Popularidade abaixo de zero

Por: Josaine Airoldi

Levanta a mão a menina que quis ser popular na escola!

Sempre quis ser popular. Sempre achei que toda menina deseja isso.

Poderia ser: ter algo para contar, ou para quem contar. Ser a mais inteligente. Para mim, qualquer coisa servia…

Ah! Mas tinha coleguinhas que eram bastante populares.

Ela era muito bonita e…

Havia o pedágio que ela cobrava das demais meninas da Escola para que pudessem usar o

banheiro.

Quem não tinha como “pagar” passava por debaixo de suas pernas abertas.

Certa vez fui convidada para ir a sua casa após a aula. Nunca cheguei. Embora fosse perto, mas não foi porque era na direção contrária ao meu trajeto.

Estávamos indo, eu extremamente feliz por conseguir esse convite.

Quando…

Um carro para de repente. Um homem sai correndo. Junta desesperado um menino do chão coloca-o no carro. Sai em disparada. Então vemos outro menino completamente abalado, sem entender direito o que havia acontecido. Ficou assim o resto o ano ou da vida, não sei.

Às vezes, vejo essas imagens e me pergunto e se fosse em outro dia…

Na época e bem depois só tive uma amiga de infância.

Ela era muito popular. Todos gostavam dela. Exceto a sua família. Era adotada e parecia que tinha que pagar eternamente por ter sido acolhida, mas na minha família ela sempre tinha vez.

Certa vez encontrou um, penico.

Isso mesmo um penico no meio do lixo perto da escola onde estudávamos.

Não teve duvida. Lavou-o. Deixou secar e saiu com ele na cabeça. Todos riam de sua atitude.

Eu?

Estava com ela.

Minha quase xará…

Nunca me esqueci dela.Fez xixi na sala de aula.

Recordo dela em pé.

Apontando para o chão.

Virou assunto na escola.

Todos condenaram a professora Beatriz.

Afinal, ela tinha pedido para ira ao banheiro.

Por muito tempo foi assunto preferido da escola.

Ela era alta, rechonchuda e…

… A preferida dos que não levavam lanche.

Ela levava: quase meio quilo de pão caseiro:

– Minha mãe é quem faz! – dizia sempre, orgulhosa.

O pão em questão era recheado com salame e queijo, talvez margarina ou outra coisa qualquer.

O lanche era devorado com os olhos por muitos.

Repartia? Claro! Com os “irmãos.”

Não como os de verdade. Era filha única. Os irmãos eram dois colegas que a convenceram brincar que eram irmãos na hora do lanche e somente nesse momento. Então ela sorria um sorriso gordo.

Eu olhava aquilo não acreditando, como poderia ser tão burra de acreditar num história dessas. Parecia que o pão não tinha fim.

Eu os observava. Ela se comprazia em barganhar com eles. Não era o lanche que eu queria.

Ela…

…Tinha uma história triste da qual só recordo que morava com a madrinha numa casa muito bonita, perto da escola.

A madrinha lhe proporcionava tudo que uma garota naquela idade e naquela cidade poderia desejar.

Tinha todos os produtos que apareciam: “Os Menudos”.

Lembro-me também que sempre dizia:

– Máquina lava! – enquanto jogava futebol, descalças, usando nos pés apenas meias alvíssimas.

Eu nesse momento só pensava: será que ficarão novamente branquinhas essas meias…

Acho que isso não importava a ela.

Apenas, por alguns momentos e por razões completamente inusitadas, inesperadas ou não propositais fui o “centro” das atenções dos meus “coleguinhas” de escola.

Certa vez, o bilhete…

Era para a professora – raríssimos, mas esse existiu.

Velório em Porto Alegre.

Tenho que sair mais cedo.

Eu não iria ao velório.

Eu tinha que estar em casa para ajudar no quê, eu não recordo.

Também nunca compreendi o porquê do bilhete ter sido lido em voz alta. Enfim…

As meninas, todas, sentadas em volta de mim – eu recordo muito bem.

Queriam saber detalhes a respeito do velório de um primo que nunca conheci.

Tinha pouquíssima informação. Tinha que estar em casa mais cedo. Não tinha com responder a tantas perguntas. Lamentei por muito tempo.

Fui embora mais cedo desejando que aquele momento durasse para sempre.

Certa vez fui para a escola: vestida para arrasar…

A roupa era da minha tia, que resolveu brincar de boneca comigo.

Cheguei à escola.

As meninas ficam curiosas querendo saber onde tinha comprado.

Ainda atordoada e surpresa com tantas perguntas respondia meio débil a todas:

– Não é minha, é da minha tia.

Foi um momento estranho e mágico ao mesmo tempo.

Devolvi a ela agradecida por ter me proporcionado aquele momento em que todos os olhares se voltaram para mim ou para a roupa que estava vestindo, para mim não importava muito: fiquei popular na escola.

Ela, tempos depois deu a saia azul com bolsos e a blusa branca com detalhes coloridos para a minha irmã.

Sempre quis saber: por que não para mim?

30/ 06/ 2.010

Uma história puxa outra!

https://lembrarparanaoesquecerinfo.data.blog/2020/09/13/candidata-a-amiga/

3 comentários sobre “Popularidade abaixo de zero

  1. Olá Josaine , comecei a ler os seus textos . Comecei pelas crônicas , me identifiquei com duas até o momento : Meus fantasmas e esta coletânea Popularidade abaixo de zero Gosto do seu estilo com parágrafos curtos, sucintos e até por vezes vagos que dão a oportunidade ao leitor para interpretar à sua maneira.
    Estou adorando e com certeza vou ler todos seus posts. Inté

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