O Bico Fino

Por: Josaine Airoldi

Certa vez fomos a sua casa: eu e a Gorete. Eram em torno das 19 horas. Quando vi aquela cena, achei inacreditável: estava sentado à frente da televisão, concentradíssimo assistindo ao RBS Notícias, com as pernas cruzadas e nos pés um sapato ilustradíssimo de bico fino. Assim permaneceu, sem demonstrar qualquer entusiasmo pela nossa presença. Então, o apelidamos de Bico Fino.

Na nossa concepção adolescente, havia algo errado, pois aquele rapaz era para estar interessado em nós e não no que estava acontecendo de importante no mundo e principalmente, usar como qualquer adolescente, tênis.

A mãe fazia o que podia para ver o filho namorando uma de nós. Éramos as convidadas especiais em todos os aniversários. Acompanhava-o no nosso aniversário. A parte divertida desses encontros ficava por conta dos irmãos menores, que eram bem engraçados.

De vez em quando, nos encontrávamos, ele de bicicleta voltando do trabalho, eu a pé, voltando da Escola, conversavamos sobre frivolidades e outras coisas, até chegarmos na rua onde morávamos.

Quando completou 18 anos se alistou e para seu descontentamento foi convocado. Não seguiu carreira militar. Quando voltou para casa, começou a namorar uma menina que não conhecíamos e aos poucos fomos nos afastando.

Eu achava que não iria durar o namoro, que era apenas momentâneo, pois a garota parecia ser o avesso de nós. Quando ela engravidou. Foram morar juntos na casa da mãe dele.

Tempos depois, às vezes, nos encontrávamos e conversávamos sobre tudo e nada de importante, como antigamente enquanto esperávamos o ônibus para irmos ao trabalho.

Apenas por educação perguntava pelas meninas. Dizia que eram meninas lindas e parecidas com ele.

– Estão bem. – Respondia com timidez e certo orgulho.

Inevitavelmente eu olhava para seus pés.

22/11/2.010

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