Carta para mim 

        Por: Josaine Airoldi

Enfim, cinquenta anos.

Admito que eu cometi muitos erros, mas acho que o mais grave foi não ter cuidado de mim: me ver refletida no espelho é cruel.  Não é fácil ficar frente a frente com essa minha versão atualizada. As rugas me mostram o quanto deveria ter cuidado da minha pele enquanto era jovem. Os inúmeros fios de cabelos embranquecidos, me dizem que tenho que encontrar tempo para me cuidar. As unhas com esmalte descascando me mostram o quanto deixei de me importar comigo.

Além de muitíssimas mágoas – eu juro que estou tentando apagá-las – e várias  dívidas feitas em meu nome sem o meu conhecimento, uma filha linda, que precisa de uma mãe com equilíbrio emocional para criá-la foi o que ficou do meu casamento.

Tudo que planejei não será mais possível. É necessário rever a rota. Segurar com força o leme dessa nave incandescente que é a minha vida. Sim. Eu tenho que rever meu percurso.

Logo eu, que sinto a necessidade do previsível, que nunca quis ser diferente, que nunca quis chamar a atenção.

Logo eu que sempre escondi minhas dores, que sempre me senti  responsável por tudo sempre…  

Logo eu que preciso do aconchego, que preciso me sentir protegida.

Logo eu que preciso da sensação de calmaria. 

Logo eu que sempre me alimentei da possibilidade de um dia ter um pouco de atenção.

Logo eu que  sou tão o que querem que eu seja, sempre me moldando para caber num lugar que não é meu e como recompensa me contento com míseras migalhas de afeto. De repente, me vejo sozinha, numa solidão absurda, numa casa que não tem nada de minha.

Eu sinto que não construí nada, apesar de ter muitas coisas. Na estante da sala tem a mãe e a professora. Onde estarão as outras “eu”? Elas existem? Por que não estão representadas em lugar nenhum?

Como disse Rita Lee: mulher é um bicho estranho, todo mês sangra. Acho que de uma forma ou de outra todas nós somos estranhas e, às vezes, sagramos.

15/04/ 2.024

9 comentários sobre “Carta para mim 

  1. Eu ainda não cheguei nos 50 mas estou chegando nos 32 e me perguntando onde foi que eu me perdi ou quem na verdade eu sou. Sou tantas e ao mesmo tempo nenhuma e não me vejo refletida por aí, mas eu vejo a sua dor. Eu vejo os seus pedaços e não sei quem você é, mas sei que é capaz de trazer palavras tão lindas que confortam ao mesmo tempo que nos deixam inquietas. Sei, pelo seu texto, que você é uma mulher de 50 anos que teve uma profissão linda e de grande exemplo e que com certeza deve ser uma mãezona.

    Nesse momento da minha vida também estou vendo a casa vazia e isso tem sido desesperador. Porém, em todos os dias que acordamos sei que há esperança, e é isso que venho te trazer, mesmo que um pouco, nessas palavras.

    “Não tenho prata nem ouro, mas lhe dou o que tenho. Em nome de Jesus Cristo, o nazareno, levante-se e ande!” (Atos 3:6)

    Ande, venha para fora descobrir quem você é. Você vai se surpreender, há vida desse lado da dor.

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  2. Josaine, eu já passei do 50 há um bom tempo. Mas por ser homem, a pressão pela aparência é bem menor que das mulheres. Um botox e uma tintura no cabelo vai melhorar sua autoestima. Acho que a sua reflexão através deste texto sobre a sua vida, seja o seu ponto de virada. Há muita coisa boa por acontecer! Aos poucos e sem a sua auto cobrança você irá se reinventando. Ah … E não esqueça de ligar o foda-se! Você já fez muita coisa contra a sua vontade. Já deu né?
    E bola pra frente, um dia de cada vez !

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  3. Tu construistes uma linha do tempo para medir a importância de coisas que geraram algum tipo de valor em cinco décadas. Isso é maravilhoso. Um conselho: tire o peso do que não teve controle. O resto, abrace com carinho a mulher que ajudou você chegar até aqui.

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