Ter uma bicicleta e morar perto da escola foram fundamentais para a terceira série da qual eu fazia parte, ganhar a gincana em homenagem ao dia das crianças em 1.983
Eu não tinha nenhum dos dois requisitos.
Talvez, por isso a professora não tenha me deixado participar da comemoração, me expulsou, ou melhor, me enxotou. Acho que foi por maldade mesmo. Até hoje não consigo entender o motivo.
Enquanto eu tentava dizer: “eu não posso ir embora, não sem a minha irmã, ela batia o pé com força no chão e gritava:
– Vai embora…
Lembro que abaixei a cabeça e no caminho rasguei o poema que havia levado – não tinha sido necessário e, além disso, não tinha sido criado por mim.
Tentando esconder os olhos inchados, enfim, cheguei em casa. Fui recebida com uma enxurrada de xingamentos seguidos de perguntas, mas nenhuma foi…
– O aconteceu contigo para ter vindo para casa sozinha chorando?
Certa vez fomos a sua casa: eu e a Gorete. Eram em torno das 19 horas. Quando vi aquela cena, achei inacreditável: estava sentado à frente da televisão, concentradíssimo assistindo ao RBS Notícias, com as pernas cruzadas e nos pés um sapato ilustradíssimo de bico fino. Assim permaneceu, sem demonstrar qualquer entusiasmo pela nossa presença. Então, o apelidamos de Bico Fino.
Na nossa concepção adolescente, havia algo errado, pois aquele rapaz era para estar interessado em nós e não no que estava acontecendo de importante no mundo e principalmente, usar como qualquer adolescente, tênis.
A mãe fazia o que podia para ver o filho namorando uma de nós. Éramos as convidadas especiais em todos os aniversários. Acompanhava-o no nosso aniversário. A parte divertida desses encontros ficava por conta dos irmãos menores, que eram bem engraçados.
De vez em quando, nos encontrávamos, ele de bicicleta voltando do trabalho, eu a pé, voltando da Escola, conversavamos sobre frivolidades e outras coisas, até chegarmos na rua onde morávamos.
Quando completou 18 anos se alistou e para seu descontentamento foi convocado. Não seguiu carreira militar. Quando voltou para casa, começou a namorar uma menina que não conhecíamos e aos poucos fomos nos afastando.
Eu achava que não iria durar o namoro, que era apenas momentâneo, pois a garota parecia ser o avesso de nós. Quando ela engravidou. Foram morar juntos na casa da mãe dele.
Tempos depois, às vezes, nos encontrávamos e conversávamos sobre tudo e nada de importante, como antigamente enquanto esperávamos o ônibus para irmos ao trabalho.
Apenas por educação perguntava pelas meninas. Dizia que eram meninas lindas e parecidas com ele.
– Estão bem. – Respondia com timidez e certo orgulho.
Perto da minha casa havia uma família que produzia carvão.
Eram conhecidos como: os carvoeiros.
Na chácara onde moravam tinha um portão altíssimo e em cima tinha a cabeça de boi ou vaca com uns chifres enormes que eu e a Nane apelidamos de Valério.
Valério era um menino chato que defendia as formigas que, na falta de algo melhor para fazermos, gostávamos de matá-las.
Certa vez, apareceu outro menino.
Era franzino, bem mais velho que nós, com sardas no rosto e com cabelo meio avermelhado.
Nós morríamos de inveja dele por ter uma bicicleta, mas como não queríamos que ele percebesse fingíamos que estávamos muito bem indo e vindo a pé da escola todos os dias.
O que fazia ele inventar maneiras diferentes de passar por nós todos os finais de tarde.
Fez tanto até que conseguiu chamar a atenção.
Parou a nossa frente, retirou da sacola um pote, abriu-o, bezuntou o dedo, lambendo–o logo em seguida.
O que é isso? – queríamos saber.
– É chimila – respondeu.
– Chimia! – Corrigimos.
– Não, chimila! – Repetiu
Apelidamos de Chimila, o filho do carvoeiro, que a partir daquele momento passou a ser oficialmente nosso amigo.
Minha irmã tinha um medo danado que seus preciosos bicos fossem doados àquela triste e sofrível criatura, que até onde eu sei nunca fez mal a ninguém.
Sempre mancando e maltrapilha – usava uma saia muito curta que deixava aparecer a calcinha com rendinhas e um monte de bicos pendurados no pescoço. Vinha não sei de onde e ia para não sei onde.
Diziam que ela tinha tido uma recaída – depressão pós-parto – nome mais adequado aos dias de hoje. Eu achava a palavra engraçada e não conseguia entender como alguém poderia enlouquecer apenas por ter encontrado o marido dormindo com a irmã dela, que era quem estava cuidando do filho recém-nascido abandonado por ela.
Por que a chamavam de Santa Louca eu nunca soube. O que eu sei é que ela ficou para sempre no meu imaginário.
Estávamos voltando da escola quando o caminhão passou por nós, sai em disparada, gritando para os que – supostamente ficariam para trás – que iria embora de carona. Como meu pai não parou, fiquei paralisada no meio da rua sob o sol escaldante de setembro, suportando meus colegas rindo de mim.
Meu pai me disse quando cheguei em casa, que eu poderia machucar minha irmãzinha, por isso não tinha lugar para mim.
Mesmo tendo só 9 anos minha infância tinha sido decretada como acabada pela minha mãe e meu pai a partir daquele dia, afinal eu era a mais velha, então teria que cuidar da irmã mais nova – aquela que tanto tinha pedido, desesperadamente, para os aviões que avistava percorrendo o céu; trouxesse e teria que continuar tendo um comportamento exemplar para a irmã do meio, que também não gostou da sua nova função na família.
Onde minha condição de criança ficava nessa equação?
16/04/2.020
P.S. Somente agora é que soube que os “TDAH” tem baixíssima tolerância a qualquer tipo de rejeição. Minha irmã está com 42 anos e eu sempre que leio ou lembro desse texto eu me vejo naquela manhã de setembro.
É como andar de bicicleta – alguns dizem quando querem se referir ao que nunca esquecemos, uma vez aprendido, mas esquecem-se como é difícil aprender.
Os adultos em volta diziam que era fácil: é só se equilibrar e pedalar.
Eu não conseguia: ou me equilibrava ou pedalava. As duas coisas juntas não eram possíveis: o chão era o limite.
Ela, a bicicleta na qual eu tentava – sem muito sucesso andar – não tinha rodinhas. Eu também não tinha mais idade para uma daquelas. Era uma Caloi 10. Enorme para mim. Além disso, não era minha. Era da minha tia que sabia andar e costumava nos levar na garupa de vez em quando.
Eu aprendi a andar de bicicleta depois de…
Ter levado muitos tombos…
Ter ralado os joelhos…
Ter machucado os cotovelos…
Entre outras coisas que acontecem com quem quer aprender a andar de bicicleta…
Quando tivemos a nossa bicicleta. Era para eu andar primeiro – disseram.
Minha irmã não me deixou ter esse prazer, mesmo com os pneus murchos ela deu a primeira pedalada. Caiu logo em seguida, mas foi quem andou primeiro.
Era vermelha. Não tinha muitos detalhes, mas era indicada para meninas por ser mais leve e fácil de andar.
Chamávamos de Moto Laser era o nome de um seriado que passava na televisão aos domingos.
Muito nos divertimos com ela: eu e minha irmã.
Ela, a Moto Laser e todas aventuras que nos proporcionou são algumas coisas que gosto de lembrar para não esquecer…
Minha irmã caçula herdou do meu pai os olhos azuis que tanto a minha mãe desejou durante a gravidez e também as crises de asma do meu avô.
Foi benzida por todas as curandeiras da cidade, inclusive minha avó que tinha o costume de “coser” os males de quem precisasse e pedisse.
Foram ensinadas inúmeras simpatias para curá-la. Todas feitas a risca. Nenhuma, até hoje, surtiu efeito.
Certa vez, alguém sugeriu que a menina estava embruxada, por isso continuava tendo crises e não se curava.
– Como assim, embruxada? Havia uma bruxa entre nós? – Eu me questionava.
A conversa dos adultos continuava indiferente a minha expressão de medo e espanto, ouvindo tudo aquilo.
– Isso mesmo. A bruxa é a primeira pessoa que vier aqui amanhã. – Explicou aquela que parecia entender bastante do assunto. Era preciso que essa pessoa deixasse de ter contato com a criança para as crises acabassem.
Quase não dormi naquela noite. Precisava conferir quem era a bruxa. Será que seria igual as que apareciam em livros e filmes que passavam na televisão?
Eu tinha certeza que a bruxa – aquela que estava causando todo o mal – era uma senhora muito feia e se assemelhava a uma criatura das trevas – que era muito amiga da família e frequentemente estava lá em casa.
Qual não foi a surpresa de todos quando a tia Wilma chegou. Não conseguia olhar para ela. Ela era muito engraçada, sempre nos fazia rir muito de qualquer coisa, além disso, nunca havíamos falar em bruxa loira.
Não me recordo com foi recebida por nós, mas todos que a conheceram guardam com carinho boas lembranças suas.
Não sei se a tia Wilma ficou sabendo que era uma bruxa, mas se soube, certamente, deu muitas gargalhadas.
Ela sempre foi muito bonita e tem um sorriso encantador.
Em todas as aulas esperávamos a mesma cena: ela ir apontar o lápis e próximo à lixeira ficar rindo baixinho.
Do que ria? Não me lembro. Acho que não tinha motivo. Talvez, o que gostava era a “quebra” na rotina da aula.
Estávamos em processo de redemocratização no Brasil.
Naquele tempo, quem não usava o uniforme era impedido de assistir à aula e tinha que voltar para casa imediatamente.
Havia também a aplicação de castigos como: cheirar parede ou permanecer com os joelhos em uma tábua com tampinhas viradas para cima, além dos puxões de orelha…
Em setembro, enfileirados e uniformizados com chuva ou sol marchamos e exaltamos a pátria mãe gentil.
Em casa, à noite ouvíamos o pronunciamento do Excelentíssimo Presidente da República General João Figueiredo, que interrompia a programação normal dos canais de televisão, sempre que bem entendia.
Lembro-me também do Hino Nacional Brasileiro sendo cantado pela Fafá de Belém em meio a uma multidão pedindo: Diretas já!
Acompanhamos pelo Jornal do Almoço as conturbadas brigas do ex-casal: Teixeirinha e Mary Terezinha.
Ao se apaixonar por outro, ela deixou o Rio Grande do Sul dividido.
Mais tarde, ele deixou a todos nós de luto.
Havia, aqui, as peripécias do então prefeito: Sessim – aquele que é até hoje – é idolatrado ou odiado pelos que o conhecem.
Foram tempos confusos para quem não entendia muito bem o que estava acontecendo.
Na minha concepção eu só precisava ser comportada, que nada de ruim aconteceria.
Assim era na escola e assim era em casa.
Acho que por isso o sorriso da Rosângela, a Gracinha, me remetia a ideia que eu poderia também subverter a ordem, pelo menos por alguns instantes.
Esqueça o homem do saco, o bicho papão, a mula sem cabeça e todas as formas de amedrontar às crianças, nenhum deles me provocava medo.
Eu receava ser atacada pelos tiradores de sangue.
Não se trata de vampiros, embora eles também não existam.
Não sei de quem eu tinha mais medo se da minha mãe ou se deles.
Na volta da escola era sempre a mesma coisa.
Se eu a seguisse, desobedeceria minha mãe.
Se eu não a seguisse ela os acionava.
Bravamente e solitariamente eu seguia pelo caminho indicado pela minha mãe enquanto ela chamava: Os tiradores de sangue.
Embora eles nunca tivessem aparecido, eu os temia.
Ela era assim sempre tinha uma brincadeira, uma história ou uma solução para tudo.
Uma das nossas brincadeiras consistia em brincávamos de “casinha” numa casa de verdade.
A filha dela era sempre a minha irmã.
Era em quem dava banho, colocava bastante talco e após vesti-la com a sua melhor roupa, saíamos para passear.
Ela sempre com algum sapato ou sandália de salto alto da minha tia.
Às vezes, eu era a professora; ela a mãe preocupada.
Certa vez quando veio buscar o boletim da filha eu seriamente usei uma expressão corriqueira o cotidiano escolar:
– Sua filha passou raspando.
Começaram a rir sem parar.
Primeiro ela depois a filha que nunca tinha frequentado a escola e não fazia a menor ideia o que significava o que eu havia falado. Isso foi o que me dava mais raiva: o poder que tinha para influenciar as pessoas.
Fiquei profundamente chateada, ora não era para brincar com a brincadeira.
Quando era na sua casa as brincadeiras eram outras.
Fazíamos orelhas de macaco – era para serem bolinhos fritos.
Atrapalhávamos o namoro da minha tia com um dos irmãos dela.
Como não tínhamos luz elétrica eles gostavam de namorarem no escuro ou tentarem pelo menos.
Queimar papel higiênico sujo, certa vez quase incendiei a “patente” não havia banheiro.
Quando brincávamos trocávamos de nome.
Tínhamos nossa amiga e vizinha imaginária: a Lita.
Também, brigávamos muito, principalmente quando ela queria fazer aquilo que eu não podia fazer.
Eu sabia que na hora de ser responsabilizada era eu quem tinha que arcar com as consequências porque ela estaria longe.
Como éramos três, é claro que eu sobrava.
Às vezes o meu primo me defendia e batia nela com uma toalha de um modo que somente ele conseguia.
Nunca brigamos fisicamente, mas eu gostava quando ele se vingava dela por mim embora eu achasse exagerada atitude dele em relação ao que havia acontecido; porém era bom me sentir protegida.
Talvez seja por isso que ela usou seu olhar malicioso para insinuar que eu tinha feito algo com ele que não fiz.
Se eu soubesse que isso somente aconteceria dez anos depois e com outra pessoa não teria ficado tão magoada e não teria ficado quase um ano sem conseguir olhar para ela.
Só voltei a conversar com ela depois depois.
Com certeza, ela foi minha melhor e pior amiga de infância que eu tive.