Santa Louca

Por: Josaine Airoldi

Minha irmã tinha um medo danado que seus preciosos bicos fossem doados àquela triste e sofrível criatura, que até onde eu sei nunca fez mal a ninguém.  

Sempre mancando e maltrapilha – usava uma saia muito curta que deixava aparecer a calcinha com rendinhas e um monte de bicos pendurados no pescoço. Vinha não sei de onde e ia para não sei onde.

Diziam que ela tinha tido uma recaída – depressão pós-parto – nome mais adequado aos dias de hoje. Eu achava a palavra engraçada e não conseguia entender como alguém poderia enlouquecer apenas por ter encontrado o marido dormindo com a irmã dela, que era quem estava cuidando do filho recém-nascido abandonado por ela. 

Por que a chamavam de Santa Louca eu nunca soube. O que eu sei é que ela ficou para sempre no meu imaginário.  

05/05/2.020

Não tinha lugar para mim

Por: Josaine Airoldi

Estávamos voltando da escola quando o caminhão passou por nós, sai em disparada, gritando para os que – supostamente ficariam para trás – que iria embora de carona. Como meu pai não parou, fiquei paralisada no meio da rua sob o sol escaldante de setembro,  suportando meus colegas rindo de mim.

Meu pai me disse quando cheguei em casa,  que eu poderia machucar minha irmãzinha, por isso  não tinha lugar para mim.

Mesmo tendo só 9 anos minha infância tinha sido decretada como acabada pela minha mãe e meu pai a partir daquele dia, afinal eu era a mais velha, então teria que cuidar da irmã mais nova –  aquela que tanto tinha pedido, desesperadamente, para os aviões que avistava percorrendo o céu; trouxesse e teria que continuar tendo um comportamento exemplar para a irmã do meio,  que também não gostou da sua nova função na família.

Onde minha condição de criança ficava nessa equação?

16/04/2.020

P.S. Somente agora é que soube que os “TDAH” tem baixíssima tolerância a qualquer tipo de rejeição. Minha irmã está com 42 anos e eu sempre que leio ou lembro desse texto eu me vejo naquela manhã de setembro.

17/09/2.025

É como andar de bicicleta

“Que possamos lembrar somente dos bons momentos.”

Por: Josaine Airoldi

                                                                            

É como andar de bicicleta – alguns dizem quando querem se referir ao que nunca esquecemos, uma vez aprendido, mas esquecem-se como é difícil aprender.

Os adultos em volta diziam que era fácil: é só se  equilibrar e pedalar.

Eu não conseguia: ou me equilibrava ou pedalava. As duas coisas juntas não eram possíveis: o chão era o limite.

Ela, a bicicleta na qual eu tentava – sem muito sucesso andar – não tinha rodinhas. Eu também não tinha mais idade para uma daquelas. Era uma Caloi 10. Enorme para mim. Além disso, não era minha. Era da minha tia que sabia andar e costumava nos levar na garupa de vez em quando.

Eu aprendi a andar de bicicleta depois de… 

Ter levado muitos tombos…

Ter ralado os joelhos…

Ter machucado os cotovelos…

Entre outras coisas que acontecem com quem quer aprender a andar de bicicleta…

Quando tivemos a nossa bicicleta. Era para eu andar primeiro – disseram.

Minha irmã não me deixou ter esse prazer, mesmo com os pneus murchos ela deu a primeira pedalada. Caiu logo em seguida, mas foi quem andou primeiro.

Era vermelha. Não tinha muitos detalhes, mas era indicada para meninas por ser mais leve e fácil de andar.  

Chamávamos de Moto Laser era o nome de um seriado que passava na televisão aos domingos.

Muito nos divertimos com ela: eu e minha irmã.

Ela, a Moto Laser e todas aventuras que nos proporcionou são algumas coisas que gosto de lembrar para não esquecer…

15/03/2.020

Embruxada

Por: Josaine Airoldi

Minha irmã caçula herdou do meu pai os olhos azuis que tanto a minha mãe desejou durante a gravidez e também as crises de asma do meu avô.

Foi benzida por todas as curandeiras da cidade, inclusive minha avó que tinha o costume de “coser” os males de quem precisasse e pedisse.

Foram ensinadas inúmeras simpatias para curá-la. Todas feitas a risca. Nenhuma, até hoje, surtiu efeito.

Certa vez, alguém sugeriu que a menina estava embruxada, por isso continuava tendo crises e não se curava.

– Como assim, embruxada? Havia uma bruxa entre nós? – Eu me questionava.

A conversa dos adultos continuava indiferente a minha expressão de medo e espanto, ouvindo tudo aquilo.

– Isso mesmo. A bruxa é a primeira pessoa que vier aqui amanhã. – Explicou aquela que parecia entender bastante do assunto. Era preciso que essa pessoa deixasse de ter contato com a criança para as crises acabassem.

Quase não dormi naquela noite. Precisava conferir quem era a bruxa. Será que seria igual as que apareciam em livros e filmes que passavam na televisão?

Eu tinha certeza que a bruxa – aquela que estava causando todo o mal – era uma senhora muito feia e se assemelhava a uma criatura das trevas – que era muito amiga da família e frequentemente estava lá em casa.

Qual não foi a surpresa de todos quando a tia Wilma chegou. Não conseguia olhar para ela. Ela era muito engraçada, sempre nos fazia rir muito de qualquer coisa, além disso, nunca havíamos falar em bruxa loira.

Não me recordo com foi recebida por nós, mas todos que a conheceram guardam com carinho boas lembranças suas.

Não sei se a tia Wilma ficou sabendo que era uma bruxa, mas se soube, certamente, deu muitas gargalhadas.

16/05/2.020

Uma história puxa outra!

O ultimo adeus https://wp.me/pbBYGl-hP

O sorriso da Gracinha

Por: Josaine Airoldi

Ela sempre foi muito bonita e tem um sorriso encantador.

Em todas as aulas esperávamos a mesma cena: ela ir apontar o lápis e próximo à lixeira ficar rindo baixinho.

Do que ria? Não me lembro. Acho que não tinha motivo. Talvez, o que gostava era a “quebra” na rotina da aula.

Estávamos em processo de redemocratização no Brasil.

Naquele tempo, quem não usava o uniforme era impedido de assistir à aula e tinha que voltar para casa imediatamente.

Havia também a aplicação de castigos como: cheirar parede ou permanecer com os joelhos em uma tábua com tampinhas viradas para cima, além dos puxões de orelha…

Em setembro, enfileirados e uniformizados com chuva ou sol marchamos e exaltamos a pátria mãe gentil.

Em casa, à noite ouvíamos o pronunciamento do Excelentíssimo Presidente da República General João Figueiredo, que interrompia a programação normal dos canais de televisão, sempre que bem entendia.

Lembro-me também do Hino Nacional Brasileiro sendo cantado pela Fafá de Belém em meio a uma multidão pedindo: Diretas já!

Acompanhamos pelo Jornal do Almoço as conturbadas brigas do ex-casal: Teixeirinha e Mary Terezinha.

Ao se apaixonar por outro, ela deixou o Rio Grande do Sul dividido.

Mais tarde, ele deixou a todos nós de luto.

Havia, aqui, as peripécias do então prefeito: Sessim – aquele que é até hoje – é idolatrado ou odiado pelos que o conhecem.

Foram tempos confusos para quem não entendia muito bem o que estava acontecendo.

Na minha concepção eu só precisava ser comportada, que nada de ruim aconteceria.

Assim era na escola e assim era em casa.

Acho que por isso o sorriso da Rosângela, a Gracinha, me remetia a ideia que eu poderia também  subverter a ordem, pelo menos por alguns instantes.

29/04/2.020

Uma história puxa outra!

https://lembrarparanaoesquecerinfo.data.blog/2021/01/23/se-eu-tivesse-uma-mochila

Os tiradores de sangue

“Naquele tempo nossos medos eram outros.”

Por: Josaine Airoldi

Esqueça o homem do saco, o bicho papão, a mula sem cabeça e todas as formas de amedrontar às crianças, nenhum deles me provocava medo.

Eu receava ser atacada pelos tiradores de sangue.

Não se trata de vampiros, embora eles também não existam.

Não sei de quem eu tinha mais medo se da minha mãe ou se deles.

Na volta da escola era sempre a mesma coisa.

Se eu a seguisse, desobedeceria minha mãe.

Se eu não a seguisse ela os acionava.

Bravamente e solitariamente eu seguia pelo caminho indicado pela minha mãe enquanto ela chamava: Os tiradores de sangue.

Embora eles nunca tivessem aparecido, eu os temia.

Ela era assim sempre tinha uma brincadeira, uma história ou uma solução para tudo.

Uma das nossas brincadeiras consistia em brincávamos de “casinha” numa casa de verdade.

 A filha dela era sempre a minha irmã.

Era em quem dava banho, colocava bastante talco e após vesti-la com a sua melhor roupa, saíamos para passear.

Ela sempre com algum sapato ou sandália de salto alto da minha tia.

 Às vezes, eu era a professora; ela a mãe preocupada.

Certa vez quando veio buscar o boletim da filha eu seriamente usei uma expressão corriqueira o cotidiano escolar:

  – Sua filha passou raspando.

Começaram a rir sem parar.

Primeiro ela depois a filha que nunca tinha frequentado a escola e não fazia a menor ideia o que significava o que eu havia falado. Isso foi o que me dava mais raiva: o poder que tinha para influenciar as pessoas.

 Fiquei profundamente chateada, ora não era para brincar com a brincadeira.

Quando era na sua casa as brincadeiras eram outras.

Fazíamos orelhas de macaco – era para serem bolinhos fritos.

Atrapalhávamos o namoro da minha tia com um dos irmãos dela.

Como não tínhamos luz elétrica eles gostavam de namorarem no escuro ou tentarem pelo menos.

 Queimar papel higiênico sujo, certa vez quase incendiei a “patente” não havia banheiro.

 Quando brincávamos trocávamos de nome.

Tínhamos nossa amiga e vizinha imaginária: a Lita.

 Também, brigávamos muito, principalmente quando ela queria fazer aquilo que eu não podia fazer.

Eu sabia que na hora de ser responsabilizada era eu quem tinha que arcar com as consequências porque ela estaria longe.

Como éramos três, é claro que eu sobrava.

Às vezes o meu primo me defendia e batia nela com uma toalha de um modo que somente ele conseguia.

Nunca brigamos fisicamente, mas eu gostava quando ele se vingava dela por mim embora eu achasse exagerada atitude dele em relação ao que havia acontecido; porém era bom me sentir protegida.

Talvez seja por isso que ela usou seu olhar malicioso para insinuar que eu tinha feito algo com ele que não fiz.

Se eu soubesse que isso somente aconteceria dez anos depois e com outra pessoa não teria ficado tão magoada e não teria ficado quase um ano sem conseguir olhar para ela.

 Só voltei a conversar com ela depois depois.

 Com certeza, ela foi minha melhor e pior amiga de infância que eu tive.

                                                                                              27/ 11/ 2.010

Se eu morresse agora…

Por: Josaine Airoldi

Começou no sábado.

O domingo foi mais tranquilo.

Na segunda-feira, mesmo me sentindo mal fui trabalhar. Era importante terminar as atividades pendentes.

Como o xarope não fez efeito, tive que compreender que estava doente e precisava de opinião médica. Então, esperei pacientemente durante a terça-feira o Márcio voltar de Esteio, para que me levasse ao hospital. Quando, enfim sou atendida recebo o diagnóstico: gripe. Compro todos os remédios prescritos.

Como o tratamento não fez efeito em três dias pois o corpo todo continua doendo. Não parava de tossir. Às vezes, segurava a respiração para não sentir dor, volto ao hospital, pois tenho direito a reconsulta.

Outro médico. Que bom! – penso. Eu tinha certeza que o diagnóstico estava errado e que se estivesse certo o tratamento estaria melhor.

Nova decepção: o médico me trata de maneira indiferente e mantêm o tratamento e acrescenta um remédio para dor no estômago. Com muita má vontade me dá um atestado de dispensa do trabalho por um dia.

O tratamento continua não fazendo nenhum efeito: respirar dói muito..

Preciso de um médico em quem confiar. Lembro do Doutor Ricardo. Espero bastante para ser atendida – horário de “encaixe”.

Ao sair do consultório com uma receita de remédios para o tratamento de pneumonia e atestado médico para sete dias, reparo nas minhas unhas mal cuidadas. Nesse instante percebo o quanto seria ruim se eu morresse agora com as unhas quebradas desse jeito. Morrer é inevitável, contudo manter as unhas bem cuidadas é possível.

04/09/2.010

Popularidade abaixo de zero

Por: Josaine Airoldi

Levanta a mão a menina que quis ser popular na escola!

Sempre quis ser popular. Sempre achei que toda menina deseja isso.

Poderia ser: ter algo para contar, ou para quem contar. Ser a mais inteligente. Para mim, qualquer coisa servia…

Ah! Mas tinha coleguinhas que eram bastante populares.

Ela era muito bonita e…

Havia o pedágio que ela cobrava das demais meninas da Escola para que pudessem usar o

banheiro.

Quem não tinha como “pagar” passava por debaixo de suas pernas abertas.

Certa vez fui convidada para ir a sua casa após a aula. Nunca cheguei. Embora fosse perto, mas não foi porque era na direção contrária ao meu trajeto.

Estávamos indo, eu extremamente feliz por conseguir esse convite.

Quando…

Um carro para de repente. Um homem sai correndo. Junta desesperado um menino do chão coloca-o no carro. Sai em disparada. Então vemos outro menino completamente abalado, sem entender direito o que havia acontecido. Ficou assim o resto o ano ou da vida, não sei.

Às vezes, vejo essas imagens e me pergunto e se fosse em outro dia…

Na época e bem depois só tive uma amiga de infância.

Ela era muito popular. Todos gostavam dela. Exceto a sua família. Era adotada e parecia que tinha que pagar eternamente por ter sido acolhida, mas na minha família ela sempre tinha vez.

Certa vez encontrou um, penico.

Isso mesmo um penico no meio do lixo perto da escola onde estudávamos.

Não teve duvida. Lavou-o. Deixou secar e saiu com ele na cabeça. Todos riam de sua atitude.

Eu?

Estava com ela.

Minha quase xará…

Nunca me esqueci dela.Fez xixi na sala de aula.

Recordo dela em pé.

Apontando para o chão.

Virou assunto na escola.

Todos condenaram a professora Beatriz.

Afinal, ela tinha pedido para ira ao banheiro.

Por muito tempo foi assunto preferido da escola.

Ela era alta, rechonchuda e…

… A preferida dos que não levavam lanche.

Ela levava: quase meio quilo de pão caseiro:

– Minha mãe é quem faz! – dizia sempre, orgulhosa.

O pão em questão era recheado com salame e queijo, talvez margarina ou outra coisa qualquer.

O lanche era devorado com os olhos por muitos.

Repartia? Claro! Com os “irmãos.”

Não como os de verdade. Era filha única. Os irmãos eram dois colegas que a convenceram brincar que eram irmãos na hora do lanche e somente nesse momento. Então ela sorria um sorriso gordo.

Eu olhava aquilo não acreditando, como poderia ser tão burra de acreditar num história dessas. Parecia que o pão não tinha fim.

Eu os observava. Ela se comprazia em barganhar com eles. Não era o lanche que eu queria.

Ela…

…Tinha uma história triste da qual só recordo que morava com a madrinha numa casa muito bonita, perto da escola.

A madrinha lhe proporcionava tudo que uma garota naquela idade e naquela cidade poderia desejar.

Tinha todos os produtos que apareciam: “Os Menudos”.

Lembro-me também que sempre dizia:

– Máquina lava! – enquanto jogava futebol, descalças, usando nos pés apenas meias alvíssimas.

Eu nesse momento só pensava: será que ficarão novamente branquinhas essas meias…

Acho que isso não importava a ela.

Apenas, por alguns momentos e por razões completamente inusitadas, inesperadas ou não propositais fui o “centro” das atenções dos meus “coleguinhas” de escola.

Certa vez, o bilhete…

Era para a professora – raríssimos, mas esse existiu.

Velório em Porto Alegre.

Tenho que sair mais cedo.

Eu não iria ao velório.

Eu tinha que estar em casa para ajudar no quê, eu não recordo.

Também nunca compreendi o porquê do bilhete ter sido lido em voz alta. Enfim…

As meninas, todas, sentadas em volta de mim – eu recordo muito bem.

Queriam saber detalhes a respeito do velório de um primo que nunca conheci.

Tinha pouquíssima informação. Tinha que estar em casa mais cedo. Não tinha com responder a tantas perguntas. Lamentei por muito tempo.

Fui embora mais cedo desejando que aquele momento durasse para sempre.

Certa vez fui para a escola: vestida para arrasar…

A roupa era da minha tia, que resolveu brincar de boneca comigo.

Cheguei à escola.

As meninas ficam curiosas querendo saber onde tinha comprado.

Ainda atordoada e surpresa com tantas perguntas respondia meio débil a todas:

– Não é minha, é da minha tia.

Foi um momento estranho e mágico ao mesmo tempo.

Devolvi a ela agradecida por ter me proporcionado aquele momento em que todos os olhares se voltaram para mim ou para a roupa que estava vestindo, para mim não importava muito: fiquei popular na escola.

Ela, tempos depois deu a saia azul com bolsos e a blusa branca com detalhes coloridos para a minha irmã.

Sempre quis saber: por que não para mim?

30/ 06/ 2.010

Uma história puxa outra!

https://lembrarparanaoesquecerinfo.data.blog/2020/09/13/candidata-a-amiga/