Eclipse

Por: Josaine Airoldi

Recriou no seu mundo particular e solitário o mundo exterior.

Com o passar do tempo a solidão começou a incomodá-lo.

Procurou-a e atraiu de seu modo.

Aos pouco foi percebendo que a princesa escolhida queria desbravar a imensidão que é o mundo real e precisava de alguém como ele, por isso o aceitou.

Ela lhe deu o frescor da juventude.

Ele lhe deu a segurança do homem adulto.

Embora, poucas vezes um tenha participado do mundo do outro, ao modo deles, foram felizes.

Ora, se até o sol e a lua se encontram durante um eclipse,  é possível que aconteça o mesmo com quem prefere a fantasia a realiadade e com quem prefere a realidade a fantasia, às vezes.

09/11/2.010

Habilidades e competências

Por: Josaine Airoldi

Segunda-feira.

Amanhece.

Manhã gelada.

Tenho que levantar.

Penso e repenso nos prós e contras.

O telefone que está na sala toca.

Ignoro.

Ele toca novamente.

Não desistem.

Levanto após muito esforço. 

Não era nada de importante.

Poderia não ter atendido, mas atendi e para atendê-lo levantei; se me levantei vou ter que ir.  

Banheiro.

Escovar os dentes.

Banho

Toalha.

O que vestir?

Qualquer roupa que me mantenha aquecida.

Saio.

Percebo que está mais frio do que eu imaginava.

Chego.

Todos reunidos.

Tento não ser notada.

Sento sem fazer muito barulho.

Já basta chegar atrasada.

Não consigo me concentrar.

Preciso estar aqui?

Posso não estar?

Talvez.

Aqui estou: congelada.

Não sinto os meus pés.

Estão paralisados.

Escuto sem muita vontade.

O assunto do momento é: habilidades e competências.

Grupo.

Aceitação.

Diferenças.

Autossuficiência.

Autonomia.

Ao longo dos anos nessa profissão descobri que algumas coisas jamais irão mudar e que fazem parte do processo.

Descobri que se escrever, mesmo que bobagens o tempo passa mais rápido.

Então escrevo.

Escrevo para conseguir aguentar o frio congelante do mês de julho.

Escrevo sobre o quê?

Não é importante sobre o que escrever.

O importante é escrever.

Aprisionar os pensamentos que estão à solta na tentativa da manutenção da sanidade mental.

O tempo está passando mais rápido agora.

O frio está diminuindo, pois o sol está se impondo..

Continuo escrevendo: trechos da palestra.

Trechos de conversas paralelas ao meu redor.

Trechos de algumas constatações óbvias olhando tudo em volta.

Jamais vou conseguir realizar tudo o que deixei para trás.

Não vou ser popular na escola, embora eu ainda esteja na escola.

Não vou ser uma exímia dançarina.

Há coisa que se não acontecem no tempo que tem que acontecer nunca se tornarão reais.

Não vou ser uma boa cozinheira, simplesmente não gosto de cozinhar, embora acho esse ofício sublime.

Talvez, possa continuar sendo uma boa amiga, uma filha compreensiva, uma irmã presente, uma mãe carinhosa, uma esposa companheira, uma profesora eficiente… Para uma existência,  talvez basta.

Afinal, certas habilidades são para certas pessoas que têm certas competências ou vice-versa.

21/ 07/ 2.019

A história da prova ou a prova de História

Por: Josaine Airoldi

Ela era uma professora implacável conosco.

Todos tinham que ter um comportamento mais que perfeito.

Os textos eram ditados numa velocidade que só sendo muito ágil para conseguir acompanhá-la.

O conteúdo era esmiuçado de todas as formas de exercícios possíveis: questionário, cruzadinha, complete...  em provas que tinham em torno de cinco folhas mimeografadas – que às vezes, ficavam apagadas precisando que nós arrumassem.

Então, ninguém entendeu o porquê de se afastar da sala de aula em uma das últimas provas do ano.

Quem ficava no lugar dela era a professora de Língua Portuguesa que em posse das respostas deixadas com ela, enquanto a professora de História se afastava, misteriosamente se propôs a nos dar as respostas da prova, suplicando que não contasse nada do que acontecia ali para ninguém.

Nós achávamos muito esquisito tudo aquilo.

Sempre gostei de História. Sempre gostei de Língua Portuguesa, ainda mais quando há uma relação.

Suspeito que era combinado para que tivéssemos nota, pois certamente haveria reprovação em massa em História na 5ªsérie.

Será?

28/05/2.020

O Bico Fino

Por: Josaine Airoldi

Certa vez fomos a sua casa: eu e a Gorete. Eram em torno das 19 horas. Quando vi aquela cena, achei inacreditável: estava sentado à frente da televisão, concentradíssimo assistindo ao RBS Notícias, com as pernas cruzadas e nos pés um sapato ilustradíssimo de bico fino. Assim permaneceu, sem demonstrar qualquer entusiasmo pela nossa presença. Então, o apelidamos de Bico Fino.

Na nossa concepção adolescente, havia algo errado, pois aquele rapaz era para estar interessado em nós e não no que estava acontecendo de importante no mundo e principalmente, usar como qualquer adolescente, tênis.

A mãe fazia o que podia para ver o filho namorando uma de nós. Éramos as convidadas especiais em todos os aniversários. Acompanhava-o no nosso aniversário. A parte divertida desses encontros ficava por conta dos irmãos menores, que eram bem engraçados.

De vez em quando, nos encontrávamos, ele de bicicleta voltando do trabalho, eu a pé, voltando da Escola, conversavamos sobre frivolidades e outras coisas, até chegarmos na rua onde morávamos.

Quando completou 18 anos se alistou e para seu descontentamento foi convocado. Não seguiu carreira militar. Quando voltou para casa, começou a namorar uma menina que não conhecíamos e aos poucos fomos nos afastando.

Eu achava que não iria durar o namoro, que era apenas momentâneo, pois a garota parecia ser o avesso de nós. Quando ela engravidou. Foram morar juntos na casa da mãe dele.

Tempos depois, às vezes, nos encontrávamos e conversávamos sobre tudo e nada de importante, como antigamente enquanto esperávamos o ônibus para irmos ao trabalho.

Apenas por educação perguntava pelas meninas. Dizia que eram meninas lindas e parecidas com ele.

– Estão bem. – Respondia com timidez e certo orgulho.

Inevitavelmente eu olhava para seus pés.

22/11/2.010

O filho do carvoeiro

Por: Josaine Airoldi

Perto da minha casa havia uma família que produzia carvão.

Eram conhecidos como: os carvoeiros.

Na chácara onde moravam tinha um portão altíssimo e em cima tinha a cabeça de boi ou vaca com uns chifres enormes que eu e a Nane apelidamos de Valério.

Valério era um menino chato que defendia as formigas que, na falta de algo melhor para fazermos, gostávamos de matá-las.

Certa vez, apareceu outro menino.

Era franzino, bem mais velho que nós, com sardas no rosto e com cabelo meio avermelhado.

Nós morríamos de inveja dele por ter uma bicicleta, mas como não queríamos que ele percebesse fingíamos que estávamos muito bem indo e vindo a pé da escola todos os dias.

O que fazia ele inventar maneiras diferentes de passar por nós todos os finais de tarde.

Fez tanto até que conseguiu chamar a atenção.

Parou a nossa frente, retirou da sacola um pote, abriu-o, bezuntou o dedo, lambendo–o logo em seguida.

O que é isso? – queríamos saber.

– É chimila – respondeu.

– Chimia! – Corrigimos.

 – Não, chimila! – Repetiu

Apelidamos de Chimila, o filho do carvoeiro, que a partir daquele momento passou a ser oficialmente nosso amigo.

19/05/2.020

Santa Louca

Por: Josaine Airoldi

Minha irmã tinha um medo danado que seus preciosos bicos fossem doados àquela triste e sofrível criatura, que até onde eu sei nunca fez mal a ninguém.  

Sempre mancando e maltrapilha – usava uma saia muito curta que deixava aparecer a calcinha com rendinhas e um monte de bicos pendurados no pescoço. Vinha não sei de onde e ia para não sei onde.

Diziam que ela tinha tido uma recaída – depressão pós-parto – nome mais adequado aos dias de hoje. Eu achava a palavra engraçada e não conseguia entender como alguém poderia enlouquecer apenas por ter encontrado o marido dormindo com a irmã dela, que era quem estava cuidando do filho recém-nascido abandonado por ela. 

Por que a chamavam de Santa Louca eu nunca soube. O que eu sei é que ela ficou para sempre no meu imaginário.  

05/05/2.020

Não tinha lugar para mim

Por: Josaine Airoldi

Estávamos voltando da escola quando o caminhão passou por nós, sai em disparada, gritando para os que – supostamente ficariam para trás – que iria embora de carona. Como meu pai não parou, fiquei paralisada no meio da rua sob o sol escaldante de setembro,  suportando meus colegas rindo de mim.

Meu pai me disse quando cheguei em casa,  que eu poderia machucar minha irmãzinha, por isso  não tinha lugar para mim.

Mesmo tendo só 9 anos minha infância tinha sido decretada como acabada pela minha mãe e meu pai a partir daquele dia, afinal eu era a mais velha, então teria que cuidar da irmã mais nova –  aquela que tanto tinha pedido, desesperadamente, para os aviões que avistava percorrendo o céu; trouxesse e teria que continuar tendo um comportamento exemplar para a irmã do meio,  que também não gostou da sua nova função na família.

Onde minha condição de criança ficava nessa equação?

16/04/2.020

P.S. Somente agora é que soube que os “TDAH” tem baixíssima tolerância a qualquer tipo de rejeição. Minha irmã está com 42 anos e eu sempre que leio ou lembro desse texto eu me vejo naquela manhã de setembro.

17/09/2.025

É como andar de bicicleta

“Que possamos lembrar somente dos bons momentos.”

Por: Josaine Airoldi

                                                                            

É como andar de bicicleta – alguns dizem quando querem se referir ao que nunca esquecemos, uma vez aprendido, mas esquecem-se como é difícil aprender.

Os adultos em volta diziam que era fácil: é só se  equilibrar e pedalar.

Eu não conseguia: ou me equilibrava ou pedalava. As duas coisas juntas não eram possíveis: o chão era o limite.

Ela, a bicicleta na qual eu tentava – sem muito sucesso andar – não tinha rodinhas. Eu também não tinha mais idade para uma daquelas. Era uma Caloi 10. Enorme para mim. Além disso, não era minha. Era da minha tia que sabia andar e costumava nos levar na garupa de vez em quando.

Eu aprendi a andar de bicicleta depois de… 

Ter levado muitos tombos…

Ter ralado os joelhos…

Ter machucado os cotovelos…

Entre outras coisas que acontecem com quem quer aprender a andar de bicicleta…

Quando tivemos a nossa bicicleta. Era para eu andar primeiro – disseram.

Minha irmã não me deixou ter esse prazer, mesmo com os pneus murchos ela deu a primeira pedalada. Caiu logo em seguida, mas foi quem andou primeiro.

Era vermelha. Não tinha muitos detalhes, mas era indicada para meninas por ser mais leve e fácil de andar.  

Chamávamos de Moto Laser era o nome de um seriado que passava na televisão aos domingos.

Muito nos divertimos com ela: eu e minha irmã.

Ela, a Moto Laser e todas aventuras que nos proporcionou são algumas coisas que gosto de lembrar para não esquecer…

15/03/2.020

Embruxada

Por: Josaine Airoldi

Minha irmã caçula herdou do meu pai os olhos azuis que tanto a minha mãe desejou durante a gravidez e também as crises de asma do meu avô.

Foi benzida por todas as curandeiras da cidade, inclusive minha avó que tinha o costume de “coser” os males de quem precisasse e pedisse.

Foram ensinadas inúmeras simpatias para curá-la. Todas feitas a risca. Nenhuma, até hoje, surtiu efeito.

Certa vez, alguém sugeriu que a menina estava embruxada, por isso continuava tendo crises e não se curava.

– Como assim, embruxada? Havia uma bruxa entre nós? – Eu me questionava.

A conversa dos adultos continuava indiferente a minha expressão de medo e espanto, ouvindo tudo aquilo.

– Isso mesmo. A bruxa é a primeira pessoa que vier aqui amanhã. – Explicou aquela que parecia entender bastante do assunto. Era preciso que essa pessoa deixasse de ter contato com a criança para as crises acabassem.

Quase não dormi naquela noite. Precisava conferir quem era a bruxa. Será que seria igual as que apareciam em livros e filmes que passavam na televisão?

Eu tinha certeza que a bruxa – aquela que estava causando todo o mal – era uma senhora muito feia e se assemelhava a uma criatura das trevas – que era muito amiga da família e frequentemente estava lá em casa.

Qual não foi a surpresa de todos quando a tia Wilma chegou. Não conseguia olhar para ela. Ela era muito engraçada, sempre nos fazia rir muito de qualquer coisa, além disso, nunca havíamos falar em bruxa loira.

Não me recordo com foi recebida por nós, mas todos que a conheceram guardam com carinho boas lembranças suas.

Não sei se a tia Wilma ficou sabendo que era uma bruxa, mas se soube, certamente, deu muitas gargalhadas.

16/05/2.020

Uma história puxa outra!

O ultimo adeus https://wp.me/pbBYGl-hP