Por: Josaine Airoldi
Década de 80 e início dos anos 90 só quem sobreviveu pode dizer que foram tempos bastante bizarros.
Os brinquedos eram latas de azeite e potes de margarina onde fazíamos comida, que consistia misturar areia com água.
Brincávamos até tarde no pátio próximas a porta da cozinha para aproveitarmos a luz do lampião, reproduzindo os programas de televisão que conseguíamos ver de vez em quando.
Os desenhos animados eram politicamente incorretos.
Assistíamos no cinema Coimbra os filmes do Teixeirinha.
Às vezes, à noite ía com as tias Vera e Neca – na casa da dona Luci enroladas em cobertores se estivesse muito frio olhar a novela das 8 horas. Apesar das indicações de censura: “Programa proibido para menores de 12 anos” – dizia uma voz – enquanto na tela da televisão havia um lembrete enorme.
Nos intervalos da novela víamos…
A Pepsi anunciando que era melhor que a Coca-Cola. Refrigerante só aos domingos e quando recebíamos visita, que vinham sem avisar, pois não havia como, pois ter telefone em casa era um luxo para poucos.
Tinha também um gurizinho que não deixava os pais esquecerem de comprar uma Caloi para ele.
Os anúncios diziam que as donas de casa poderiam escolher entre os eletrodomésticos da Walitta e da Arno.
Os cereais anunciavam que continham mais açúcar que antes e, por isso estavam melhores ainda.
O sonho das meninas da época era ter a Melissinha que vinha com a pochetezinha. Como não lembrar da Barbi – que a cada semana tinha uma profissão diferente.
Havia uma menina que trazia um Laka para o namorado, mas como ele demorava para encontrá-la, comia o chocolate e para compensá-lo beijava-o.
Como não lembrar das propagandas das lojas: Mesbla, Arapuã, Alfred, J.H. Santos – nenhuma existe mais.
Era comum buscar cigarro no armazém do Oli ou da Ivanir – para os adultos – para poder comprar balas com o troco.
Entregava leite na casa dos vizinhos. Alguns eram simpáticos como a dona Lurdes, que me convidava para entrar, enquanto despejava o leite em outro recipiente. Outros eram antipáticos e me deixava esperando na porta.
No bairro viveu o seu Elpídio – velho ranzinza e mal encarado, mas que de vez em quando – me presenteava com favos de mel quando ia comprar mel. A casa da família era muito bonita e diferente das demais.
Entregava a revistinha da Avon na casa das senhorinhas que, adoravam comprar perfumes adocicados com os quais enfeitavam a penteadeira no quarto.
Havia os porcos os quais costumavam fugir da “mangueira”. Acho que eles não gostavam muito desse lugar, pois seguidamente invadiam as plantações de milho e aipim dos vizinhos. Eu ficava com muita envergonha quando o seu André me dizia com olhar de pena: os porcos do teu pai fugiram de novo, menina? Tenho um cicatriz na perna resultado de um arranhão produzido pelo arame farpado e tive muitas roupas rasgadas em busca dos fujões.
Como não mencionar os porres de vinho com açúcar e água que tomávamos durante os almoços de domingo com os guris da Célia e netos da Dona Conceição, que sempre que nos dava laranjas do céu quando íamos na chácara buscar.
No inverno relacionávamos os dias de intensa chuva a dias felizes. Chovendo não poderia haver a colheita nem de arroz e nem de cana e por consequência não teria o que transporar, então o pai vinha para casa. Equação simples, mas gostávamos de pensar que ele vinha por termos subido em algum latão e chamado por ele. Vindo para casa tínhamos um certo descanso do comportamento tempestuoso da minha mãe.
Nos dias quentes, íamos buscar gelo na casa da dona Luci, a mesma em que íamos para olhar televisão.
Andávamos no porta-malas do carro – dos namorados das minhas tias – inclusive era disputado pela garotada.
Havia os espertalhões que apareciam vendendo produtos excepcionais, que não passavam de engodo, o que era constatado após algum tempo, depois que já estavam distantes enganando outras pessoas.
Tinha um senhor que vinha vender frutas e verduras numa carroça pequena. Usava uma balança manual. Era sério. Quase nunca sorria. Não sabíamos o nome dele. Minha avó criou um apelido para ele, acho que era meio ofensivo, pois tinha medo que descobrisse a maneira que nos referíamos a ele.
Era comum os pedintes serem bem acolhidos recebendo um prato de comida bem generoso e água.
Às vezes, apareciam os fotógrafos que se ofereciam para restaurar fotografias trazendo-as tempos depois em molduras ou produzir em casa um ensaio fotográfico com as crianças da família, tudo bem pitoresco.
As balas eram extremamente gostosas e perigosas, embora ninguém tivesse essa noção na época.
Se engolíssemos o cliché minha avó vinha correndo uma colher com azeite para tomarmos, se não teríamos as tripas grudadas.
Tínhamos cofrinho onde colocávamos moedas que depois eram depositadas na poupança da Caixa Econômica Federal. O cofrinho em questão era uma lata de cerveja recolhida na rua.
Minha irmã do meio tinha como hábito apanhar de meninas maiores que ela e se tornarem melhores amigas depois.
Como não lembrar da celebre frase: se não for do jeito que quero, não brinco mais.
Além dos temidos tiradores de sangue que povoavam minha imaginação de medo.
Éramos felizes e sabíamos.
11/03/2.019
