À mestra com carinho

Por: Josaine Airoldi

Quando o encontrei não tive dúvida: ele era perfeito.  Recolhi e levei-o para casa.

No outro dia todos estavam em volta da professora a presenteando.

Não entreguei, fiquei com receio, de que me dissesse algo desagradável perante a turma.

Ela sempre foi cruel comigo, talvez também tenha sido com os demais colegas, não sei.

Estávamos na terceira série no ano de 1983. 

Ela certa vez criou o “Pelotão da higiene”. Eram cinco alunos preferidos que faziam parte desse grupo.

Nos minutos finais da aula eles entravam em ação. Eu – uma dos não preferidos – tinha que colocar as mãos sob a classe e esperar que olhassem se minhas unhas estavam limpas e cortadas, se os meus dentes estavam bem escovados, se os ouvidos estavam bem lavados e se o meu cabelo estava limpo e livre de piolhos. 

Esse era o pior momento porque eu tinha piolhos que, por mais que eu lutasse contra, eles venciam sempre; apesar disso nunca encontraram nenhum na minha cabeça; embora tivesse bastante. Na verdade eles mal nos olhavam. Tinham nojo e não mexiam no meu cabelo, que era comprido, volumoso e louro.

Também era cruel quando não levava o material pedido para as atividades de Educação Artística. Eu era colocada no grupo. dos que não trouxeram o material solicitado. Neste grupo recopiávamos um texto, sempre enorme. Graças a esse método eficiente consegui decorar um dos textos que passou durante aquele ano: O cachorro e a sombra.

Também tinha o caderno da professora. Cada dia um aluno tinha que escrever naquele caderno e depois copiar o conteúdo para o seu próprio caderno. Quando minha vez chegou, eu me perdi totalmente. Copiei para ela; mas não consegui copiar para mim. O conteúdo? Ainda sei qual é: Zona rural e zona urbana. Conteúdo da prova tempos depois. Eu não sabia absolutamente nada do que se tratava.

A ironia ficou por conta do Leandro. Leandro era o aluno repetente e por isso se considerava capaz de colaborar com a aula da professora. Eu achava engraçado o fato dela se irritar profundamente com as intervenções que fazia durante a aula. Ele conseguia perturbá-la tanto que ela chegou ao extremo de nos transmitir uma informação equivocada para que Leandro a corrigisse. Mas isso não ocorreu. Ela mesma teve corrigir. Depois de explicação o indagou:

-Leandro por que não me corrigiu?

Ele calmíssimo diante da declaração bombástica dela respondeu:

– É muito simples professora esse conteúdo eu não tive ano passado.

Soube que o marido estava preso – ouvindo uma conversa da minha mãe com a minha avó e deduzi que devia para alguém quando pedia para que segurasse o seu material para despistar quando avistava um carro vindo ao longe. Era comum murmurar:

– Segura isso para mim, ele não pode perceber que estou trabalhando.

Embora sabendo de tudo isso, nunca consegui usar essas informações valiosas a meu favor. 

Um dia, compreendi o quanto foi bom não ter dado o presente à professora. 

Percebi isso num supermercado na seção dos condimentos. 

Eu iria dar uma embalagem de plástico de sal retirada da lixeira do edifício onde meus tios passavam as férias, à querida professora no seu dia.

O chapéu que tanto me impressionou é na verdade a tampa. 

Devo dizer em minha defesa que embora tenha uma memória excelente tenho também déficit de atenção. 

Muitos anos depois conversei com ela pelo telefone. Ela queria fazer um pedido de frutas e verduras para que meu pai levasse até o estabelecimento comercial tal.

Reconheci na hora aquela voz, porém nada disse. Anotei tudo. Disse que iria repassar a encomenda naquele momento mesmo. Ouvi antes que desligasse o telefone um comentário dela, talvez para o marido ou coisa assim.

– Ela é tão quietinha!

Ela também sabia quem eu era.

15/10/2.010

Uniforme

     Por: Josaine Airoldi

Naquela tarde eu e a Vanderleia ficamos no pátio da escola vendo a legião de pessoas que se aglomeravam na porta da sala de aula, para receberem um corte de tecido branco – para a camisa e outro corte de tecido azul marinho – para a saia ou para a calça – no caso dos meninos.

Tanto eu – por meu pai ser caminhoneiro e minha mãe ser artesã e a Vanderleia, pelo pai ser construtor e a mãe ser dona de casa – se não me engano – não éramos consideradas alunas de baixa renda, por isso não recebemos o uniforme distribuído pela prefeitura.

No outro ano, além dos pedaços de tecidos, havia um suéter azul marinho os quais todos receberam, independente da situação financeira.

A exigência quanto ao uso do uniforme era rigorosíssima.

Geni, que estudava comigo na terceira série, certa vez teve que ir embora: estava sem o uniforme.

Certa vez, tio Pedro que vendia roupas e vinha de vez em quando para Tramandaí, apresentou um abrigo horrível preto, que era uma das cores permitidas para uniforme – minha mãe não teve dúvidas quando percebeu que a numeração era muito maior do que o eu realmente usava.

Eu tentei várias vezes rasgá-lo.

Não adiantava era de linho e dos bons, para meu azar.

Ninguém tinha igual na escola.

04/12/2.010

O caminho

Por: Josaine Airoldi

Ter uma bicicleta e morar perto da escola foram fundamentais para a terceira série da qual eu fazia parte, ganhar a gincana em homenagem ao dia das crianças em 1.983

Eu não tinha nenhum dos dois requisitos.

Talvez, por isso a professora não tenha me deixado participar da comemoração, me expulsou, ou melhor, me enxotou. Acho que foi por maldade mesmo. Até hoje não consigo entender o motivo.

Enquanto eu tentava dizer: “eu não posso ir embora, não sem a minha irmã, ela batia o pé com força no chão e gritava:

– Vai embora…

Lembro que abaixei a cabeça e no caminho rasguei o poema que havia levado – não tinha sido necessário e, além disso, não tinha sido criado por mim.

Tentando esconder os olhos inchados, enfim, cheguei em casa. Fui recebida com uma enxurrada de xingamentos seguidos de perguntas, mas nenhuma foi…

– O aconteceu contigo para ter vindo para casa sozinha chorando?

30/06/2.010

Eclipse

Por: Josaine Airoldi

Recriou no seu mundo particular e solitário o mundo exterior.

Com o passar do tempo a solidão começou a incomodá-lo.

Procurou-a e atraiu de seu modo.

Aos pouco foi percebendo que a princesa escolhida queria desbravar a imensidão que é o mundo real e precisava de alguém como ele, por isso o aceitou.

Ela lhe deu o frescor da juventude.

Ele lhe deu a segurança do homem adulto.

Embora, poucas vezes um tenha participado do mundo do outro, ao modo deles, foram felizes.

Ora, se até o sol e a lua se encontram durante um eclipse,  é possível que aconteça o mesmo com quem prefere a fantasia a realiadade e com quem prefere a realidade a fantasia, às vezes.

09/11/2.010

Habilidades e competências

Por: Josaine Airoldi

Segunda-feira.

Amanhece.

Manhã gelada.

Tenho que levantar.

Penso e repenso nos prós e contras.

O telefone que está na sala toca.

Ignoro.

Ele toca novamente.

Não desistem.

Levanto após muito esforço. 

Não era nada de importante.

Poderia não ter atendido, mas atendi e para atendê-lo levantei; se me levantei vou ter que ir.  

Banheiro.

Escovar os dentes.

Banho

Toalha.

O que vestir?

Qualquer roupa que me mantenha aquecida.

Saio.

Percebo que está mais frio do que eu imaginava.

Chego.

Todos reunidos.

Tento não ser notada.

Sento sem fazer muito barulho.

Já basta chegar atrasada.

Não consigo me concentrar.

Preciso estar aqui?

Posso não estar?

Talvez.

Aqui estou: congelada.

Não sinto os meus pés.

Estão paralisados.

Escuto sem muita vontade.

O assunto do momento é: habilidades e competências.

Grupo.

Aceitação.

Diferenças.

Autossuficiência.

Autonomia.

Ao longo dos anos nessa profissão descobri que algumas coisas jamais irão mudar e que fazem parte do processo.

Descobri que se escrever, mesmo que bobagens o tempo passa mais rápido.

Então escrevo.

Escrevo para conseguir aguentar o frio congelante do mês de julho.

Escrevo sobre o quê?

Não é importante sobre o que escrever.

O importante é escrever.

Aprisionar os pensamentos que estão à solta na tentativa da manutenção da sanidade mental.

O tempo está passando mais rápido agora.

O frio está diminuindo, pois o sol está se impondo..

Continuo escrevendo: trechos da palestra.

Trechos de conversas paralelas ao meu redor.

Trechos de algumas constatações óbvias olhando tudo em volta.

Jamais vou conseguir realizar tudo o que deixei para trás.

Não vou ser popular na escola, embora eu ainda esteja na escola.

Não vou ser uma exímia dançarina.

Há coisa que se não acontecem no tempo que tem que acontecer nunca se tornarão reais.

Não vou ser uma boa cozinheira, simplesmente não gosto de cozinhar, embora acho esse ofício sublime.

Talvez, possa continuar sendo uma boa amiga, uma filha compreensiva, uma irmã presente, uma mãe carinhosa, uma esposa companheira, uma profesora eficiente… Para uma existência,  talvez basta.

Afinal, certas habilidades são para certas pessoas que têm certas competências ou vice-versa.

21/ 07/ 2.019

A história da prova ou a prova de História

Por: Josaine Airoldi

Ela era uma professora implacável conosco.

Todos tinham que ter um comportamento mais que perfeito.

Os textos eram ditados numa velocidade que só sendo muito ágil para conseguir acompanhá-la.

O conteúdo era esmiuçado de todas as formas de exercícios possíveis: questionário, cruzadinha, complete...  em provas que tinham em torno de cinco folhas mimeografadas – que às vezes, ficavam apagadas precisando que nós arrumassem.

Então, ninguém entendeu o porquê de se afastar da sala de aula em uma das últimas provas do ano.

Quem ficava no lugar dela era a professora de Língua Portuguesa que em posse das respostas deixadas com ela, enquanto a professora de História se afastava, misteriosamente se propôs a nos dar as respostas da prova, suplicando que não contasse nada do que acontecia ali para ninguém.

Nós achávamos muito esquisito tudo aquilo.

Sempre gostei de História. Sempre gostei de Língua Portuguesa, ainda mais quando há uma relação.

Suspeito que era combinado para que tivéssemos nota, pois certamente haveria reprovação em massa em História na 5ªsérie.

Será?

28/05/2.020

O Bico Fino

Por: Josaine Airoldi

Certa vez fomos a sua casa: eu e a Gorete. Eram em torno das 19 horas. Quando vi aquela cena, achei inacreditável: estava sentado à frente da televisão, concentradíssimo assistindo ao RBS Notícias, com as pernas cruzadas e nos pés um sapato ilustradíssimo de bico fino. Assim permaneceu, sem demonstrar qualquer entusiasmo pela nossa presença. Então, o apelidamos de Bico Fino.

Na nossa concepção adolescente, havia algo errado, pois aquele rapaz era para estar interessado em nós e não no que estava acontecendo de importante no mundo e principalmente, usar como qualquer adolescente, tênis.

A mãe fazia o que podia para ver o filho namorando uma de nós. Éramos as convidadas especiais em todos os aniversários. Acompanhava-o no nosso aniversário. A parte divertida desses encontros ficava por conta dos irmãos menores, que eram bem engraçados.

De vez em quando, nos encontrávamos, ele de bicicleta voltando do trabalho, eu a pé, voltando da Escola, conversavamos sobre frivolidades e outras coisas, até chegarmos na rua onde morávamos.

Quando completou 18 anos se alistou e para seu descontentamento foi convocado. Não seguiu carreira militar. Quando voltou para casa, começou a namorar uma menina que não conhecíamos e aos poucos fomos nos afastando.

Eu achava que não iria durar o namoro, que era apenas momentâneo, pois a garota parecia ser o avesso de nós. Quando ela engravidou. Foram morar juntos na casa da mãe dele.

Tempos depois, às vezes, nos encontrávamos e conversávamos sobre tudo e nada de importante, como antigamente enquanto esperávamos o ônibus para irmos ao trabalho.

Apenas por educação perguntava pelas meninas. Dizia que eram meninas lindas e parecidas com ele.

– Estão bem. – Respondia com timidez e certo orgulho.

Inevitavelmente eu olhava para seus pés.

22/11/2.010

O filho do carvoeiro

Por: Josaine Airoldi

Perto da minha casa havia uma família que produzia carvão.

Eram conhecidos como: os carvoeiros.

Na chácara onde moravam tinha um portão altíssimo e em cima tinha a cabeça de boi ou vaca com uns chifres enormes que eu e a Nane apelidamos de Valério.

Valério era um menino chato que defendia as formigas que, na falta de algo melhor para fazermos, gostávamos de matá-las.

Certa vez, apareceu outro menino.

Era franzino, bem mais velho que nós, com sardas no rosto e com cabelo meio avermelhado.

Nós morríamos de inveja dele por ter uma bicicleta, mas como não queríamos que ele percebesse fingíamos que estávamos muito bem indo e vindo a pé da escola todos os dias.

O que fazia ele inventar maneiras diferentes de passar por nós todos os finais de tarde.

Fez tanto até que conseguiu chamar a atenção.

Parou a nossa frente, retirou da sacola um pote, abriu-o, bezuntou o dedo, lambendo–o logo em seguida.

O que é isso? – queríamos saber.

– É chimila – respondeu.

– Chimia! – Corrigimos.

 – Não, chimila! – Repetiu

Apelidamos de Chimila, o filho do carvoeiro, que a partir daquele momento passou a ser oficialmente nosso amigo.

19/05/2.020

Santa Louca

Por: Josaine Airoldi

Minha irmã tinha um medo danado que seus preciosos bicos fossem doados àquela triste e sofrível criatura, que até onde eu sei nunca fez mal a ninguém.  

Sempre mancando e maltrapilha – usava uma saia muito curta que deixava aparecer a calcinha com rendinhas e um monte de bicos pendurados no pescoço. Vinha não sei de onde e ia para não sei onde.

Diziam que ela tinha tido uma recaída – depressão pós-parto – nome mais adequado aos dias de hoje. Eu achava a palavra engraçada e não conseguia entender como alguém poderia enlouquecer apenas por ter encontrado o marido dormindo com a irmã dela, que era quem estava cuidando do filho recém-nascido abandonado por ela. 

Por que a chamavam de Santa Louca eu nunca soube. O que eu sei é que ela ficou para sempre no meu imaginário.  

05/05/2.020