Estou deixando você ir

Josaine Airoldi

Estou deixando você ir.

Finalmente entendi que não vai ser como sonhei.

Culpa de quem? Não tem mais importância, aliás nada mais tem importância. Sejam nossos (meus) planos de vida a dois, as viagens que não fizemos, a convivência com seus, meus e nossos amigos, as conversas que poderíamos ter tido…

Você não quis sair do conforto do que já conhecia para construir uma história só nossa.  Não fui capaz de conseguir fazer você mudar de ideia. Tenho certeza que eu tentei, porém tem coisas que de tanto se insistir acabam por se tornarem irrelevantes. 

Só agora, não mais um casal – entendi o porquê me casei contigo. Eu criei a ilusão de uma vida quase perfeita juntos, porque temos (tínhamos) várias coisas em comum: profissão, objetivos semelhantes, pais e mães parecidos e com o mesmo tipo de relação e principalmente tinha admiração pelo modo que se sentia à vontade em qualquer situação. Contínuo acreditando no seu talento  como professor, como político… mas continuo acreditando também que não basta ter potencial, é preciso fazer bom uso disso e só vai conseguir isso no momento que “crescer” e assumir que é responsável por seus atos. 

Não percebi que a sensação de cuidado e atenção era falsa.  Outro fator é que de alguma forma é parecido com a minha mãe, com a qual tive um relacionamento péssimo.  Acho que inverti a teoria do Freud que diz que a mulher procura na figura masculina, o pai. Eu queria me sentir protegida pela minha mãe na infância. Acho que inconscientemente achei que faria me sentir protegida como queria que ela tivesse feito.   

Consegui perdoar a minha mãe a partir do momento que compreendi o quanto o meu pai foi responsável pelos acessos de descontrole dela. Comportamento que eu estava repetindo, devido a sua necessidade de reproduzir o seu ambiente familiar para sentir que tudo estava sob controle. Por mais que eu lhe propusesse construir uma história nova, só nossa, nunca aceitou. 

O resquício de consideração que havia você conseguiu desfazer, quando ficou esperando a sua mãe lhe defender.  Quando não assumiu uma atitude que, de alguma forma, eu ainda tinha esperanças que tivesse.  

Enquanto o empurrava porta fora, eu finalmente consegui deixar você ir, embora já estávamos separados desde outubro de 2.022, foi só agora que consegui sentir que não tinha restado nenhum sentimento.  Nunca quis ficar mesmo. Fez de tudo para que eu lhe mandasse embora.  Nem para isso foi capaz.

Realmente, quando se está num relacionamento tóxico é muito difícil entender que se não é louca, só está sendo levada a achar isso porque o outro tem necessidade de auto afirmação e se “alimenta” de seu descontrole de tempos em tempos. 

Enfim, estou deixando você ir…

10/06/2025