Amigas para sempre?

Por: Josaine Airoldi

Esperteza ou inteligência.

Eu, a inteligente.

Ela, a esperta. 

Quem tem mais chances na vida adulta?

Eu sempre achei que fosse a esperteza, pois se tem ou não tem. Não é algo que se adquire estudando.

Mesmo assim, para mim, gostar de estudar era a única coisa que me tornava superior a  ela. 

Ouvi certa vez após, relatar esse pensamento a um amigo na sala dos professores:

– Quem é ela atualmente?

Não soube responder,  mas subitamente lembrei-me de uma conversa que tivemos  numa sala de espera de um consultório:

– Tenho um filho de sete anos.

Combinamos que eu seria a madrinha de seu primeiro filho ou filha – enquanto ela batizava minha boneca.

– Eu não casei. Não tenho filhos… Fiz faculdade…

Parece que é uma obrigação: nascer…. Crescer… Casar…  Procriar… e Morrer…

– Moramos com a mãe.

De todos os filhos e filhas, a única que ficou cuidando da mãe foi ela que sempre soube que embora tivesse sido acolhida – por aquela família – não era bem-vinda.

– Continuamos morando todos juntos.

– Lembra daquele dia de chuva.

– Lembro sim.  

Até hoje me pergunto – o poderia ter sido diferente se tivéssemos esperado alguém nos vir buscar. – pensei, mas não falei; com certeza não entenderia. 

– E as gurias e teu pai?

– Estão bem.

-Tem que aparecer lá em casa para colocarmos a conversa em dia.

– Qualquer dia eu vou.

– Faz tempo que a tua mãe se foi.

– Faz sim. 

Os médicos nunca souberam dizer qual foi a causa, escreveram simplesmente: falência múltipla dos órgãos… –  estava me preparando para dar essa explicação, mas não perguntou.  

– Está demorando…

– É!

Não fomos amigas para sempre…

Nós nos perdemos? 

Não, seguimos caminhos óbvios.

Eu segui estudando.

Ela continuou fazendo o que sempre fez de melhor desde criança: limpar e organizar a casa dos outros.

Noto o quanto é feliz na simplicidade de saber viver bem com o que tem.

Realmente, a sua esperteza sempre me incomodou.

– É sua vez. – diz a recepcionista sorrindo.

30/06/2.010

Uma história puxa outra:

https://lembrarparanaoesquecerinfo.data.blog/2020/05/13/os-tiradores-de-sangue/

O almoço

Por: Josaine Airoldi

Hoje parece engraçado a história que minha amiga nos conta enquanto saboreamos um delicioso almoço feito por ela, mas na época em que ocorreu o fato não foi – tanto que    percebo o quanto isso ainda a incomoda, apesar das inúmeras risadas que ecoam ao narrar o fato acontecido.

Mesmo sendo crianças, o pai levava-os para a pedreira – trabalho árduo, mas necessário em vista das poucas condições de criá-los como desejava.

Era tudo escasso: alimentação, afeto, inocência…

Certa vez o irmão, que na falta de condições de assumir outra tarefa por ser “doido” – era encarregado de esquentar o almoço, acrescentou umas tábuas recolhidas próximo de onde estavam, para que o fogo não se extinguisse.

De repente, um cheiro forte foi sendo espalhado pelo ar. 

Foi então que perceberam que se tratava de restos de um caixão que estava ardendo em chamas e impregnando a comida e impossibilitando-a para consumo.

Naquele dia as frutas que, pacientemente esperavam para serem colhidas por quem se interessasse por elas, serviram de almoço.

A loucura te exime de um sofrimento que a lucidez não permite

Às vezes, ter consciência pode ser cruel, pois nos faz guardar na memória coisas que não se quer lembrar, que afloram sem consentimento ao ser aguçado por uma situação. 

01/02/2.020

Conversa de comadres

Josaine Airoldi

Certas feridas permanecem abertas por mais que o tempo passe. 

Ao culpar a tua mãe por todos os seus traumas isenta teu pai de toda responsabilidade.

Nesse eterno duelo entre a mãe má e o pai idolatrado há uma menina forte e determinada que se tornou uma mulher amargurada e fragilizada, que não consegue amar sem concessões, pois foi rejeitada, por todos aqueles que por quem esperava ser acolhida. 

Eu lhe digo isso, após me contar novamente que foi devolvida  pela família adotiva que ao saberem que uma vez registrada como filha teria direito a herança que pertencia aos filhos legítimos.

A família abastada não poderia permitir que tal absurdo acontecesse, uma vez que nem para a realização de serviços domésticos a guria servia, por isso depois de cinco anos sem nunca ter frequentado a escola era devolvida para a família biológica.

A mágoa aumenta ao relatar, outra vez, que o pai se sentiu muito humilhado ao mentir diante do juiz que não a havia dado para adoção e também porque perdeu o prazo para processá-los por tal fato tão cruel. 

A lembrança que tenho do teu pai é de um homem muito bonito, altivo, curioso, que não combinava com aquele ambiente quase agreste,  sem luz elétrica e sem água encanada…

Lembro-me, também que, enquanto ele se aprazia com nossa companhia embaixo de uma figueira frondosa naquele janeiro de sol escaldante a tua mãe: uma senhora de estatura média, rechonchuda, que apesar de estar muito feliz com a visita da filha estava sempre envolvida com alguma tarefa que necessitava ser feita, afinal a vida no campo não é tão simples como se imagina.  

– Já te contei que um dia meu pai quis ir embora. Queria conhecer o mundo e para isso bastava algumas peças de roupas e a gaita que lhe fazia companhia. – Digo que sim, mas ela continua falando.

– Minha mãe disse que ele poderia ir, mas que nunca voltasse, então, permaneceu ali, tendo outros filhos que tiveram que doar por falta de condições de criá-los.

– Todos voltaram conforme, minha mãe sempre dizia que iria acontecer ao nos ver partindo.   

– Eu usei tudo de ruim que aconteceu comigo como mola impulsora para chegar onde eu cheguei.

– Como que eu consegui? 

Sei que vais dizer que estou errada, mas a força e determinação que tens foram herdadas da tua mãe.

Ela finge que não entendeu e continua…

Para ela o importante não é o que eu digo e sim que eu ouça a sua verdade.

Então relata como manipulou uma pessoa muito importante no mundo dos negócios para que fizesse o que ela queria e assim conseguiu resolver o problema que estava incomodando o  alto escalão da empresa. Não estavam conseguindo vender um tipo de seguro oferecido por uma das mais importantes instituições financeiras do país.

– Ganhei muito dinheiro durante o tempo que trabalhei nesse banco.

– Tem coisas que nunca te contei, portanto não fique achando que me conhece.  

Ela fala em tom de revanche, por eu ter dito o que não quer ouvir. 

É justamente por isso que sou tua amiga durante esse tempo todo: sempre digo o penso sem me importar como digo.  

Embora, não consiga compreender ou aceitar, eu sou muito feliz com o que tenho: minha casa,  meu casamento, minha profissão, minha filha que é tua afilhada…

É no meu mundo que consegue desamarrar as amarras sociais que são tão preciosas para te manter no topo como gosta de achar que está. 

É no meu mundo que consegue ser o que realmente é. 

Mantemo-nos amigas por interesse mútuo. 

Eu sou a emoção, tu a razão. 

Uma equilibra a outra quando necessário.

Em vários momentos me fizestes enxergar a realidade, assim como te proporciono momentos de leveza e aconchego.

Afinal, amigas são para isso.

15/01/2021

Candidata a amiga

     Por: Josaine Airoldi

Ter uma amiga na turma em que eu estudava sempre foi um desejo meu.

Sempre que eu conseguia fazer amizade com alguma menina na turma acontecia o seguinte: eu passava e a candidata a melhor amiga era reprovada ou parava de estudar porque tinha engravidado do namorado ou iria embora para outra cidade…

Com a Vanderleia foi assim:

Por “convite” feito pelo professor de Matemática eu tive que assistir às aulas de recuperação terapêutica.

– Ela passou, mas seria interessante que frequentasse as aulas de Matemática para reforço. – disse aquele professor à minha mãe.

Eu tinha verdadeiro pavor daquele homem que não conseguia assimilar que eu não precisava passar mais tempo na sua presença.

Eu havia conseguido alcançar à média, mesmo que isso lhe contrariasse profundamente.

Se ele foi capaz deixar o filho da diretora da escola, após o período letivo o que não faria comigo – eu pensava sempre.

Como não conseguia compreender o horário das aulas, eu ia à escola no horário normal e ficava esperando as aulas de Matemática que, às vezes, eram os últimos períodos.

A pior parte foi quando meu pai resolveu nos levar para a colheita de cana numa chácara que pretendia vender.

– Eu não posso faltar à aula. – Explicava.

– Bobagem. Vamos todos. Vocês irão de Kombi com o Paulo.

O passeio foi muito bom.

O lugar era muito bonito.

Fazia jus ao nome: Figueira Grande.

Fizemos piquenique.

Conhecemos crianças que trabalhavam com foices e facões.

Conversei muito com a Patrícia que apesar de sempre frequentar a sua casa e comparecer as suas festas nunca fiz parte da sua turma.

No outro dia estava em pânico, com medo de ser reprovada.

Como chegava sempre cedo pude escorada no muro da escola copiar a matéria.

O professor não falou nada a respeito da minha ausência na aula anterior.

Até me chamou para resolver uma expressão numérica no quadro, quando percebeu que o Genésio não sabia resolvê-la.

Ainda estava tremendo quando ouvi que todos deveriam saber resolver a operação como eu sabia.

No dia da entrega de boletins encontrei Vanderleia convicta que tinha sido aprovada para a 5ª série e que a irmã tinha sido reprovada, porém aconteceu o contrário do que ela tinha previsto.

Sempre foi assim quando eu conseguia fazer amizade com alguma menina na turma acontecia o seguinte: eu passava e a candidata a melhor amiga era reprovada ou parava de estudar porque tinha engravidado do namorado ou iria embora para outra cidade…

Realmente, eu estava predestinada a ser um ser solitário.

04/12/2.010

O filho do carvoeiro

Por: Josaine Airoldi

Perto da minha casa havia uma família que produzia carvão.

Eram conhecidos como: os carvoeiros.

Na chácara onde moravam tinha um portão altíssimo e em cima tinha a cabeça de boi ou vaca com uns chifres enormes que eu e a Nane apelidamos de Valério.

Valério era um menino chato que defendia as formigas que, na falta de algo melhor para fazermos, gostávamos de matá-las.

Certa vez, apareceu outro menino.

Era franzino, bem mais velho que nós, com sardas no rosto e com cabelo meio avermelhado.

Nós morríamos de inveja dele por ter uma bicicleta, mas como não queríamos que ele percebesse fingíamos que estávamos muito bem indo e vindo a pé da escola todos os dias.

O que fazia ele inventar maneiras diferentes de passar por nós todos os finais de tarde.

Fez tanto até que conseguiu chamar a atenção.

Parou a nossa frente, retirou da sacola um pote, abriu-o, bezuntou o dedo, lambendo–o logo em seguida.

O que é isso? – queríamos saber.

– É chimila – respondeu.

– Chimia! – Corrigimos.

 – Não, chimila! – Repetiu

Apelidamos de Chimila, o filho do carvoeiro, que a partir daquele momento passou a ser oficialmente nosso amigo.

19/05/2.020

Os tiradores de sangue

“Naquele tempo nossos medos eram outros.”

Por: Josaine Airoldi

Esqueça o homem do saco, o bicho papão, a mula sem cabeça e todas as formas de amedrontar às crianças, nenhum deles me provocava medo.

Eu receava ser atacada pelos tiradores de sangue.

Não se trata de vampiros, embora eles também não existam.

Não sei de quem eu tinha mais medo se da minha mãe ou se deles.

Na volta da escola era sempre a mesma coisa.

Se eu a seguisse, desobedeceria minha mãe.

Se eu não a seguisse ela os acionava.

Bravamente e solitariamente eu seguia pelo caminho indicado pela minha mãe enquanto ela chamava: Os tiradores de sangue.

Embora eles nunca tivessem aparecido, eu os temia.

Ela era assim sempre tinha uma brincadeira, uma história ou uma solução para tudo.

Uma das nossas brincadeiras consistia em brincávamos de “casinha” numa casa de verdade.

 A filha dela era sempre a minha irmã.

Era em quem dava banho, colocava bastante talco e após vesti-la com a sua melhor roupa, saíamos para passear.

Ela sempre com algum sapato ou sandália de salto alto da minha tia.

 Às vezes, eu era a professora; ela a mãe preocupada.

Certa vez quando veio buscar o boletim da filha eu seriamente usei uma expressão corriqueira o cotidiano escolar:

  – Sua filha passou raspando.

Começaram a rir sem parar.

Primeiro ela depois a filha que nunca tinha frequentado a escola e não fazia a menor ideia o que significava o que eu havia falado. Isso foi o que me dava mais raiva: o poder que tinha para influenciar as pessoas.

 Fiquei profundamente chateada, ora não era para brincar com a brincadeira.

Quando era na sua casa as brincadeiras eram outras.

Fazíamos orelhas de macaco – era para serem bolinhos fritos.

Atrapalhávamos o namoro da minha tia com um dos irmãos dela.

Como não tínhamos luz elétrica eles gostavam de namorarem no escuro ou tentarem pelo menos.

 Queimar papel higiênico sujo, certa vez quase incendiei a “patente” não havia banheiro.

 Quando brincávamos trocávamos de nome.

Tínhamos nossa amiga e vizinha imaginária: a Lita.

 Também, brigávamos muito, principalmente quando ela queria fazer aquilo que eu não podia fazer.

Eu sabia que na hora de ser responsabilizada era eu quem tinha que arcar com as consequências porque ela estaria longe.

Como éramos três, é claro que eu sobrava.

Às vezes o meu primo me defendia e batia nela com uma toalha de um modo que somente ele conseguia.

Nunca brigamos fisicamente, mas eu gostava quando ele se vingava dela por mim embora eu achasse exagerada atitude dele em relação ao que havia acontecido; porém era bom me sentir protegida.

Talvez seja por isso que ela usou seu olhar malicioso para insinuar que eu tinha feito algo com ele que não fiz.

Se eu soubesse que isso somente aconteceria dez anos depois e com outra pessoa não teria ficado tão magoada e não teria ficado quase um ano sem conseguir olhar para ela.

 Só voltei a conversar com ela depois depois.

 Com certeza, ela foi minha melhor e pior amiga de infância que eu tive.

                                                                                              27/ 11/ 2.010

Unhas de bruxa

Por: Josaine Airoldi

“Criança não trabalha, criança dá trabalho” – Arnaldo Antunes

Desde criança cuidava de outras crianças para ajudar em casa.

Éramos pobres, mas ela era mais que eu; por isso acho que sempre teve condições de se sobressair melhor na selva que é a escola, pois lutava a cada dia para sobreviver às adversidades de uma infância desprovida de infância.

– Só loucos para andar de bicicleta nessa chuva. – Comentei certa ver ao ver um senhor passar de bicicleta. – Não são só loucos que fazem isso, quem precisa também. – Comentou secamente.

Então percebi que aquele que tinha passado por nós era o pai dela. 

Fiz o comentário mais para ter o que falar do que qualquer outra coisa. Ela tinha esse poder sobre mim. Sempre conseguia fazer com que me sentisse uma perfeita idiota.Estudamos vários anos juntas nas mesmas turmas. A escola era muito pequena e não havia opção de escolha e não tínhamos noção que teríamos algum direito se tivéssemos opções.

Na quinta série formávamos um quarteto: Eu, ela, Margarete e Maria Aparecida. Era a primeira vez que eu me sentia como parte de um grupo. 

Certa vez estávamos jogando vôlei no pátio da escola. De repente o menino mais bonito da escola incluiu “mor” a letra a – a última letra do seu nome dela, criando a palavra: Claudiamor e não contente ficou repetindo, para que ela não tivesse dúvidas do que queria dizer. Fiquei com muita inveja, pois não bastava jogar bem, tinha que atrair a atenção daquele que tinha os olhos mais lindos do mundo e o nome de Ângelo.

Conversávamos muito sobre quase tudo e principalmente a respeito do nosso futuro escolar. Antes que o ano terminasse Maria Aparecida foi embora para outra cidade. Não foi naquele ano que implantaram a sexta série. Margarete se “casou” e não nos seguiu. Nunca mais soube nada a respeito delas.

Nós seguimos. Estudamos muito Matemática na parada de ônibus quando ficamos em recuperação na sexta série.

Desistimos da sétima série após longa greve dos professores, embora não combinado eu não voltei e ela também não.

Foi bom; pois ao retornarmos no ano seguinte encontramos a Angelita com a qual conversamos e rimos muito quando íamos a pé para casa, para economizarmos o dinheiro da passagem e para ficarmos mais tempo juntas.

A oitava série estava passando e eu sempre com a ideia fixa que ela seria uma excelente jogadora de vôlei como a Ana Moser – quem foi criança nos anos 80 e gostava de esportes saberá imediatamente de quem se trata. Por mais que tentasse não conseguia jogar como ela. Ela era a melhor desde sempre.

Quando começou a namorar seguiu os preceitos do lugar que as gurias de Tramandaí aos 15 anos namoravam cobradores de ônibus, aos 18 namoravam garotos que estavam servindo no exército e dali por diante valia o que viesse.

Primeiro foi Edson e depois foi o Claudio, ambos, cobradores da empresa de transporte Dindinho.

Por coincidência nos encontramos no mesmo emprego. Estava de férias da escola, estava no Segundo Grau – cursava Magistério e precisa trabalhar no verão. Passava em frente de uma padaria quando li o cartaz: “Precisa-se de balconista,” como eu tinha certa experiência de empregos anteriores; achei que poderia dar conta deste.

A proprietária era uma ex-professora de Português nossa da época em que estudávamos juntas.

O emprego era horrível; mas a companhia e a destreza dela nas realizações das atividades pertinentes a nossas funções tornaram-no menos deplorável.

O verão acabou. Voltei a estudar. Perdi o contato com ela.

Ao passar pela padaria em que eu tinha trabalho a encontrei. O mesmo olhar de fibra. Rapidamente conversamos. Fiquei sabendo que havia casado e descasado. Tinha uma filha se a minha memória não me trai.

O que eu não esqueço é de suas enormes unhas. Unhas de bruxas – eu dizia – quando brigávamos.

Unhas de uma menina que teve que crescer antes da hora, é assim que me lembro dela: com carinho e com afeto.

14/10/2.010