi

– Meu nome é José Oliveira – Essa é uma das frases que sempre dizia.

Ainda mais quando descobriu que chamávamos de Zé Gralha. Não me recordo o que motivou  tal acunha. Sei que não gostou nem um pouco. Zé Gralha era um homem muito bonito, mas a cachaça – raramente ficava sóbrio –  e o excesso de exposição ao sol envelheceram ele antes do tempo.

Certa vez, depois de um longo período ausente reapareceu.

Estava vivo para nosso espanto. Ríamos muito, lembrando que havia sido encomendado uma missa em homenagem a sua memória.

O fato é que havia recebido uma indenização generosa por ter sido atropelado enquanto vagava solitário por uma estrada qualquer.

Mesmo assim retornou – como sempre precisava de um lugar para ficar por um tempo.

Um dia foi embora e nunca mais voltou…

 06/11/2.021

Amigas para sempre?

Por: Josaine Airoldi

Esperteza ou inteligência.

Eu, a inteligente.

Ela, a esperta. 

Quem tem mais chances na vida adulta?

Eu sempre achei que fosse a esperteza, pois se tem ou não tem. Não é algo que se adquire estudando.

Mesmo assim, para mim, gostar de estudar era a única coisa que me tornava superior a  ela. 

Ouvi certa vez após, relatar esse pensamento a um amigo na sala dos professores:

– Quem é ela atualmente?

Não soube responder,  mas subitamente lembrei-me de uma conversa que tivemos  numa sala de espera de um consultório:

– Tenho um filho de sete anos.

Combinamos que eu seria a madrinha de seu primeiro filho ou filha – enquanto ela batizava minha boneca.

– Eu não casei. Não tenho filhos… Fiz faculdade…

Parece que é uma obrigação: nascer…. Crescer… Casar…  Procriar… e Morrer…

– Moramos com a mãe.

De todos os filhos e filhas, a única que ficou cuidando da mãe foi ela que sempre soube que embora tivesse sido acolhida – por aquela família – não era bem-vinda.

– Continuamos morando todos juntos.

– Lembra daquele dia de chuva.

– Lembro sim.  

Até hoje me pergunto – o poderia ter sido diferente se tivéssemos esperado alguém nos vir buscar. – pensei, mas não falei; com certeza não entenderia. 

– E as gurias e teu pai?

– Estão bem.

-Tem que aparecer lá em casa para colocarmos a conversa em dia.

– Qualquer dia eu vou.

– Faz tempo que a tua mãe se foi.

– Faz sim. 

Os médicos nunca souberam dizer qual foi a causa, escreveram simplesmente: falência múltipla dos órgãos… –  estava me preparando para dar essa explicação, mas não perguntou.  

– Está demorando…

– É!

Não fomos amigas para sempre…

Nós nos perdemos? 

Não, seguimos caminhos óbvios.

Eu segui estudando.

Ela continuou fazendo o que sempre fez de melhor desde criança: limpar e organizar a casa dos outros.

Noto o quanto é feliz na simplicidade de saber viver bem com o que tem.

Realmente, a sua esperteza sempre me incomodou.

– É sua vez. – diz a recepcionista sorrindo.

30/06/2.010

Uma história puxa outra:

https://lembrarparanaoesquecerinfo.data.blog/2020/05/13/os-tiradores-de-sangue/

A descoberta da inocência

Por: Josaine Airoldi

– Quer ficar no meu lugar? O trabalho é simples. O lugar é pequeno. Não há muito a ser feito.

– Quero sim! 

Cheguei explicando…

– Minha prima me mandou.

– Ótimo! – respondeu entusiasmado. 

– Posso começar amanhã mesmo à tarde. Estudo pela manhã – respondi esperançosa, era uma ótima oportunidade para uma garota de 17 anos.

Rapidamente me mostrou tudo e explicou as minhas atribuições.

Se ateve numa recomendação:

– Isso é importante: anotar aqui tudo o que não tivermos, caso alguém procure.

Olhei o papel ao lado do caixa e pensei: isso é fácil.

No outro dia, me deu as boas vindas e saiu dizendo que voltaria logo em seguida, o que não aconteceu nem naquele dia nem nos demais.

Voltando quis saber:

– Tudo bem por aqui. 

– Tudo! – respondi sorrindo, tentando demonstrar tranquilidade.

– Algum medicamento a ser encomendado?

– Está anotado.

Olhando minhas anotações…

– Esse eu preciso encomendar. 

– Esse não, porque nós temos.

Depois que me recuperei do susto – pois não poderia demonstrar incompetência – respondi:

– Eu procurei em todos os setores: nos comprimidos, nos injetáveis,… E nada.

– Não procurou aqui nesse balcão.

Olhei aparvalhada.

– Eu nunca achei que procurasse esse produto pela marca…

O fato é que nenhuma figura de linguagem foi capaz de fazer com que ele não percebesse que eu não sabia o que era Jontex.

05/01/2.010

Aquele olhar

Por: Josaine Airoldi

Não sei se me viu, eu desviei os olhos rapidamente. 

Talvez por ele. Talvez por mim. Talvez por nós.

Certa vez, ao percebê-lo finalmente, deixei-o entrar na minha vida, porém  ao olhá-lo com profundidade, vi o que não desejava, e não o quis mais.

Não aceitou e reagiu da pior maneira. O que eu fiz?

Procurei me afastar cada vez mais. 

Fiquei sabendo – depois – pela tia que o socorreu – que não tinha sido a primeira vez que era internado, por causa da dependência de álcool.

Disse, também, que não tinha culpa pelo comportamento auto-destrutivo do sobrinho.

Agradeci e procurei pensar em outra coisa naquele dia.

Embora, até hoje, eu saiba que não tinha o  direito de deixá-lo achar que poderíamos dar certo juntos.

Mas aquele olhar…

 02/07/2.010

O coitadinho

Por: Josaine Airoldi

Eles foram morar conosco: minha mãe, meu pai, minhas irmãs, minhas tias, avós, por certo tempo, quando a mãe dele ficou doente e os outros filhos estavam criados e moravam em Porto Alegre. 

Ele era terrível.  Estava sempre fazendo o que não devia, na opinião dos adultos. Para mâe, ele era sempre o coitadinho.  Ela o protegia, por mais que aprontasse, e ele me protegia. Eu o adorava por isso.

Lembro da vez que minha irmã do meio não se adaptou de jeito nenhum à escola e voltava para casa dizendo que não havia aula. Então, era comum eu ter que levá-la novamente. Ele sempre se prontificava para fazer isso no meu lugar, mas tinha que ser na bicicleta da minha tia. O que irritava profundamente a minha avó, que apesar disso emprestava, após muitas recomendações.

Eu adorava ficar na sua companhia, não interessava fazendo o quê.

Certa quarta–feira chuvosa; recolhemos tudo que era possível interessar ao dono do Ferro Velho, colocamos numa carroça e ele vendeu. Meu pai quase enlouqueceu quando descobriu a limpeza que nós realizamos no pátio de casa, mas só ele foi responsabilizado. Esse é um dos dias que guardo com mais carinho. Ainda posso sentir os pingos de chuva sob a minha pele e alegria de ter podido retribuir tudo o que fazia por mim.

Era comum, também, me ajudar a cuidar da minha irmã caçula. Ele a enrolava com todo o cuidado, colocava-a no carrinho e a embalava até que dormisse e podíamos completar juntos a revistinha: Coquetel.

Apesar de termos quase a mesma idade, estranhamente me sentia protegida, sempre quando estava por perto.

Quando adolescente encantava as meninas da escola, e a mim também, embora nunca soube disso…

16/10/2.010

Com carinho e afeto

Por: Josaine Airoldi

Eu nunca fui escolhida para nenhuma apresentação nos tempos de escola. Nunca tive o perfil predileto das professoras.

Nessa apresentação todos poderiam participar: era para as mães.

Todos compraram um cartão com uma mensagem muito bonita, que eu lia sempre: “Retrato de mãe” – era a história de um viajante que agradecia a sua mãe por tudo o que havia lhe ensinado…

Minha mãe tinha outros planos para aquele dia – me levar pela primeira e única vez para tirar tiririca do brejo – material com o qual fabricava as peças de artesanato. 

Enquanto sacolejava na carroça ia imaginando como estava sendo a apresentação.

Desde então a canção ficou para sempre na memória, atualmente um pouco modificada: “Eu tinha tanto pra lhe falar; mas só com palavras eu não sabia dizer: como era grande o meu amor por ela que se foi cedo demais…”

23/07/2.020

O almoço

Por: Josaine Airoldi

Hoje parece engraçado a história que minha amiga nos conta enquanto saboreamos um delicioso almoço feito por ela, mas na época em que ocorreu o fato não foi – tanto que    percebo o quanto isso ainda a incomoda, apesar das inúmeras risadas que ecoam ao narrar o fato acontecido.

Mesmo sendo crianças, o pai levava-os para a pedreira – trabalho árduo, mas necessário em vista das poucas condições de criá-los como desejava.

Era tudo escasso: alimentação, afeto, inocência…

Certa vez o irmão, que na falta de condições de assumir outra tarefa por ser “doido” – era encarregado de esquentar o almoço, acrescentou umas tábuas recolhidas próximo de onde estavam, para que o fogo não se extinguisse.

De repente, um cheiro forte foi sendo espalhado pelo ar. 

Foi então que perceberam que se tratava de restos de um caixão que estava ardendo em chamas e impregnando a comida e impossibilitando-a para consumo.

Naquele dia as frutas que, pacientemente esperavam para serem colhidas por quem se interessasse por elas, serviram de almoço.

A loucura te exime de um sofrimento que a lucidez não permite

Às vezes, ter consciência pode ser cruel, pois nos faz guardar na memória coisas que não se quer lembrar, que afloram sem consentimento ao ser aguçado por uma situação. 

01/02/2.020

Aquela que corta o bolo

Por: Josaine Airoldi

Aniversário na escola. 

Tem bolo na hora do intervalo, trazido às pressas.

Todos reunidos na sala dos professores na hora do intervalo.

Uns se certificando de quanto ainda restam de seus 15 minutos de descanso.

Outros, meio constrangidos por não saber que havia alguém de aniversário.

Alguns indiferentes a tudo em volta, mas tentando se manter interessados no acontecimento e se possível saborear a iguaria a tempo.  

De repente a pergunta ecoa no ar:

– Eu, cortar o bolo?

Já presenciei por diversas vezes essa situação, embora a contemplada queira fingir surpresa, com a importante missão: cortar o bolo e distribuí-lo aos demais; a pergunta soa mais como uma afirmação.

Há pessoas que se fazem necessárias… 

Elas sempre têm o que comentar em qualquer ocasião. 

Elas sempre estão à vontade em qualquer ambiente. 

Elas estão sempre atentas às necessidades dos demais.

Elas são bem-vindas em todos os grupos, tribos, seitas…

São aquelas que cortam o bolo…

30/06/2.010

Eu …

Por: Josaine Airoldi

Está frio.

Estou novamente sozinha em casa.

Às vezes, gosto desse espaço: físico e mental.

Outras vezes, não.

Sou bicho esquisito.

Sou bicho estranho.

Sou bicho inconstante.

Sou bicho não mutante.

Às vezes, paixão.

Às vezes, solidão.

Sou o que me proponho a ser?

Ora sim, ora não.

A cada manhã me questiono por que eu?

A cada manhã me questiono o que tenho a fazer?

A cada manhã me questiono o que quero realmente?

A cada manhã, novo recomeço ou eterno retrocesso?

28/09/2.010