Santa Louca

Por: Josaine Airoldi

Minha irmã tinha um medo danado que seus preciosos bicos fossem doados àquela triste e sofrível criatura, que até onde eu sei nunca fez mal a ninguém.  

Sempre mancando e maltrapilha – usava uma saia muito curta que deixava aparecer a calcinha com rendinhas e um monte de bicos pendurados no pescoço. Vinha não sei de onde e ia para não sei onde.

Diziam que ela tinha tido uma recaída – depressão pós-parto – nome mais adequado aos dias de hoje. Eu achava a palavra engraçada e não conseguia entender como alguém poderia enlouquecer apenas por ter encontrado o marido dormindo com a irmã dela, que era quem estava cuidando do filho recém-nascido abandonado por ela. 

Por que a chamavam de Santa Louca eu nunca soube. O que eu sei é que ela ficou para sempre no meu imaginário.  

05/05/2.020

É como andar de bicicleta

“Que possamos lembrar somente dos bons momentos.”

Por: Josaine Airoldi

                                                                            

É como andar de bicicleta – alguns dizem quando querem se referir ao que nunca esquecemos, uma vez aprendido, mas esquecem-se como é difícil aprender.

Os adultos em volta diziam que era fácil: é só se  equilibrar e pedalar.

Eu não conseguia: ou me equilibrava ou pedalava. As duas coisas juntas não eram possíveis: o chão era o limite.

Ela, a bicicleta na qual eu tentava – sem muito sucesso andar – não tinha rodinhas. Eu também não tinha mais idade para uma daquelas. Era uma Caloi 10. Enorme para mim. Além disso, não era minha. Era da minha tia que sabia andar e costumava nos levar na garupa de vez em quando.

Eu aprendi a andar de bicicleta depois de… 

Ter levado muitos tombos…

Ter ralado os joelhos…

Ter machucado os cotovelos…

Entre outras coisas que acontecem com quem quer aprender a andar de bicicleta…

Quando tivemos a nossa bicicleta. Era para eu andar primeiro – disseram.

Minha irmã não me deixou ter esse prazer, mesmo com os pneus murchos ela deu a primeira pedalada. Caiu logo em seguida, mas foi quem andou primeiro.

Era vermelha. Não tinha muitos detalhes, mas era indicada para meninas por ser mais leve e fácil de andar.  

Chamávamos de Moto Laser era o nome de um seriado que passava na televisão aos domingos.

Muito nos divertimos com ela: eu e minha irmã.

Ela, a Moto Laser e todas aventuras que nos proporcionou são algumas coisas que gosto de lembrar para não esquecer…

15/03/2.020

A banda

“Naquele tempo ser baliza era o máximo…”

Por: Josaine Airoldi

Reunião.

Blá! Blá! Blá! Blá! Bla!…

Intervalo, enfim!

Banda da escola. Expectativa total. Estão no começo. Bem no começo. Nós seremos a sua primeira plateia.

Todos têm uma história para contar sobre banda escolar.

Olho em volta somos da mesma geração.

Entram ordenadamente.

Direita volver.

Esquerda volver.

Nada mudou.

A mente viaja. Escola Tomaz. Início da década de 80. Época em que era obrigatória a perfeição nos desfiles cívicos. Desfilávamos marchando. Esquerdo. Direito. Esquerdo. Direito… Olhar rente a cabeça do colega da frente. Uniforme impecável. Impecável também tinha que ser a nossa apresentação. Ensaiávamos quase todas as tardes durante o mês de agosto.

Sempre fui alta. Ficava por isso no final da coluna. Além disso, era desengonçada.

O fato é que mesmo de lá eu a via. Linda. Magnífica. Bailava e encantava a frente dos batalhões enquanto ouvia-se o som da banda municipal.

Eu sabia que nunca ocuparia aquele posto, mas desejava.

Naqueles tempos idos, não era proibido sonhar.

21/ 07/ 2.010