Éramos felizes e sabíamos

Por: Josaine Airoldi

Ter sido criança na década de 80 é uma coisa muito bizarra quando comparamos aos dias atuais.

Não tínhamos muito, mas tudo que tínhamos era muito valorizado.

Os brinquedos eram latas de azeite e potes de margarina onde fazíamos comida, que consistia misturar areia com água.

Brincávamos até tarde na rua próximas a porta da cozinha para aproveitarmos a luz do lampião, reproduzindo os programas de televisão que conseguíamos ver de vez em quando.

Os desenhos animados eram politicamente incorretos.

Assistíamos no cinema Coimbra os filmes do Teixeirinha.

Às vezes, à noite íamos na casa da dona Luci enroladas em cobertores se estivesse muito frio olhar a novela das 8 horas. Apesar das indicações de censura: “Programa proibido para menores de 12 anos” – dizia uma voz – enquanto na tela da televisão havia um lembrete enorme.

Nos intervalos da novela víamos…

A Pepsi anunciando que era melhor que a Coca-Cola. Refrigerante só aos domingos e quando recebíamos visita, que vinham sem avisar, pois não havia como, pois ter telefone em casa era um luxo para poucos.

Tinha também um gurizinho que não deixava os pais esquecerem de comprar uma Caloi para ele.  

Os anúncios diziam que as donas de casa poderiam escolher entre os eletrodomésticos da Walitta e da Arno.

Os cereais anunciavam que continham mais açúcar que antes e, por isso estavam melhores ainda.

O sonho das meninas da época era ter a Melissinha que vinha com a pochetezinha.

Havia uma menina que trazia um Laka para o namorado, mas como ele demorava para encontrá-la, comia o chocolate e para compensá-lo beijava-o.

Como não lembrar das propagandas das lojas: Mesbla, Arapuã, Alfred, J.H. Santos – nenhuma existe mais.

Era comum buscávamos cigarro no armazém para os adultos para podermos comprar balas com o troco.

Entregávamos leite na casa dos vizinhos. Alguns eram simpáticos como a dona Lurdes, que nos convidava para entrar enquanto despejava o leite em outro recipiente. Outros eram antipáticos e nos deixava esperando na porta.

Comprávamos mel no seu Elpídio – velho ranzinza e mal encarado, mas que de vez em quando nos presenteava com favos de mel. 

Entregávamos a revistinha da Avon na casa das senhorinhas que, adoravam comprar perfumes adocicados com os quais enfeitavam a penteadeira no quarto.

Havia os porcos os quais costumavam fugir da “mangueira”. Acho que eles não gostavam muito desse lugar, pois seguidamente invadiam as plantações de milho e aipim dos vizinhos. Nós ficávamos envergonhadas quando nos olhávamos com pena, sabendo o motivo pelo qual perambulávamos pelo bairro, com as pernas arranhadas e roupas que rasgavam ao pular a cerca com arame farpado em busca dos fujões.

Como não nos lembrarmos dos porres de vinho com açúcar e água que tomávamos durante os almoços de domingo com os guris da Célia.

Os dias que choviam eram os melhores pois alagava tudo então podíamos brincar nas poças.

Gostávamos da chuva, também porque ela fazia com que o pai viesse para casa.

Chovendo ele não poderia trabalhar. Não podendo trabalhar vinha para casa.

Equação simples, mas gostávamos de pensar que ele vinha por termos subido em algum latão e chamado por ele.

Vindo para casa tínhamos um certo descanso do comportamento tempestuoso da minha mãe.

Nos dias quentes, íamos buscar gelo na casa da dona Luci, a mesma em que íamos para olhar televisão.

Andávamos no porta-malas do carro – inclusive era disputado pela garotada.

Havia os espertalhões que apareciam vendendo produtos excepcionais, que não passavam de engodo, o que era constatado após algum tempo, depois que já estavam distantes enganando outras pessoas.

Tinha um senhor que vinha vender frutas e verduras numa carroça pequena. Usava uma balança manual. Era sério. Quase nunca sorria. Não sabíamos o nome dele. Minha avó criou um apelido para ele, acho que era meio ofensivo, pois tinha medo que descobrisse a maneira que nos referíamos a ele.   

Era comum os pedintes serem bem acolhidos recebendo um prato de comida bem generoso e água.

Às vezes, apareciam os fotógrafos que se ofereciam para restaurar fotografias trazendo-as tempos depois em molduras ou produzir em casa um ensaio fotográfico com as crianças da família, tudo bem pitoresco.

As balas eram extremamente gostosas e perigosas, embora ninguém tivesse essa noção na época.

Se engolíssemos o cliché minha avó vinha correndo uma colher com azeite para tomarmos, se não teríamos as tripas grudadas.

Tínhamos cofrinho onde colocávamos moedas que depois eram depositadas na poupança da Caixa Econômica Federal. O cofrinho em questão era uma lata de cerveja recolhida na rua..

Minha irmã do meio tinha como hábito apanhar de meninas maiores que ela e se tornarem melhores amigas depois.

Como não lembrar da celebre frase: se não for do jeito que quero, não brinco mais.

Além dos temidos tiradores de sangue que povoavam minha imaginação de medo.

Éramos felizes e sabíamos.

11/03/2.019

Devaneios à beira-mar

Eu estava somente divagando solitária e triste.

A reunião terminou mais cedo do que eu tinha previsto.

Não estava a fim de retornar para a escola e muito menos ir para casa.

Então, me restava a praia, a imensidão azul do mar, o eterno incansável ir e vir das ondas…

Estava vestida de: professora-titular que tem reunião na escola da estagiária.

Então, tive que improvisar: tirei o calçado e arremanguei as calças para poder sentir a água gelada, mas aos poucos fui entrando um pouquinho mais…

Gosto da água do mar chegando devagarinho, me trazendo à realidade.

– Oi! Quer carona? – me perguntou!

Eu estava tão absorta nos meus pensamentos, que esqueci de todo o resto.

Olhei em direção daquela voz.

Encontrei um rapaz: jovem, bonito, simpático…Parecia preocupado comigo, não sei por quê.  De certo achou que eu era louca.

Não respondi.

Então, achando que eu não tinha entendido ou não tinha ouvido, aproximou ainda mais o carro e repetiu:

– Quer carona?

Olhei em volta a praia estava quase deserta.

As ondas do mar indiferentes a tudo e a todos.

Estava tão perdida em mim mesma que resolvi aceitar.

Durante o trajeto: contou que era representante de uma marca de calças jeans e estava voltando para Porto Alegre, naquele momento.

Ofereceu-me uma calça do mostruário – a minha estava totalmente molhada, mas não aceitei.

 Expliquei que não tinha intenção de entrar mar adentro.

Não tinha coragem para algo tão trágico.

Queria apenas um pouco da serenidade que sempre encontro ao caminhar pela beira do mar, deixando a água me levar…

O nome dele eu esqueci, mas lembro-me que beijava bem.

Lembro-me também do jeito que me olhava.

Deixou-me em casa sã e salva.

Deve ter contado para alguém que, salvou uma desconhecida, numa manhã qualquer a beira-mar de Tramandaí, da melancolia em que estava mergulhada.

Deveria ter aceitado a calça.

29/04/2.020

Eu não era ela

Por: Josaine Airoldi

Depressão após fim de namoro. Tristeza sem fim. Transferência de escola. Redução de salário. Muitas contas a pagar. Últimos semestres na faculdade. Estágios. Relatórios. Trabalhos de conclusão. Teatro da Gleydes. Artigo para a Terezinha. Formatura à vista. Tudo ao mesmo tempo. Só quem viveu sabe! 

Foi então que ela teve a ideia.  Não só isso, colocou-a em prática. Soube depois. Não tinha como ficar pior a minha vida – então aceitei.

Ela tinha selecionado cinco pretendentes numa sessão dos classificados da Zero Hora – Desafio Sentimental. Escreveu uma carta como se fosse eu, fez cópias e enviou para os perfis que achava que se encaixava com meu.

Por telefone ficou horas me instruindo como deveria falar. Mandou uma cópia da carta pelo correio. Tinha que confirmar que eu era aquilo que estava escrito. Em breve, com certeza algum deles iria entrar em contato,  tinha que estar preparada.

Já tinha esquecido dessa história quando recebi uma ligação. A voz era agradável e a conversa também. Chamava-se João Luis.

Conversávamos quase todos às noites após eu chegar da Faculdade. Era a melhor parte do meu dia ou da noite.

Relatava sobre as idas ao supermercado acompanhado pela sobrinha. Sobre o dia a dia como corretor de seguros. Sobre o que gostava de fazer nos fins de semana…

Eu gostava de conversar sobre assuntos triviais e os problemas pelos quais estava passando…

Aparentemente gostavamos de várias coisas em comum…

Como as férias de julho estavam próximas,  combinamos de nos encontrarmos quando fosse a Porto Alegre.

Minha amiga e mentora tinha que estar junto. Instruída por ela marcamos num restaurante que ficava num shopping perto da casa dela.

Ah! Eu tinha que parecer elegante, então, se me perguntasse o que eu gostaria de beber teria que dizer que era suco de laranja.  Cerveja era vulgar. Vinho era caro. Refrigerante era infantil.

Eu estava entre curiosa e em pânico. O que me dava segurança era que sempre tão articulada e esperta não deixaria eu entrar em nenhuma cilada. 

A melhor parte, sem dúvida, foi a espera pelo rapaz, porque quando nos abordou veio a primeira decepção: era feio e estava vestido com o uniforme da empresa.

Condizia com a descrição que eu havia escutado, mas não com a que eu tinha imaginado.

Após as devidas apresentações. Então, ela  avisou que daria uma volta para que pudéssemos nos conhecer melhor.

A conversa não fluiu como fluía pelo telefone.

Relatou as desaventuras que teve certa vez numa viagem que fez para o litoral. Nada interessante para um primeiro encontro. Comentou que morava em tal bairro porém trocou a localização, talvez para analisar minha reação. Nem  precisei escolher o que beber pois, não houve essa possibilidade.

Entre um relato desagradável e outro ele perguntava em que momento a minha amiga voltaria. Quando  voltou ficou encantado novamente por ela, que não tinha nenhum interesse nele. Estava casada. Estava bem assim e também não gostou dele.

Nos despedimos ali mesmo. Nunca mais me ligou. Segui a vida… Aos poucos tudo foi serenando…

Sempre rimos bastante do nosso encontro às escura a três, enfim, eu não era ela.

24/04/2.020

P.S. Em 2.025 nossa amizade completou Bodas de Pérolas. Durante os 30 anos que convivemos:  eu casei e descasei. Ela ficou viúva e casou novamente. Ela continua me indicando pretendentes e me orientando como me comportar. Analiso as opções, não gosto e continuo fazendo escolhas erradas, por minha conta e risco. 

27/10/2.025

Dindo… Du

Por: Josaine Airoldi

Meu avô tinha duas personalidades: a “normal” e a diferente.

Eu gostava mais quando estava na segunda personalidade, porque ele não ficava doente, falava com fluência, era destemido para desespero dos demais membros da família.

Eu era criança e não tinha ideia do que os adultos passavam quando surtava – ou com dizia: estava diferente.

O código era a maleta preta – que minha avó escondia, mas sempre a encontrava – sabíamos que iria começar tudo outra vez.

Era comum comprar coisas de que não necessitava de modelos e cores diferentes. Por muitos anos não foi necessário comprar garrafas térmicas.

Quem não o conhecia considerava-o um próspero criador de gado da região.

Quem o conhecia tentava ajudar, avisando minha avó dos empreendimentos que andava fazendo que cedo ou tarde, teria que desfazer.

Era comum acusar todos que tentavam em vão trazer–lhe a realidade, de querer o mal dele.

Esbraveja em alto e bom som:

– Vocês querem ver o meu mal! Vocês não querem me ver bem! Vocês gostam de me ver doente!

Saía sem rumo.

Ninguém conseguia detê-lo.

Para voltar para ao “normal” era necessário a interversão e ajuda de uma vizinha que era enfermeira: Dona Noemia.

Depois de longo período internado em num hospital psiquiátrico – em Porto Alegre – voltava sob efeito de medicação, que provocava muito sono.

Quando chovia ficava deitado nos perguntando se estava chovendo.

Quando dizíamos que sim, acrescentava:

– Mas é água!

Enquanto isso minha avó lutava contra as intempéries da natureza.

Tudo ficava mais difícil para ela, principalmente a ordenha das vacas.

Ambas personalidades ficavam extremamente irritadas quando algum desavisado ocupava o lugar dele à mesa.

Não dizia nada, apenas ficava em volta esperando a minha avó informar que aquele lugar era dele.

O mais incrível era como descrevia a festa que eu teria quando completasse quinze anos.

Dizia sempre:

– Vou te dar uma pulseira cravejada de ouro.

Numa das sessões de terapia descrevendo meu avô contei essa história.

Meu terapeuta me perguntou, com voz embargada, se eu tinha ficado decepcionada porque o desejo do meu avô não foi concretizado?

Disse que não. Nunca me importei com a festa ou com o presente. Achava divertido o modo que falava. Gostava da atenção que me dava e do fato de dizer que eu era especial para ele por ser sua primeira neta e além disso, sua afilhada.

Eu o chamava de Du, por não ser capaz de pronunciar: Dindo.

Ele se foi em outubro quando eu tinha 14 anos – seis meses depois que minha avó.

Sinto falta dos dois até hoje.

18/05/2.020

À mestra com carinho

Por: Josaine Airoldi

Quando o encontrei não tive dúvida: ele era perfeito.  Recolhi e levei-o para casa.

No outro dia todos estavam em volta da professora a presenteando.

Não entreguei, fiquei com receio, de que me dissesse algo desagradável perante a turma.

Ela sempre foi cruel comigo, talvez também tenha sido com os demais colegas, não sei.

Estávamos na terceira série no ano de 1983. 

Ela certa vez criou o “Pelotão da higiene”. Eram cinco alunos preferidos que faziam parte desse grupo.

Nos minutos finais da aula eles entravam em ação. Eu – uma dos não preferidos – tinha que colocar as mãos sob a classe e esperar que olhassem se minhas unhas estavam limpas e cortadas, se os meus dentes estavam bem escovados, se os ouvidos estavam bem lavados e se o meu cabelo estava limpo e livre de piolhos. 

Esse era o pior momento porque eu tinha piolhos que, por mais que eu lutasse contra, eles venciam sempre; apesar disso nunca encontraram nenhum na minha cabeça; embora tivesse bastante. Na verdade eles mal nos olhavam. Tinham nojo e não mexiam no meu cabelo, que era comprido, volumoso e louro.

Também era cruel quando não levava o material pedido para as atividades de Educação Artística. Eu era colocada no grupo. dos que não trouxeram o material solicitado. Neste grupo recopiávamos um texto, sempre enorme. Graças a esse método eficiente consegui decorar um dos textos que passou durante aquele ano: O cachorro e a sombra.

Também tinha o caderno da professora. Cada dia um aluno tinha que escrever naquele caderno e depois copiar o conteúdo para o seu próprio caderno. Quando minha vez chegou, eu me perdi totalmente. Copiei para ela; mas não consegui copiar para mim. O conteúdo? Ainda sei qual é: Zona rural e zona urbana. Conteúdo da prova tempos depois. Eu não sabia absolutamente nada do que se tratava.

A ironia ficou por conta do Leandro. Leandro era o aluno repetente e por isso se considerava capaz de colaborar com a aula da professora. Eu achava engraçado o fato dela se irritar profundamente com as intervenções que fazia durante a aula. Ele conseguia perturbá-la tanto que ela chegou ao extremo de nos transmitir uma informação equivocada para que Leandro a corrigisse. Mas isso não ocorreu. Ela mesma teve corrigir. Depois de explicação o indagou:

-Leandro por que não me corrigiu?

Ele calmíssimo diante da declaração bombástica dela respondeu:

– É muito simples professora esse conteúdo eu não tive ano passado.

Soube que o marido estava preso – ouvindo uma conversa da minha mãe com a minha avó e deduzi que devia para alguém quando pedia para que segurasse o seu material para despistar quando avistava um carro vindo ao longe. Era comum murmurar:

– Segura isso para mim, ele não pode perceber que estou trabalhando.

Embora sabendo de tudo isso, nunca consegui usar essas informações valiosas a meu favor. 

Um dia, compreendi o quanto foi bom não ter dado o presente à professora. 

Percebi isso num supermercado na seção dos condimentos. 

Eu iria dar uma embalagem de plástico de sal retirada da lixeira do edifício onde meus tios passavam as férias, à querida professora no seu dia.

O chapéu que tanto me impressionou é na verdade a tampa. 

Devo dizer em minha defesa que embora tenha uma memória excelente tenho também déficit de atenção. 

Muitos anos depois conversei com ela pelo telefone. Ela queria fazer um pedido de frutas e verduras para que meu pai levasse até o estabelecimento comercial tal.

Reconheci na hora aquela voz, porém nada disse. Anotei tudo. Disse que iria repassar a encomenda naquele momento mesmo. Ouvi antes que desligasse o telefone um comentário dela, talvez para o marido ou coisa assim.

– Ela é tão quietinha!

Ela também sabia quem eu era.

15/10/2.010

Uniforme

     Por: Josaine Airoldi

Naquela tarde eu e a Vanderleia ficamos no pátio da escola vendo a legião de pessoas que se aglomeravam na porta da sala de aula, para receberem um corte de tecido branco – para a camisa e outro corte de tecido azul marinho – para a saia ou para a calça – no caso dos meninos.

Tanto eu – por meu pai ser caminhoneiro e minha mãe ser artesã e a Vanderleia, pelo pai ser construtor e a mãe ser dona de casa – se não me engano – não éramos consideradas alunas de baixa renda, por isso não recebemos o uniforme distribuído pela prefeitura.

No outro ano, além dos pedaços de tecidos, havia um suéter azul marinho os quais todos receberam, independente da situação financeira.

A exigência quanto ao uso do uniforme era rigorosíssima.

Geni, que estudava comigo na terceira série, certa vez teve que ir embora: estava sem o uniforme.

Certa vez, tio Pedro que vendia roupas e vinha de vez em quando para Tramandaí, apresentou um abrigo horrível preto, que era uma das cores permitidas para uniforme – minha mãe não teve dúvidas quando percebeu que a numeração era muito maior do que o eu realmente usava.

Eu tentei várias vezes rasgá-lo.

Não adiantava era de linho e dos bons, para meu azar.

Ninguém tinha igual na escola.

04/12/2.010

O caminho

Por: Josaine Airoldi

Ter uma bicicleta e morar perto da escola foram fundamentais para a terceira série da qual eu fazia parte, ganhar a gincana em homenagem ao dia das crianças em 1.983

Eu não tinha nenhum dos dois requisitos.

Talvez, por isso a professora não tenha me deixado participar da comemoração, me expulsou, ou melhor, me enxotou. Acho que foi por maldade mesmo. Até hoje não consigo entender o motivo.

Enquanto eu tentava dizer: “eu não posso ir embora, não sem a minha irmã, ela batia o pé com força no chão e gritava:

– Vai embora…

Lembro que abaixei a cabeça e no caminho rasguei o poema que havia levado – não tinha sido necessário e, além disso, não tinha sido criado por mim.

Tentando esconder os olhos inchados, enfim, cheguei em casa. Fui recebida com uma enxurrada de xingamentos seguidos de perguntas, mas nenhuma foi…

– O aconteceu contigo para ter vindo para casa sozinha chorando?

30/06/2.010

Eclipse

Por: Josaine Airoldi

Recriou no seu mundo particular e solitário o mundo exterior.

Com o passar do tempo a solidão começou a incomodá-lo.

Procurou-a e atraiu de seu modo.

Aos pouco foi percebendo que a princesa escolhida queria desbravar a imensidão que é o mundo real e precisava de alguém como ele, por isso o aceitou.

Ela lhe deu o frescor da juventude.

Ele lhe deu a segurança do homem adulto.

Embora, poucas vezes um tenha participado do mundo do outro, ao modo deles, foram felizes.

Ora, se até o sol e a lua se encontram durante um eclipse,  é possível que aconteça o mesmo com quem prefere a fantasia a realiadade e com quem prefere a realidade a fantasia, às vezes.

09/11/2.010

Habilidades e competências

Por: Josaine Airoldi

Segunda-feira.

Amanhece.

Manhã gelada.

Tenho que levantar.

Penso e repenso nos prós e contras.

O telefone que está na sala toca.

Ignoro.

Ele toca novamente.

Não desistem.

Levanto após muito esforço. 

Não era nada de importante.

Poderia não ter atendido, mas atendi e para atendê-lo levantei; se me levantei vou ter que ir.  

Banheiro.

Escovar os dentes.

Banho

Toalha.

O que vestir?

Qualquer roupa que me mantenha aquecida.

Saio.

Percebo que está mais frio do que eu imaginava.

Chego.

Todos reunidos.

Tento não ser notada.

Sento sem fazer muito barulho.

Já basta chegar atrasada.

Não consigo me concentrar.

Preciso estar aqui?

Posso não estar?

Talvez.

Aqui estou: congelada.

Não sinto os meus pés.

Estão paralisados.

Escuto sem muita vontade.

O assunto do momento é: habilidades e competências.

Grupo.

Aceitação.

Diferenças.

Autossuficiência.

Autonomia.

Ao longo dos anos nessa profissão descobri que algumas coisas jamais irão mudar e que fazem parte do processo.

Descobri que se escrever, mesmo que bobagens o tempo passa mais rápido.

Então escrevo.

Escrevo para conseguir aguentar o frio congelante do mês de julho.

Escrevo sobre o quê?

Não é importante sobre o que escrever.

O importante é escrever.

Aprisionar os pensamentos que estão à solta na tentativa da manutenção da sanidade mental.

O tempo está passando mais rápido agora.

O frio está diminuindo, pois o sol está se impondo..

Continuo escrevendo: trechos da palestra.

Trechos de conversas paralelas ao meu redor.

Trechos de algumas constatações óbvias olhando tudo em volta.

Jamais vou conseguir realizar tudo o que deixei para trás.

Não vou ser popular na escola, embora eu ainda esteja na escola.

Não vou ser uma exímia dançarina.

Há coisa que se não acontecem no tempo que tem que acontecer nunca se tornarão reais.

Não vou ser uma boa cozinheira, simplesmente não gosto de cozinhar, embora acho esse ofício sublime.

Talvez, possa continuar sendo uma boa amiga, uma filha compreensiva, uma irmã presente, uma mãe carinhosa, uma esposa companheira, uma profesora eficiente… Para uma existência,  talvez basta.

Afinal, certas habilidades são para certas pessoas que têm certas competências ou vice-versa.

21/ 07/ 2.019